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Mensagens

Ruben Fonseca diz Camões

Um grande momento, que tardará a fugir-me da memória, pois, na vida, contam-se os momentos e não os dias. O magnífico Ruben Fonseca a declamar um soneto do Camões, na abertura da 13ª edição das Correntes de Escritas, na Póvoa de Varzim. Foi com este pequeno presente que ele agradeceu o prémio Correntes/Casino da Póvoa: Busque Amor novas artes, novo engenho Para matar-me, e novas esquivanças, Que mal me tirará o que eu não tenho Que não pode tirar-me as esperanças, Olhai de que esperanças me mantenho! Vede que perigosas seguranças! Que não temo contrastes nem mudanças, Andando em bravo mar, perdido o lenho. Mas, enquanto não pode haver desgosto Onde esperança falta, lá me esconde Amor um mal, que mata e não se vê, Que dias há que na alma me tem posto Um não sei quê, que nasce não sei onde, Vem não sei como e dói não sei porquê. Luís de Camões

Medo!

Não sei se é possível que eu inscreva no tempo que me segue, o tempo que me precede. Não é nostalgia, que não me entrevo com tais manias. Se este dúbio e incerto mundo, onde em exaustos jardins me perdi, fosse ao menos feito da vaga saudade que me persegue... Deixaria de lado a máscara com que o mundo me mede, e tornar-me-ia aquele som distinto com que tu me ouvias, no tempo d'então, agora extinto num silêncio profundo. Que nem atesta nem remete ao mero rumor do que senti. Não quero que me neguem quem não sou. Se fui falso antes, agora sou mais incerto na verdade, hoje, um mal maior encerra-me inutilmente em seu enleio, e quase desperto, lavo-me e visto-me de mentiras, indeciso em ser eu mesmo ou a sombra do já fui. Este tempo assim me envolve, porque o passado não acabou, acordei desta maneira, fútil, ocioso de toda a vontade, e o tempo que me segue nem sequer veio. Só lhe senti o rastro na fraca vontade que aos poucos tu me tiras, fe...

Entrevista ao "Na Companhia dos Livros"

A minha querida amiga e conterrânea, Isabel Maia, do blogue "Na Companhia dos Livros", depois de ter feito já a sua própria apreciação do meu livro, Governo Sombra, achou por bem ir mais além, e decidiu presentear-me com esta entrevista , à qual acedi com todo o prazer que se retira de uma boa conversa informal entre amigos, levada à cabo com toda a descontracção na mesa de um café. Obrigado por isto Isabel. Deixo aqui o link da mesma, para todos aqueles que quiserem saber um pouco mais sobre mim, e sobre o meu trabalho. Espero que gostem.

Governo Sombra na FNAC de Viseu

A próxima passagem desta aventura será no palácio do gelo, em Viseu, na loja da FNAC. Evidentemente que estão todos convidados. Venham fazer-me companhia no próximo dia 26.

Tenho-te?

Tenho-te, como se fosses só uma. tenho-te minha,  e aqui te carrego, onde albergo o que nunca me melindra, nos profundos mares revoltos que me perfazem o peito. Tenho-te...tenho-te em parte pequena,  em parte minguante, e em parte crescente. Tenho-te em parte nenhuma. Tenho-te por pouco, pelo pouco de mim que até se adivinha, nesse engenho inteiro que tomo pelo teu jeito, logo perdido, assim que te tenho distante. Não te tenho de todo. Logo eu, que sou tão feio, marcado, moribundo... que sou fraco por ser fraco, e porque assim me fiz. e que nem encontro beleza no que perfaz, o tudo mais de belo e de profundo, desse inteiro e sólido modo, que sempre me recolhe nas alturas das horas más. Tenho-te? - Nem aí estou. Tomara eu que te tivesse... E que fizesses tu cair, os males taciturnos que me aniquilam. Quem dera ter-te cá dentro, se ao menos eu pudesse, entrar em ti, e de ti subtrair, o que sou. ...
Somos todos feitos de vontades. Exclui-las de nós, será o nosso fim. Deixemo-las livres então, e façamos por ser homens, criaturas cheias de brio que não se apaga. Sejamos todos uma força inabalável e seremos melhores, parte de um mundo melhor. Casimiro Teixeira

Nenhum dia de anos qualquer...

A inquietação começara, ainda o mês de Janeiro ía a meio. A senhora Rosa, da casa ao lado, que era menina na verdade, pois nunca casara, nem enjeitara namoro com ninguém, mas que toda a gente  chamava de senhora à mesma, fazia questão de manter presente essa lembrança, na passagem morosa daqueles dias, que, Deus meu, tanto me custaram a passar.  Fazia-o indolentemente, com um menear preguiçoso das ancas, uma espécie de samba automático, que o meu pai dizia que ela aprendera com a Carmen Miranda, e fazia-o, sem me deitar olho propriamente, pois só lhe via a parte de trás da cabeça a mexer do outro lado, mais nada. Um cocuruto hermético, trancado num puxo grisalho, que se agitava num quase desprendimento, enquanto deitava a roupa a corar no estendal alcantilado entre o muro que dividia as duas casas. De tantos nervos me remoía, por essas alturas, que nem sequer lhe imaginava com algum grau concreto de exactidão, o ritmo do resto do corpo: - Já só faltam quinze dias Zezinho...

A escrita está morta?

Não sei se ando com o ego demasiado insuflado, se furou de vez, ou se simplesmente me estou a afundar em ilusões. Por vezes apetece-me arrumar o processador de texto para um canto onde o pó o faça desaparecer da minha vista, fechar o cérebro e acabar com este suplício das artes. Alguém aqui comentou o seguinte: " A escrita está morta... é só para alguns e o público recusa-se acreditar nos novos valores. Por vezes porgunto-me: para quê escrever? Ou melhor, para quê publicar? " -  E rais me partam se não está carregadinho de razão!

Apresentação do "Governo Sombra" em Lisboa

"(...) Não foi este sistema que me tornou desempregado, fui eu. Porque, quando vamos procurar o que fazer, se fizermos essa busca dentro de nós próprios, acontece uma coisa absolutamente incrível. Acabamos por fazer aquilo de que gostamos. Porque fazer aquilo que nos desagrada, é o pior desemprego do mundo. (...)" Excerto do texto que li na apresentação do "Governo Sombra" no sábado, dia 28 de Janeiro de 2012 na Livaria / Bar Les Enfants Terribles em Lisboa.
Por vezes chego a acreditar que nasci num tempo que não é o meu, que está fora de mim. Grito ideais que já se perderam e faço rouco alarido de sentimentos que já ninguém dá valor. Casimiro Teixeira

Monólogo

O engenho da loucura, breve e simples. O engenho da arte, indistinta e injustificada. Impossível deter estas mãos, que me fazem pensar,                               esta cabeça, que me faz escrever. Nem que me sinta embriagado, pela sobriedade de estar só. Nem sequer pela mera projecção, de semáforos, repelindo esta ansiedade, de seguir apenas, de avançar. Dispus-me pois a ser só carne, carne em pessoa. Propus-me o inverso, do caminhar rápido em passos lentos. Sugeri-me o arranque inquieto, e despropositado de mim mesmo. O afluxo da minha chegada, até mim. O afluir das visitas encarnadas, em EU, o pronome pessoal, de ser eu próprio que nunca me alcanço. Tombei (é certo), tombei mal e em dor, como que em metamorfoses, transformações increspadas no alcool que, me consome, me dilui. Aprofundei-me nas distâncias, que me separam de mim. Submergi neste subterrâneo recôndito, obscuro, ...

Na companhia dos Livros

Leiam a opinião da minha querida conterrânea, a Isabel Maia, publicada no seu blogue " na companhia dos livros "sobre o meu livro: "Governo Sombra".  Muito bem apanhada a sua recensão, e, se me permitem a momentânea falta de humildade, a sua classificação final acerca do livro, também. Serei certamente muito suspeito em afirma-lo, porém asseguro-vos, vale bem a pena passarem por lá para se inteirarem. Deixo-vos aqui um pequeno excerto do mesmo: " Casimiro Teixeira apresenta-nos neste Governo Sombra um enredo intrigante, que vai prendendo lentamente o leitor até o mesmo chegar ao ponto de se questionar se aquilo que está a ler será real ou se é pura ficção."

Põe-se Vila do Conde no ninho deste mar.

Terra amada, refrescas-me a alma de espuma. E para além? Existe outro mundo ou é um fim? Neste lado, aqueço-me no calor desta última bruma, e mais não quero olhar para trás de mim. Foto de Helder Sanhudo

O dia da feira.

Acordam mais cedo do que o sol da manhã, partem somente pela altura do seu recolher, e, quer maculados pela canícula do calor, quer crispados pela sofreguidão do frio, aqui estão, sem falta, todas as benditas sexta-feiras, pelo menos, desde que tenho memória de tal.  A cidade inteira parece transfigurar-se numa outra, neste dia, semana sim, semana sim...em serenos sobressaltos que perduram. Será quiçá uma rotina, haver uma feira aqui todas as semanas, uma rotina que nasceu no tempo em que ainda se vendiam cavalos, bois e outras animálias de grande porte a céu aberto, mas que, evoluiu depois, tornando-se numa necessidade para alguns, um prazer para muitos. É certo que, ainda se vêem patos e galinhas e perus e coelhos, prostrados em gaiolas, acometidos ao irrisório aprisionamento de um cesto de vime, ou meramente espalhados pelo chão empedrado, açaimados pelas juntas das patas com um infeliz fio de cordel grosseiro. Sim, eles ainda lá estão, toldando-nos a comiseração, ou o ape...

Como nasce uma história...

Que vontade indómita será esta de querer contar tudo? Bebi três copos seguidos e foi tão grande o prazer do líquido frio a descer pela garganta, que sorri também, e apeteceu-me contar histórias. Não estou bem certo de quais histórias deverei contar. De início pensei que as histórias me queimavam a alma, e gritei de susto, um susto feito em letras. Rápido, no desenrolar da continuidade de ser construído. Tinha de ser mesmo, escapulia-me do presente vezes sem conta, fascinado pela luminosidade sépia do passado, que emanava daquele torpor constante que me ribombava o cérebro e eu tinha de o fazer, tinha de contar. Por vezes, sentia-me prestes a ser capturado por algum vigilante zeloso que vive para impedir que o passado assome à tona. Sabem do que eu estou a falar? Aquela matéria gelada e porosa que vive oculta nos escaninhos das nossas mentes. Senti-me quase prestes a ser capturado, e a memória permanecia apertada contra o meu peito, como neve. Libertei-me de tudo, por fim, e estas h...

E porque hoje é sexta-feira 13...

Já vivi melhores dias, mas o de hoje, não foi mau de todo. O importante é estar atento aos pequenos milagres diários, e insistir na companhia de quem nos faça despontar um sorriso. Tudo o resto, meros pormenores, maiores ou menores, mas que sempre terão solução. Tu és capaz!

Filho do Impossível.

Esta existência surge-nos tão devaneia, tão intensamente frágil, que por vezes, só nos pede o desejo do impossível. Sou assim, fruto deste anseio sonhador, que nem consegue mas tenta, que não concretiza mas avança, sou filho do impossível, e sinto-me bem assim.

Noite dos dois Reis pais.

Muito lentamente, aproximo o pequeno copo, oblíquo, ao centro da minha boca. A outra mão, mais triste ainda, faz circunferências desinteressadas sobre o prato florido que acolhe a rabanada que escolhi para comer nesta noite. Por instantes, atravesso o olhar pela janela azul, que já não mostra bem a cor do dia, mas, que ainda não recebe todo o breu da noite. Sinto uma enorme falta de agasalho no corpo, cerro os olhos e sei que não é frio aquilo que sinto. A memória conhece estes gestos, estas tremuras, mas faz de propósito por olvidá-los, mistura-os sem pressa no desfiar deste tempo, deste dia, certa de que já não importam tanto como quando era menino, e mais ainda, pela metade grande da minha vida. A memória sabe que já nada é igual, e o corpo corresponde, obediente, caindo numa apatia de desânimo. Daqui a nada, a família vai querer levar-me a ver a chegada dos Reis por entre o bulício do pequeno adro da igreja da Lapa e arredores circundantes - Temos de ir, é tradição. - dizer-m...