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Noite dos Reis


Muito lentamente, aproximo o pequeno copo, oblíquo, ao centro da minha boca. A outra mão, mais triste ainda, faz circunferências desinteressadas sobre o prato florido que acolhe a rabanada que escolhi para comer nesta noite. Por instantes, atravesso o olhar pela janela azul, que já não mostra bem a cor da noite, mas, que ainda não recebe a luz do dia. Sinto uma enorme falta de agasalho no corpo, cerro os olhos e sei que não é frio aquilo que sinto. A memória conhece estes gestos, estas tremuras, mas faz de propósito por olvida-los e mistura-os sem pressa no desfiar deste tempo, deste dia, certa de que já não importam tanto como quando era menino, na sua infância. A memória sabe que já nada é igual, e o corpo corresponde, obediente, caindo numa apatia de desânimo.
Horas antes, a família levou-me a ver a chegada dos reis ao bulício do pequeno adro da igreja da lapa - Temos de ir, é tradição. - dizem-me os meus filhos. E eu lá fui, arrastado. - É tradição. - disseram-me, e pensei se lhes deveria falar de outra tradição, mais íntima e nossa, pensei se seria justo remexer na memória e falar-lhes da avó que mal conheceram, sobretudo nesta noite, a dos reis?
É que, na casa onde eu nasci e cresci, a noite dos reis cumpria uma outra tradição: a celebração de mais um aniversário de casamento dos meus pais, e, esse singular momento anual, trazia o natal de volta mesmo no finzinho das festas da quadra, quando quase já se desfazia o pinheiro dos enfeites e a promessa daqueles momentos de pura comunhão familiar já eram remetidos para o ano seguinte.
A tradição aqui, nunca foi bem a que existe de facto, pois, nunca se abriu a porta da casa à passagem dos reis, para lhes ouvir os cantares cansados, nunca se preparava uma mesa de ofertas para lhes apaziguar a voz e os estômagos, também pudera, os reis nunca atravessaram a ponte, nunca galoparam para estas bandas, e só por vezes os víamos passar, lá de cima, do monte de sant'ana, observava-mos entre os tremeliques de frio, aqueles três pontinhos minúsculos a passarem em trote lento, lá embaixo, no outro lado do rio. Coisa rápida, tinha mesmo de ser, só para matar o gosto da fantasia de os ver a passar, porque nesta noite havia festa em casa, e aqueles homens desengonçados, trajados a veludo e com coroas de fancaria, nunca seriam bom substituto para os aromas e sabores que nos aqueciam a casa nesta noite. A minha mãe voltava à cozinha e desencantava nova remessa de rabanadas, leite creme, aletria, e os frutos secos reconquistavam o seu lugar na mesa, nas suas travessas e tacinhas, e não haviam desculpas que justificassem a falta dos irmãos que já eram casados, e que, num ano estavam connosco e no outro com a família do conjugue, não nesta noite. Esta não era a ceia de natal, era um outro natal. A noite dos reis era nossa, e não fosse pela falta das prendas alcantiladas em redor do pinheiro, eu julgaria mesmo que o tempo se atrasara duas semanas, e que o natal voltara.
Ontem há noite, os meus pais teriam feito 62 anos de casado, e teria havido festa aqui em casa, pois a fanfarra alegórica destas celebrações aqui se acoitam todos os anos, ou talvez não presumo, visto que, a noite dos reis não faria sentido noutro lugar, senão na casa dos meus pais.
Mais um ano que passou, e esta noite tão especial também. Cada um de nós vive as suas memórias da forma menos dolorosa possível, eu não sou excepção; afasto o cálice de vinho do porto e a rabanada para o lado, e vou para a cozinha preparar o pequeno-almoço dos meus filhos.







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