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Medo!




Não sei se é possível que eu inscreva no tempo que me segue,
o tempo que me precede.
Não é nostalgia, que não me entrevo com tais manias.
Se este dúbio e incerto mundo,
onde em exaustos jardins me perdi,
fosse ao menos feito da vaga saudade que me persegue...
Deixaria de lado a máscara com que o mundo me mede,
e tornar-me-ia aquele som distinto com que tu me ouvias,
no tempo d'então, agora extinto num silêncio profundo.
Que nem atesta nem remete ao mero rumor do que senti.
Não quero que me neguem quem não sou.
Se fui falso antes, agora sou mais incerto na verdade,
hoje, um mal maior encerra-me inutilmente em seu enleio,
e quase desperto, lavo-me e visto-me de mentiras,
indeciso em ser eu mesmo ou a sombra do já fui.
Este tempo assim me envolve, porque o passado não acabou,
acordei desta maneira, fútil, ocioso de toda a vontade,
e o tempo que me segue nem sequer veio.
Só lhe senti o rastro na fraca vontade que aos poucos tu me tiras,
fechando-me para sempre nesse tempo que me obstrui.
Será quiçá o medo que me instiga aos erros do passado.
O medo exacto que gigante, me tapa,
e todas as máscaras nele se dissolvem na sua perfeição.
Quase morto, sonho com o tempo que me abandonou,
e tudo, menos o tédio, me fez ser homem melhor.
Começo agora, no ar desta manhã, como que deslumbrado,
a pensar se o medo não será mais que uma outra capa,
e a folia deste tempo, sua eterna negação.
O medo é assim, e tudo neste mundo me roubou,
tudo, menos o tempo futuro que aspiro a ser melhor.



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