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Mensagens

Poema 10

No fim, oculto tudo,  até os mais fortes e maravilhosos pensamentos, ânsias grotescas, tão vis, tão vis... sangue que sei ter dado, só meu. Palavras e mais palavras desbaratadas. E depois, parei no brilho de um sinal luminoso. Quem lhe poderá escapar? No fim já nem digo nada, a finalidade emudeceu-me. Menina, porque chora tanto nas últimas horas destes momentos? Menina, menina...não chore. Quem lhe morreu? No fim já só corro para dentro, das memórias mais angustiadas, e o cheiro da morte ali, amigo, sempre presente, mas ominoso. Quem lhe quererá escapar?

Morrer ali mesmo ao lado.

Hoje em dia morre-se ao desbarato. - Quase parece o argumento daquele novo filme do Seth McFarlane, ou a brejeirice de um certo programa do canal Odisseia. Morre-se! Morre-se por tudo e por nada. É daquelas constatações fáceis de se fazer, não custa nada escrever isto - é quase tão fácil como matar, pois ultimamente, vê-se gente a morrer daquela mesma forma primordial de medo insensato, como se mata uma aranha que sobe sossegada pela cortina do chuveiro. Um golpe certeiro de uma revista enrolada e já está. Morta. Ufa... Por vezes, se tivermos sorte, até nem morre de imediato, e podemos apreciar o seu estrebuchar lancinante, - isso é que é - até aquele momento final. Isso até é do melhor que se pode esperar de um tempo básico de total brevidade de tudo, seja o que for. A rapidez do tempo até quase nos afasta a morte da memória, Quase. Nenhum canal de televisão nos mostra isto, o que acho de uma grande injustiça moral. O ser humano gosta da morte, mesmo que nunca o reconheça, pára ou a...

Monty Python's a voarem dentro da minha cabeça

Posso dizer com alguma propriedade que cresci a ver estes tipos. Teria o quê, uns quinze, dezasseis anos, quando senti a primeira grande boa estalada da descoberta de um humor estranho, único, que só consigo comparar à audição de uma primeira ópera. O "Flying Circus" é exactamente assim. Uma daquelas expansões cerebrais que, ou dá o passo definitivo para o amor eterno, ou se transforma de imediato em repúdio. Caiu-me nas mãos uma cassette VHS, empréstimo de um amigo mais velho, que ali gravou uma série de episódios directamente da fonte, a BBC 2. Tive de ver aquilo às escondidas dos meus pais, como se visionasse pornografia hard-core. O "Garganta Funda" ou a "Debbie does Dallas" talvez não os alarmasse tanto como esta loucura desbravada à qual o seu filhinho inocente se estava a expor voluntariamente. Andei uns dias macambúzio, a pensar no sketch do papagaio. Como era possível aquilo? O jogo de futebol entre os filósofos gregos e alemães, consegui...

Verão ao alto

Raio de verão este. Não arranjo maneira de bronzear a pila.

Da poesia...

"É verdade que a boa poesia é difícil de escrever. A poesia é a fuga à ansiedade e também origem dela. Globalmente, parece-me que vale a pena. No fim de um poema Podemos ser tentados a tornarmo-nos universais, filosóficos e vagos, Ou a meter a História, ou o Mar, mas não se deve fazê-lo Se se puder evitar,já que isso faz soar Cada coisa que escreve como outra coisa qualquer, E a poesia e a vida são assim. E agora já disse o suficiente." "A Magia dos Números e Outros Poemas" - Kenneth Koch-

Steve "cool" McQueen

A inveja, essa mama flácida.

Se for correcto afirmar-se que a mentira tem perna curta, daquelas de saltos ortopédicos e tudo, então considere-se também a inveja como um perneta gradual, daqueles coitadinhos a quem tiraram talhadas atrás de talhadas de caminho progressista, até lhes restar pouco mais que dores fantasmas de amputados, e não pararem de resmungar impropérios por isso.  A inveja transforma-nos em pequenos bufarinheiros de meia-tijela, alcoviteiros de tasco que tudo alvitram em arrojos opiniativos, mas, sem qualquer pujança de conteúdo no discurso. A inveja arreia em nós com tal força, que chega-se a sentir dores menstruais por cada petarda mal dirigida que enjeitamos. Combate-la torna-se um exercício fútil, somos seus escravos involuntários. Incapazes de suster o desgosto pelo bem alheio, parecemos cigarras indolentes nas suas mãos, ainda que suemos como verdadeiras formigas. É o raio de um peito flácido de intenções. Sim. Definitivamente, é uma daquelas tetas, onde ninguém haveria de querer...

Toma lá, dá cá.

"- Então, já não vais a lançamentos de livros e inaugurações de exposições? - Ainda vou, mas menos! - Pois, então admira-te de quando lançares um livro teu ou fizeres uma exposição não aparecer ninguém! - Não faz mal, de qualquer maneira não apareceria ninguém! - Como sabes? Consegues ler o futuro? - Não, mas consigo ler o presente..." Retirado à socapa do mural de José Alex Gandum ( amigo do facebook )

O escritor contrariado.

Eu era novo e só pensava nas coisas como um velho. Olhava pela janela e atirava migalhas imaginárias aos pombos com os olhos. A Praça da Cidade antiga movia-se com a precisão de um relógio. Uma quantidade astronómica de pessoas desfilava lá em baixo, em círculos aparentemente aleatórios, debicando com os pés, cada paralelo, cada laje de granito da beirada da rua que guardei de memória, marcando a cada passada silenciosa e a cada encontrão respeitoso um compasso raivoso, competitivo. Defronte, os arcos de pedra, indolentes, choravam desgaste por cada nova foto que lhes roubavam. Era inescapável. Mesmo fechada, estores corridos, olhos tapados, cortinas encerradas, a janela da frente queria-me mostrar tudo, e eu queria ver também. Tudo. Tinha o meu mundo inteiro na cabeça, dois ou três pontos de terra que conhecia bem de alguns livros que ensimesmei, tudo antes do medo, um troço de relva cagada pelos cães dos vizinhos, sete lojas abertas e sem ninguém, quatro pesso...

Isto é um circo senhores!

Parecemos todos convictos de que o desequilíbrio do mundo tem muito a ver com o nosso próprio desequilíbrio. Não senhor! Isto é uma treta muito grande. O mundo está tão equilibrado como sempre esteve. Divisões bem esclarecidas, todos nos seus devidos estratos e um manancial de pobres a nascer todos os dias para engrossarem as devidas fileiras dos rejeitados. Está tudo aberto à grande bicharada. E não é isso mesmo? Somos todos uns bichos quaisquer, que devem a sua miserável existência à tirania de homens que, preguiçosos e incompetentes, usufruem do nosso trabalho , somos vítimas de uma exploração prepotente, e assim vivemos, cabisbaixos e castrados de vontades. E neste sentido, ninguém leva tão longe o desprezo pelo corpo como o intelectual de hoje, reflectindo-se a sua própria decadência física em quase tudo aquilo que produz, e por consequência, no pensamento moderno.  Salvo rarissímas excepções, continuámos a ser meras bestas de carga, sem grande idei...

E o burro sou eu?

Pesam-me sempre mais as questões que são do foro daquilo que não compreendo, já desde pequenino que sou assim. Ele é a razão de ser do Facebook, a dominância mundial alemã, a coerência das tribos modernas ou os genocídios. Havia de ter vários graus de incompreensão interior, para não misturar águas pesadas com outros ares mais leves, todavia, cá por dentro, o rebuliço é igual. Os mais chegados, dizem-me que isto é sinal de inteligência cognitiva, o meu pathos . Estou inclinado a concordar. Apesar de nunca procurar o pragmatismo concreto (nunca tive queda para os números) padeço desta insistente mobilidade interior de querer saber o que ainda não percebo, o que é novo.  Outros, remetem-me uma explicação muito mais simples e mundana, do tipo: "és mas é um chato do caraças! cala-te." - O que também tem a sua ponta de verdade, pois inclui-se no mesmo absurdo da minha paixão ser assim. E também, porque a grande maioria das coisas que eu ainda não percebo, conquanto vasta e q...

The Queen is alive.

A lei das leis

Das leis já inventadas, dóiem-me todas, mas a que mais me degenera é a da oferta e da procura. Quebra-me ao meio a auto-determinação, de continuar ileso na correia maravilhosa da livre circulação. Até entendo as leis da atração, e o cinto castrador da gravidade. Pouco sei sobre termodinâmica, é certo, mas, sinto-lhe o calor, a pressão individual e o conforto da barriga que se me avoluma. Ocasionalmente, até cuspo na verdade, mas isso é só porque nasci gente  e o homem é um bicho que nunca se acostuma, a ser um trapo, um recado, ou uma peça vendida. sem razões, faz e destrói todas as leis; uma a uma. e depois chora sozinho, pela ferida auto-inflingida. Deixei de ter emprego e fiz as pazes com as leis do trabalho. Todo o caminho ao contrário só me fez ganhar tempo. Deixei de ter dinheiro e fiquei nu e limpo. A isto chamo as leis da liberdade, que pouco ou nada tem a ver com a vida. As leis da vida. Ah, as leis da vida! Nem são pr'aqui chamadas....

Agora lês-me, agora já não me lês.

Não gosto que me vejam a ler, agora assim de repente, julgo até que nem gosto que saibam que eu leio. Prefiro que me imaginem analfabeto, velhaco e estúpido. Até estimulo a noção de ser uma mente romba, quase obtusa. Torna tudo tão mais cómodo para mim. Imaginarem-nos simplórios é um descanso. Nuns quantos vazios à minha volta construo maciços com os livros que ainda guardo, os mais fortes, onde depois levanto o que me diz mais. E ninguém tem nada a haver com isto. Gosto de ler, e creio ser tão desnecessário explicá-lo como tentar demonstrar porquê que não gosto que me vejam a ler. Apetece-me que seja uma coisa só minha, íntima e preciosa, livre de justificações a terceiros, longe dos olhos cheios de juízos das multidões. É uma masturbação do intelecto, e estas massagens necessitam de paz e solitude. Esta maravilhosa clausura, concede-me um acesso privilegiado a tantos mundos, que posso guardar à minha maneira, sem chamar a atenção para o que é óbvio. Poucas coisas são a...

Poesia no Canhoto

Hoje, lá mais pela noitinha, estarei por aqui, a dizer e a ouvir poesia e música, em muito boa companhia. Só faltas tu, aparece.

Obrigado Gustavo.

Quem mem salvou da estupidez sombria da minha própria mente foi este senhor. Ontem há noite estive a visionar todos os seus vídeos no youtube, horas e horas, até os meus olhos fazerem sangue. Cito: "a nossa mente chama-se 'mente' porque nos mente todos os dias" - Aí está! Gustavo Santos, este grande mago da transcendência, este Deepak Chopra lusitano, este guru bem torneado de "six pack" contados ao músculo e a beringela a dizer olá no espartilho dos speedo. Deus meu, como eu andava enganadinho. O meu conceito de auto-ajuda já se alevantava em bolsas de vómito quando te via no "Inspector Max" e mais recentemente no "Queridos..", mas agora, explodiu numa gosma metafísica. Estou feliz Gustavo, obrigado. Porra! até o teu cão sabe mais sobre o que é viver do que eu.

Amores de repente

No outro dia, lavava a loiça e comecei a agrupar em pares as coisas semelhantes, grato por haver ali espaço para o amor espontâneo dos objectos. Mais tarde, no mesmo dia, apanhei-me a fazer o mesmo com a cor das molas, ao emparelhar roupa de coração ao alto pelo delgado do estendal. Vi almofadões malabaristas apaixonados, porque lhes tremia o estofo transacionado nas minhas mãos. Contorciam-se pelo tecido abaixo, acrescentando formigueiros às penas desvairadas, alinhavavam-se um ao outro. Por fim, lá relaxaram, num sorriso aveludado. Houve até um par de candeeiros que se acendeu em um instante menos ortodoxo, para a gravidade de porte da mesinha de cabeceira. Gozaram intermitentes pela noite inteira, tão foliões quanto lanternas oferecidas. Pela casa adentro, onde as janelas dão o presente e o que foi assentou perene no chão vago, os acasos despertavam as coisas inanimadas, posto que só juntos continuariam carreira pela vida fora. Suspenderam-se os conflitos armados da ...