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Mensagens

Cancioneiro da antiga Puta

A violência sem limites contra mim,   contra a minha inocente boa-fé,   impiedosa ante a limpidez do meu olhar   é tão brutal, injusta e sem razão. Que de rodilhas me ponho, me baixo sobre o  teu pé, e me alimento de migalhas a implorar, implorar, ó poderoso, não pelo teu pão, não nunca, que este corpo não se alimenta assim, da pressa imunda de quem só sabe recusar. Oscilo pelo acaso desunhado de importância. Logo eu, tão cheio de mãos desfeitas de outros partilhar,   a ti faço clamor pela luz que usas para ver alimenta-me, desses teus olhos vadios que de mim se evadem sem vergonha ou receio faço desta, minha demência. Cortejo os gigantes por restos de coisas de sonhar e me alimento de migalhas a ver quem para e me vê inteiro, sem ser a correr a pedir esmolas de tempos antes que estes que vos acabem. Tomara que houvessem outras Estações em todos os anos que desperdicei Vi Invernos e Invernos de constantes perdições e em nenhuma Primavera me ...

Dia sim, dia não uma beleza antiga

Veronica Lake

Garrett a dar hóstias na boquinha dos desgraçados

Quando Garrett pouco antes de morrer, acabou de corrigir as provas de " Folhas Caídas " com a sua habitual caneta de porco-espinho tão mordida de tanto procurar a simplicidade, afirmou com autêntica singeleza: " os cantos que formam esta pequena colecção pertencem todos a uma época de vida íntima e recolhida que nada tem com as minhas outras colecções ." Não tinham mesmo, daí, esta sua última publicação ter sido encapotada sob o anonimato derivado dos seus cuidados pelo escândalo da sua relação com a Viscondessa da Luz, a quem a maioria dos poemas eram dedicados. - E contudo, desde os dez anos que versejava altivo, coisa de vocação pura e mais do que só isso, cresceu tanto levado por aquele talento ímpar que foi lançando um pouco de tudo ao prelo: romances, novelas, teatro, ensaios..enfim, um exibicionista descarado, pois havia em si um par de tomates a pingarem respeito, responsáveis pela maioria das suas virtudes e defeitos que pareciam ser capazes de tudo. E e...

Textos Devolvidos II

(...) Gabriel era um palerma, sim, um débil pamonha cheio de fraquezas emotivas. O pai dele era o seu inverso, o Hermenegildo acredito que fosse selvagem, sem dúvida. Os gonzos descambados da porta assim o provavam. Como é que alguém  não selvagem conseguiria vergar aquelas dobradiças num empeno, com a simples força do seu corpo? - Além disso, havia também a história, sim, aquela misteriosa história que o Gabriel, a muito custo nos contou certa vez, sobre ele.  Não era uma história sobre o senhor Almeida entendam, mas tão-somente a história do bravo Hermenegildo Almeida. – Há aqui uma notória diferença. - Onde este, dotado de um sangue mais vermelho que a maioria, e com dezassete anos apenas, fugira de casa sem qualquer aviso, rumando a Espanha, para se juntar aos retalhos das brigadas internacionais, os soberanos republicanos que lutavam contra o fascismo do General Francisco Franco. Gabriel não era exactamente um bom contador de histórias, de modo que tivemos de fazer...

Passar o ar a 4 rodas

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Pensamentos Avulsos XIII

" Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade ", parece ter dito Goebbels, ministro da propaganda de Hitler. " Uma verdade repetida mil vezes torna-se tão exausta no seu sentido que parece mentira ", digo eu, embora realmente ninguém me ouça. A diferença encontra-se em um lugar muito distante de mim. A eficácia da minha afirmação está vencida à partida pela falta de propaganda real.

Saudades de ver bons filmes (XVII)

. .. surpreendentemente góticos e grotescos. O filme de Robert Aldrich " What Ever Happened to Baby Jane " (1962) vem quebrar muitos 'telhados de vidro' à época.  O mais patente de todos refere-se ao 'hollywoodismo em queda', em efeito, a drástica mudança do, até então firmemente estabelecido, sistema de estúdio, vigente e perpassante em todos os seus aspectos inerentes, para um cinema libertado, produzido independentemente, e assim, desimpedido do jugo omnipresente da 'fábrica de cinema' dos estúdios que prevaleceu em indiscutível hegemonia até princípios dos anos 60. - Predominantemente durante os anos 30 e 40 do século passado, a vida de um qualquer actor, realizador, ou variedade de artista ligado a esta maravilhosa indústria, nascia, vivia e morria sob a mão controladora destes dirigentes tirânicos. Neste filme em particular assistimos à história opressora de duas irmãs. Uma, Baby Jane Hudson (interpretada por uma irrepreens...

Tudo isto é Exacto.

A chuva lava todos por tudo abaixo. É um singular milagre da natureza, que banal pareça, é transformativo e carregado da acuidade necessariamente exacta .  Em tempos disseram-me que utilizo demasiado esta palavra: " exacto ", em muitas, todas as suas formas lexicais possíveis. Que a levo à minúcia, que abuso dela, como se a violasse de algum modo intra-lexical, um toque pérfido de escritor menor que larga líquido e mediocridade por onde a escreve. Uma perversa disparidade de uso, mesmo de significado ou falso ' páthos '. - Eu não sei. Adoro apenas o seu sentido. - Ou quiçá simplesmente me quedasse aquém do excelso talento de escrever e só fizesse recurso a truques exactos . - Uma destas afirmações estará exacta - Não estou bem certo sobre a incidência exagerada do termo, mas tenho grande certeza da sua utilização debalde. Sobre a chuva, por exemplo, é mais do que óbvia a metáfora e por isso, exacta , além de mais questões monótonas. A chuva enerva as pessoas, ...

Que Alguém Saiba que Passaram Cinco Anos...

"ESTE SILÊNCIO É SÓ MEU" Nunca quiseste o meu silêncio,  e eu mantive-me afastado sem nada para te dizer, e gritei para dentro sem ter nosso, um ponto interior de dor. Nunca quiseste saber-me sem voz, mas sabes, o que instantaneamente me dói, não são essas distâncias, que ficaram nestes anos todos a crescer, arrumadas entre os medos que não gritamos juntos, e os sonhos que nem transpirei na tua pele. O que verdadeiramente me dói são os bons silêncios, que nunca habitamos lado a lado. Porque o silêncio só pode ser bem partilhado, com os que amamos até à loucura. Só ele é dádiva perfeita que não pede nada. Nada pediste. Sim, tu não pediste este silêncio, e mesmo assim, nada fizeste para te defenderes. E depois que ficar calado seja loucura? Maior loucura é deixar fugir o lugar onde deitar a cabeça, e esperar que a madrugada lentamente desfaça, todos os segredos altos e todos os barulhos, que como homem ansiei fazer saltar desse...

As Crónicas do Senhor Barbosa X

Depois de morrer é tudo igual ou um mistério ou uma grande falsidade. Na verdade, pouco se sabe sobre o depois, ou se este aconteceu de facto. Falou-se em muito sangue e numa banheira impossível de se limpar em modos. Todavia, como sempre fazem, as pessoas deitam bufas ao desbarato e quase nada acrescentam de verdade ao que já sabem. A grande tristeza aqui, é que não veio uma alma sequer verificar os factos, fossem estes comprováveis ou não. Muitos casos grotescos desta natureza desumana têm vindo a lume ultimamente. As pessoas andam transtornadas e sucumbem mais à raiva do que era costume. Explodem, explodem..as pessoas saturadas perderam por fim a paciência. O caso mais imperioso que me recorda é o deste exacto indivíduo que só sabia ser gente ao longe e em segredo.  Disseram-no morto.  Mas é tudo falso. Queriam-no assim, porque incomodava muito. Não preenchia as caixinhas, nunca alinhava, e a proximidade das pessoas constrangia-o por demais. Não abria a porta, não at...

Onde houver um blog...

Sou um tipo efémero e mediocremente satisfeito com a insignificância, supostamente moderna, dos dias que ainda vivo. Sou-o porque todo o gosto antigo vai-me sendo apagado pelo mobiliário e fachadas das construções imparáveis do agora. Vá, não penseis mal de mim por mais isto. Não exerço qualquer movimento de superstição, não sou nenhum markl , perdão, marco da contra-cultura. Só escrevo umas merdas em um blog. Esta forma de vida, deve de ser várias vezes menos interessante do que qualquer outra, ou assim apontam as mais loucas estatísticas. Ter um blog ainda, e querer alimentá-lo regularmente com novos conteúdos, textos e matérias interessantes, cativantes, fotos, vídeos, pensamentos originais que surpreendam os leitores e os façam voltar, e quiçá, talvez seguir, é, certamente, um acto de grande coragem em finais de 2018. Porra! Atribuo-me esta medalha. Que se lixe. Se mais não for, este pensamento peregrino faz-me acreditar que ainda vale a pena. É assim que, da minha janela, ...

Aves do Paraíso

(...) Mais de cem aves do paraíso voaram mesmo agora do céu dos teus olhos.  Nada de especial,  não precisas de te alarmar. A lareira  ainda  crepita por igual círculos de música fria libertada. ........................................ Apeteceu-me só uma pausa para contar estes sonhos de pelúcia.  Que o meu paraíso, sozinho não poderá jamais voar  sem haver presentes olhos assim, como os teus. ......................................... No decurso da noite, o peso do ar apanhou-nos na cama s ombreada riamos em intervalos separados pelo calor em len çóis  povoados de nuvens dois barcos acabados de chegar acolhedores, sem ju ízo de pedir à noite algum chamamento triste. .......................................... D e olhos abertos, por favor. não tardes mais a cruzares esses olhos que tanto preciso com o rascunho do meu paraíso. Que os amantes nem veem s ó querem sempre ser dois pontos presente...

Saudades do Outono...

Piquenas estórias de amore XII

Por volta dos meus vinte, vinte e pico anos perdi um amigo à loucura.  Estava só. Atirou-se para baixo de um comboio porque lhe aparecia a N. Senhora na frente dos olhos em todo o lado. Aquilo punha-lhe o mundo todo em desacordo. Em uma caixa perfeita ia-lhe a cabeça metida no espaço desigual dos comuns, noutra, surgiam-lhe lamparinas, astros ilustrados, putas maravilhosas, crenças de infância queimadas a ferrete directamente no cerebelo, frustrações em cavalgadura, e acabou só alucinado, o meu pobre genial amigo. Só alucinado pela maldita doença. Ouvia música aleatória do John Cage e fazia abluções com drogas banais para parecer igual a toda a gente. Nunca resultava com toda a gente, só com aqueles que lhe sabiam a razão da loucura. Ele, por vezes, nem fazia caso à própria loucura ou àqueles que a maltratavam com palavras e desdém. Ele, louco, era mais puro que qualquer impostor que se fizesse de 'artista' ou de 'amigo'. ELE era muito melhor. Melhor, porque a ...

A Estupidez é uma invenção Humana...

De onde nascerá inevitavelmente o seu próprio fim. Obrigado Brasil, pela tua estupidez.

"Quando a cabeça não tem juízo..."

Pior do que o inexorável desgaste emocional, derivado de motivos, o incontornável descalabro psíquico que, vez por outra, (cada vez com mais frequência) me atira às cordas e me deixa ali, inane, a lambuzar-me na própria saliva que só quer gotejar da boca para fora, só quer aparvalhar-me, retornar-me ao útero. - Maldita boca que nunca se fecha. Malditos dedos doentes do síndrome de se mexerem em cima das palavras. - Pior do que este estado meio catatónico de auto-comiseração, é preocuparmo-nos com o próprio corpo. Como se este fosse o essencial de nós, só porque é visível a olho nu e aparece mais vezes do que deveria em retratos digitais.  Não percebo a necessidade de deter ou limitar precocemente o que a vida acabará necessariamente por fazer.   " A vida encontra sempre um caminho ." Vi esta merda em um diálogo de um filme sobre dinossauros.  E o nosso retrato ali era horrível. Bem feito fazermo-nos devorar pela nossa própria arrogância! A mesma espécie que deriv...

Se foder, fume até lhe explodir tudo.

Esfumar a censura em mau gosto ou censurar o fogo libidinoso?

Valha-me o Theo e o Dizzy, ao menos.

Thelonious Monk Dizzy Gillespie

Fazer excertos é mais fácil que morrer.

(...)  Assim te vi no princ ípio, onde nada nunca est á onde é suposto. Eras uma casa feita em segredo. Todas as casas têm baús misteriosos cheios de cartas de amor em porões de saudade,  escondidos nos escaninhos mais profundos, entre as peças inacabadas de dominós de alabastro,  as colchas garridas da tia louca,  os acessórios do sexo esquecido,  a parafernália do animal morto,  os vídeos descartados ao inferno do digital,  as decorações de natais estéreis,  os livros por publicar... Tantos livros por publicar. Mas, só as cartas de amor, meu amor, nossas cartas,  tantas cartas de Amor desperdiçadas, nesse poço desigual, sobrevivem. Sabes... Em cartas de amor esquecidas nem os bichos vermes ou as coisas encravadas, ou a mais ténue esperança conseguem sobreviver de todas as possíveis maneiras que a literatura lhes reserva. As cartas de amor são a mais nua e democrática escrita inútil já inventada...