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Monty Python's a voarem dentro da minha cabeça


Posso dizer com alguma propriedade que cresci a ver estes tipos. Teria o quê, uns quinze, dezasseis anos, quando senti a primeira grande boa estalada da descoberta de um humor estranho, único, que só consigo comparar à audição de uma primeira ópera. O "Flying Circus" é exactamente assim. Uma daquelas expansões cerebrais que, ou dá o passo definitivo para o amor eterno, ou se transforma de imediato em repúdio.
Caiu-me nas mãos uma cassette VHS, empréstimo de um amigo mais velho, que ali gravou uma série de episódios directamente da fonte, a BBC 2. Tive de ver aquilo às escondidas dos meus pais, como se visionasse pornografia hard-core. O "Garganta Funda" ou a "Debbie does Dallas" talvez não os alarmasse tanto como esta loucura desbravada à qual o seu filhinho inocente se estava a expor voluntariamente.
Andei uns dias macambúzio, a pensar no sketch do papagaio. Como era possível aquilo? O jogo de futebol entre os filósofos gregos e alemães, conseguiu-me 19 valores no 11º ano nessa disciplina. Juro que é verdade. 
Estes tipos não cumpriam regras, e nunca fizeram um mínimo esforço para seguirem o caminho mais percorrido. Pelo contrário, desbravaram os seus próprios caminhos, e estabeleceram as regras para tantos, tantos outros, que lhes seguiram, nos quarenta anos após a sua primeira aparição.
Fiquei viciado desde o primeiro contacto, e procurei ver tudo onde os Python metessem os dedos. Foi uma viagem memorável, e hoje, graças a eles, continuo de mente aberta, exponenciada por essa e por outras liberdades que lhe fui adicionando de bom grado. 
Ontem há noite, tive o assombro de os ver (quase) ao vivo. Em live feed para todo o mundo, directamente da arena O2 em Londres, os velhinhos Python's, gordos, grisalhos, meio esquecidos nas deixas, mas sempre, sempre loucos, deliciaram mais uma vez (a última), milhões de dedicados fãs que conseguiram um assento num cinema seleccionado, e posso dizer-vos com a mesma propriedade de antes, que não deixaram ninguém decepcionado.
Cantei sem medo dentro de uma sala de cinema, ri-me de tal maneira, que deixei os olhos em chaga de tanto chorar, debitei todas as deixas chave de todos os magníficos sketch's muito baixinho, para dentro, como se estivesse a assistir a uma missa da minha religião eleita, em devoção profunda. Pus as mãos na cabeça, os braços no ar, e quando saí do cinema, ainda vinha a questionar-me sozinho: Porra, já vi isto tudo centenas de vezes, como é possível continuar ainda a ser assim tão bom?

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