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Todos os gatos são cinzentos menos o meu.


Todos os donos têm os gatos que merecem. Acredito nisto.
O Homem faz de conta que é capaz de compreender tudo, mas, no que toca ao seu gato, não existem momentos para fraquezas. Se pensarmos no que dizem sobre os gatos terem sete vidas, qualquer dono de um gato, faria um grande favor há Humanidade em portar-se realmente como um Homem perante isto.
Todos os gatos têm sete vidas? É capaz, mas o meu só precisa de uma, a nossa.
Afinal, que grandes ambições poderá ter um gato? Cuidados, um amor confortável e comida farta. Não vejo grandes diferenças entre nós. Julgam-se os animais domésticos como pessoas. E depois? Todos os dias fazemos racionalizações, que são aquelas mentiras clementes, que servem o propósito de nos fazer sentir melhores. E os gatos nunca nos mentem, manipulam-nos sim, mas inadvertidamente, não sabem que nos estão a mentir, por isso, nunca nos mentem verdadeiramente. E só os gatos o fazem, e só porque a natureza os dotou dessa ferramenta num ambiente doméstico. Foi assim que a evolução lhes concedeu poder.
Um cão nunca nos seria capaz de mentir, o que os torna logo incapazes de serem vistos como pessoas. Mentir é próprio da nossa espécie, mentir deliberadamente, quero eu dizer.
Então, porquê se ama tanto um gato? - Pela mesma razão que se ama alguém humano. - Exactamente igual. O amor cego cresce e cresce até lhe acreditarmos fielmente, da mesma forma como o faríamos com outrém submetido à mesma lei comum. Sucumbir a este amor é simples. Está tudo na comunicação inter-espécie, que, muitas vezes, chega a ser surprendentemente mais eficaz que a nossa.
Todavia, nada lhe sai entre os bigodes, não tem primeiras palavras, nem segundas, é só aquele clarão lúcido que nos ilumina o cérebro, penetrando-nos, como se fosse mesmo uma pessoa a falar-nos ali, a pedir, a exigir, a chorar, a agradecer, a dar... e ficamos ofuscados.
O meu gato gosta da casa, mergulha em longos banhos de língua e passa horas com a língua de fora, limpando-me sem nada dizer, todas as minhas reticências.
Acompanha o meu raciocínio com um simples vislumbre e segue-me só por causa do meu cheiro. Se isto não for aquele amor que a poesia há séculos tenta explicar, não sei então o que poderá ser.

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