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Desalento

Encontro-me triste, abandonado e só. mais cão vadio do que homem, sem ter quem me procure, desalentado, neste fim do mundo que mete dó, com um pé já apontado a um nada que perdure. Pobre espinho curto que a ninguém pica, minh’alma é desventurada e escura, (coitada). Não sabe ser alma, nem cai ou fica. É feita de coisa inerte que nem perdura. Deverei ir mais além, na busca de quem me queira, ou aqui permanecer, tão triste, só e abandonado? Sou vidrinho furado por onde tudo se esgueira, sem vontade sequer, de estar em nenhum lado. E, de olhos fechados, já não sinto sequer este vento, mais me faltam forças para os manter abertos, neste ponto onde estou, sinto só, abandono e desalento, e um sem fim de outros males incertos. Quem me virá buscar a este cume de solidão? Sei-te aí por perto, mas chamar-te, eu nem m’atrevo. Maior será a dor de um tal...
(...) "O " Governo Sombra " nada tem de nocturno, de subterrâneo, de inconsciente. Está penetrado de luz e exprime qualquer coisa de perfeitamente consciente, embora permanente no homem - simboliza a experiência talvez mais frequente na existência, a dupla atracção das duas "tentações" da alma humana: a do bem estar, do amor seguro, dos dias sempre iguais, por um lado; por outro, o da aventura, da insegurança, da graça sempre renovada dos medos e dos mistérios que nos assoberbam, por vezes nos aterrorizam, arrancados ao tempo com trabalho e perigo, como as pedras ao duro flanco da montanha." opinião do leitor: Luis Vaz Morgado

Viver no Passado.

Surpreende-me a minha própria nostalgia por tempos que nem conheci, e dos quais tenho apenas recordações transmitidas por terceiros. Nunca antes me colocara a viver nos anos da geração dos meus pais, mas de tempos a tempos, sou involuntariamente transportado para aí. São somente breves instantes que se dilatam quando passo pela cozinha e o sol ilumina uma determinada cor das paredes. Caio numa fantasia em tons de azul pastel, de um tempo em que havia vacas leiteiras, muito pouca gente, e todas as pessoas se conheciam umas às outras, numa pequena aldeia isolada no cimo de um monte, sobranceira ao rio Ave. Havia ali uma quietude de ledo pasmo que muito me agradava. Velhas que raramente saíam de casa, e a quem eu fazia recados. Casas trancadas no tempo pela penúria ou pelo abandono, algumas mais antigas que as próprias velhas. Não existiam bulícios de inquietações, não se choravam misérias em privado, e em público não havia necessidade para tal, pois as desventuras eram de todos. Um...
Escrevo porque encontro nisso um prazer que não consigo traduzir. Não sou pretensioso. Escrevo para mim, para que eu sinta que a minha alma me fala, por vezes canta-me até, muitas vezes choramos os dois, sozinhos.
A eterna comédia humana. Só quando o pesado caixão de mogno subiu para a berlinda negra, só quando a longa fila de automóveis tristes se pôs em marcha, é que ele acordou do pesadelo e viu, conscientemente viu, toda a sua desgraça. Pela primeira vez chorou; chorou não por ela, mas pela ruína total e sem remédio da sua vida inteira. Porque era assim: a partir daquele momento toda a sua vida desabara convertida num montão de escombros. Debaixo dos destroços, ele jazia sepultado - morrera também. Existem angústias tão desoladoras, tão infinitamente cruéis, que ficamos com a sensação nítida de que passámos já para além da morte. É a eterna tristeza humana também.

Sonhos roubados.

Tenho sonhos doentes na alma só, pequenos, egoístas e mesquinhos, sonhos infelizes e tão pequenininhos, que nem sonho serem sonhos meus. Rasgam-me as noites levando-me a paz. Deixando-me num estado de meter dó. E já sinto saudades de não os ter, de me deitar há noite e não dizer: Adeus! E de não saber ao certo, o que a noite me traz. Tenho sonhos doentes que não tem cura. Carrego estes sonhos comigo, há mais tempo do que tenho memória, tão distante, que nem lembro já em que altura. E que mal terei eu feito? Que mal terei feito, para ter sonhos assim, sonhos sem história! Tenho sonhos doentes, pois tenho, nem bem sei se são parte de mim, ou existem por mero defeito. Deito-me há noite e nem os contenho, Espero somente pelo seu fim.

A sorte posta a nu.

O seu grito estridente de vitória foi inoportuno. Parecia despropositado, embora totalmente justificado. Terá sido somente a constante falta de oportunidades que nos assolava a todos, que o fez destoar, ou talvez o simples facto de Josefina não envergar naquela tarde, a modéstia da roupa de baixo, expondo sem compromissos o seu corpo ainda rijo de mulher madura, perante o aglomerar da multidão de vizinhos que se reunia todas as semanas em sua casa por esta hora. Mas, confesso que o solavanco da sua felicidade absoluta, no exacto instante em que viu o alinhamento perfeito daqueles números no ecrã iluminado da televisão, terá sido em parte, também uma imensa alegria para mim, e para todos os outros infelizes, que sem poderem gozar do luxo de possuírem uma televisão em casa, acabaram por presenciar  ao custo do mesmo valor, o desaire de mais semana de miséria e um espectáculo completo de variedades, composto por um número de magia extraordinário, (a sorte grande de Josefina) e de ...

Refúgio dos Livros

Passatempo a decorrer no blogue de divulgação literária Refúgio dos Livros . Não percam a oportunidade de ganharem um exemplar do meu livro com uma dedicatória especial. Participem!
Eu via dormir aquela desconhecida que entrara na minha vida por arrombamento. Não era bela quando fechava os olhos. Toda a sua sedução se concentrava na voz e naquele olhar castanho tímido. Mas reencontrava no sono uma espécie de infância que me enterneceu, o que provocou em mim uma imediata reacção de censura. Qualquer coisa me dizia que, com ela, o enternecimento seria servidão. Que idade teria? Vinte e nove, trinta e três.. Apaguei o candeeiro da mesinha de cabeceira. A luz de um céu demasiado cheio pela lua, impossível de ser verdadeiro, filtrava-se pelos cortinados, banhando o quarto numa penumbra de açafrão. deslizei para fora da cama para desligar o leitor de CD que continuava a debitar a banda sonora do nosso momento clandestino, demasiado fugaz, demasiado errado. Quando abandonei o quarto, e aquele corpo quente desfalecido pelo fragor da paixão, só trouxe na memória aquela música que me acompanhou até ao fim: O que seria?

Concurso "Governo Sombra"

No criativo blog " Em Jeito de Escrita " foi apresentado um passatempo muito interessante (claro que sou suspeito em afirma-lo, mas fiquei  deveras entusiasmado por o encontrar), onde o prémio final é um exemplar autografado do meu livro: "Governo Sombra". O concurso destina-se a cidadãos nacionais que queiram enviar para o blog, durante o próximo mês de Novembro, pequenos textos alusivos ao tema do livro, que serão posteriormente publicados no blog. O melhor texto recebe o livro. Participem! Fica aqui o link do passatempo.

O milagre dos bois

- O expresso da meia-noite só passa às duas da matina, de modo que, se quiser descansar um pouco, pode faze-lo aqui, no depósito das encomendas e deitar-se no estrado, sobre os sacos de farinha. Não há que ter receio, que é farinha moída da colheita deste ano e ainda não tem bolores nem carunchos. Como vê, a estação é pobre e sem movimento; construiu-a a companhia para servir o desvio e contam-se pelos dedos de uma mão os casebres perdidos nestas colinas. Aqui não há mais nada. Batem nove da noite e já desapareceram todas as luzes, a não ser as lanternas verdes e vermelhas no alto dos sinaleiros da linha. De um lado e de outro, os trilhos perdem-se no escuro, nos charcos, por debaixo do pontilhão. Só se escuta o sonolento coaxar das rãs. Mas não se sente no banco da plataforma que o vento está puxado a frio, e nas cinco horas que tem pela frente decerto que apanhará qualquer coisa ruim nas canalizações interiores. Não se espante. Esse longo e doloroso lamento que lhe está a mex...
(...) A confiança humana é das emoções mais fáceis de controlar. Ninguém poderia imaginar que o colapso económico mundial seria tão imediato, ou tão devastador. Ninguém, excepto aqueles que criaram este vendaval destruidor, e alguns poucos esclarecidos que o anteciparam, emitiram avisos, e foram linearmente ignorados. Dizer que esta situação era imprevisível, não passa de um artifício inventado para conquistar a confiança das populações, o primeiro passo de um complexo plano. (...) in " Governo Sombra " www.oslivrosdomiro.com  

Reflexões sobre o Acordo Ortográfico

Este texto que aqui lêem , não está (ainda) formatado segundo as novas regras do Acordo Ortográfico que entrou em vigor em Janeiro de 2009. E não está, porque não estou para isso, afinal de contas, o acordo propriamente dito, navega por enquanto, num limbo de pré-aprovação, ou de adaptação generalizada, e este período latente de transição, irá continuar, até se intitucionalizar em 2015. Aí então, já será a matar. Ora, se posso utilizar a mesma grafia que utilizei sempre, mal ou bem, mais pontapé menos pontapé, porque haveria de a mudar agora? O assunto já não é novidade nenhuma, já tem barbas por assim dizer, mas, aqui neste mundo de onde vos escrevo, ainda estamos em Portugal, e as opiniões exprimem-se quando a cabeça as magica, e apesar de todas as infracções que poderei vir a incorrer, eu adopto o sistema antigo, porque esse, é que é o nosso.

Linha do Horizonte

Aqui acolhe-nos uma brisa suave e quente. Alguém adivinha que linha de horizonte é esta?

O jogo

Porque eu não me contento em ser apenas mais uma carta neste jogo infernal onde estamos todos baralhados. Não quero ser mais uma cena que passa, e depressa é esquecida, mais um duque, sem reino ou poder que lhe possa chamar seu, mais uma quina enviesada e desequilibrada, não! Não quero! Estou farto, entendes, farto! Quero ser uma bisca oculta e de infinito valor, quero ser um rei tomado por alguém que conta, que vale alguma coisa, que tem importância. Quero ser um ás apostado na altura certa, um ás que muda o rumo predefinido deste vício de jogar. Quero ser tudo, e se-lo-ei.

A dúvida.

É bem possível que eu não consiga começar a trabalhar, e provavelmente o melhor é não pensar nisso e aproveitar o que tenho. Quando for necessário trabalharei. Nada me poderá impedir de o fazer. O último livro é bom e o próximo tem de ser melhor. Estes disparates que fazemos são tão engraçados, embora não tenha já bem a noção, onde acabam os disparates e começam as coisas sérias. Não é bom sinal. Durmo calmamente e vocês também, presumo. Não foi preciso vender nada para ter o dinheiro. Tudo o que me disseram sobre o dinheiro é verdade, de facto tudo é verdade. - "Durante algum tempo tudo estará contra ti." - Foi o que me disseram. E é verdade.

"Governo Sombra" no Jornal de Vila do Conde

Água bendita.

vai chover breve porque não vejo outro jeito e nem que veja deus no olhar desta gente só a chuva me trará paz ao peito que pelo fogo do tempo anda por demais doente. Trago-a certa aqui no abrigar, de anseios despidos do que é normal. Estou farto, confesso! Não mais posso aceitar, Inverno assim que nunca vi igual. Venha a pureza lavar este incómodo quente, sei de certeza que não é só meu, nem as folhas das árvores caiem no ar silente, com o fito deste ser só seu. Vai chover breve, assim o prevejo. fosse eu vidente levantaria esse véu, como não sou, escrevo o que desejo. Que venha deus e faça chorar o céu.

Dez!

Sentia-se com um domínio completo da sua vontade quando se sentou a pensar na sua ausência. – Quinze dias é muito tempo! – Depois, pensou que tinha esse tempo só para si. Estava calmo, mas com a alma alimentada pelas pílulas da excitação. A erosão da sua partida era muito mais libertadora do que ele supunha. Precisava de a remeter ao papel para a sentir fora de si, era este o seu processo de purga, a sua forma de tornar real o que desejava.