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Eu via dormir aquela desconhecida que entrara na minha vida por arrombamento. Não era bela quando fechava os olhos. Toda a sua sedução se concentrava na voz e naquele olhar castanho tímido. Mas reencontrava no sono uma espécie de infância que me enterneceu, o que provocou em mim uma imediata reacção de censura. Qualquer coisa me dizia que, com ela, o enternecimento seria servidão. Que idade teria? Vinte e nove, trinta e três..
Apaguei o candeeiro da mesinha de cabeceira. A luz de um céu demasiado cheio pela lua, impossível de ser verdadeiro, filtrava-se pelos cortinados, banhando o quarto numa penumbra de açafrão. deslizei para fora da cama para desligar o leitor de CD que continuava a debitar a banda sonora do nosso momento clandestino, demasiado fugaz, demasiado errado. Quando abandonei o quarto, e aquele corpo quente desfalecido pelo fragor da paixão, só trouxe na memória aquela música que me acompanhou até ao fim: O que seria?

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Jorge Machado

Ninguém nunca sabe ao que vem, viver é um ensaio. Dão-nos o que fazer e coisas para que acreditemos e depois ficamos à solta. Dão-nos o nós e a vida de barro, mas há quem faça o que bem entende gostar de fazer. E até há quem o faça muito bem. Ninguém nos explica direito, em pequenos, que as coisas mudam e partem e ausentam-se, e que antes de aqui chegarmos, já o seríamos, mas que tudo se cria e que tudo se nos pode escapar. Carecemos de um olho arguto e atento para captar o que mais conta, até à eternidade. Eu, por boa sorte, tenho um amigo, que por sorte também é o meu melhor amigo, que entende muito bem que há tempos de equívocos, de medo e de combate. Que o mundo, de tão duro e belo até ao fim é mais colectivo se for partilhado em imagens, que nos deixem estarrecidos. O Jó sabe disso de querermos ser felizes, nisso somos mais que irmãos.  E desde catraios entendi nele, o seu lugar exacto. O seu carácter metódico, rigoroso é a pedra de toque da sua vida e da sua paixão, a fotografia. …

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