Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

Noite dos dois Reis pais.

Muito lentamente, aproximo o pequeno copo, oblíquo, ao centro da minha boca. A outra mão, mais triste ainda, faz circunferências desinteressadas sobre o prato florido que acolhe a rabanada que escolhi para comer nesta noite. Por instantes, atravesso o olhar pela janela azul, que já não mostra bem a cor do dia, mas, que ainda não recebe todo o breu da noite. Sinto uma enorme falta de agasalho no corpo, cerro os olhos e sei que não é frio aquilo que sinto. A memória conhece estes gestos, estas tremuras, mas faz de propósito por olvidá-los, mistura-os sem pressa no desfiar deste tempo, deste dia, certa de que já não importam tanto como quando era menino, e mais ainda, pela metade grande da minha vida. A memória sabe que já nada é igual, e o corpo corresponde, obediente, caindo numa apatia de desânimo. Daqui a nada, a família vai querer levar-me a ver a chegada dos Reis por entre o bulício do pequeno adro da igreja da Lapa e arredores circundantes - Temos de ir, é tradição. - dizer-m...

Quem és tu?

Quem caminha sempre a meu lado, e sabe todos os nomes do meu corpo? E sozinha, constrói pilastras sólidas de vento, com as conchas que recolheu na praia da minha alma? Quem foi que assim me acolheu? Quem veio de longe chorar por mim, e tornou próximo o meu desânimo, como se fosse seu. E nem emitiu um só suspiro de enfado? Quem entende onde eu começo e porque acabo, e não censura nem aprova a infíma minúcia do meu mais infiel intento. Quem? Quem me grita com paixão e me susurra com calma, e condensa toda a ternura do mundo em suas mãos, para depois a entregar, assim, num oceano infinito de canções e de afagos? Quem carrega junto ao peito os meus espinhos? e aí faz florir a mais bela rosa. quem me atura as impaciências e os desalinhos, e empresta seus ouvidos ao desfiar da minha prosa? Quem me ouve a angústia do desespero, e a sirene espavorida de seus irmãos, as tremuras, os desgostos, as invejas e a dor, as manhãs aborrecidas e as noit...

Apresentação do "Governo Sombra" em Lisboa

Muito me agradaria poder contar com a vossa presença... Apareçam, venham conhecer o Governo Sombra.

Este velho dia, esta nova vida...

Gosto do dia de hoje. O dia 31 de Dezembro agrada-me, sobretudo porque me faz lembrar aquilo que significa: uma passagem, uma transição. E apraz-me sentir-me renovado, acreditar que todos os anos me é oferecida a oportunidade de mudar qualquer coisa, mesmo que nem mude nada, agrada-me imenso este sentido prenúncio de poder alterar qualquer coisa, de trazer algo de novo à minha vida. Agrada-me inclusive, ter o mero pretexto para o fazer, motivado pela luz de um novo e melhor futuro que se avizinha, pois é assim que opto por acreditar que ele será. E cada um de nós tem sempre opção, é uma escolha interior, forte, encarniçada, uma escolha da qual nada ou ninguém nos poderá alguma vez privar. Agrada-me a hipótese de me agarrar à vontade de mudar, pois é essa vontade que parece faltar, ou falhar nos restantes dias do ano.  Sou talvez tolo por acreditar ingenuamente na efemeridade da mudança, mas pouco me importo com isso, pois neste dia, todos os sonhos parecem possíveis de virem ...

Uma exposição a não perder.

Que todos os sonhos se concretizem...

Enquanto houver sonhadores,  é muito bom sinal,  significa que vamos dormindo bem, e que a terra vai girando!                                                           Casimiro Teixeira
Programa para o dia de hoje...descanso, xadrez e cachimbada!

Sorriso incerto.

Tenho este sorriso que te entrego e que não é certo, tem dias que acorda inteiro comigo, e outros, mais loucos, que me escapa ao bom juízo. Nem sempre o mantenho assim, tão aberto, encerro-o sisudo, nas horas que pressinto perigo, aquelas em que esta boca, sem falar, fala um aviso. Trago-o mesmo assim, guardado nestes lábios aguados, este sorriso tão ligeiro, quase uma pena amedrontada, um esvoaçar imprevisto de luz que se levanta aqui. E penso, para quê esconde-lo dos desavisados? Tenho este sorriso, sim, um sorriso feito prece à pessoa amada, Poderás tu dizer que não foi feito para ti? Casimiro Teixeira - 1989

O Natal da Sra. Mascarenhas

Eram doze horas. A pequena cidade acabava de se deitar, muda e negra, debaixo de uma chuva gélida de Dezembro. Na rua da fraga, uma das mais estreitas e mais desertas, desta cidade que lançou tantos barcos ao mar, uma janela continuava iluminada, no segundo andar de uma velha casa, cuja caleira rota largava torrentes de água no empedrado milenar. Era a senhora Mascarenhas que velava diante de um fraco fogo de uma luz mortiça e empoeirada, enquanto que o marido desfalecia, à claridade pálida de um candeeiro. A habitação, alugada por cento e poucos euros por mês, compunha-se de quatro enormes divisões, que se não conseguia aquecer no Inverno. A senhora Mascarenhas, dormia na maior; o marido, o Coronel Mascarenhas, outro único ocupante daquele mausoléu, ficara com o quarto que dava para rua, junto à sala de jantar, no seu leito de ferro, para que pudesse ver o céu, antes do último estertor. Os poucos móveis dos Mascarenhas, uma mobília Império de mogno maciço, que as contínuas mud...

Opinião no ...viajar pela leitura...

Mais uma vez, os meus sinceros agradecimentos à Paula Teixeira, do blogue: ...viajar pela leitura...  pela maravilhosa opinião que aí publicou sobre o meu livro: "Governo Sombra". É decerto um prazer, uma enorme satisfação, aquele que assiste a todos quantos expõem os seus trabalhos aos olhos do público, e depois recebem, como réplica quase imediata, uma visão tão próxima, e quase tão detalhada, quanto aquela que pretenderam transmitir. Suponho que, para uma compreensão total deste livro, como de outro qualquer, estará implícita e obviamente clara, a necessidade de lerem o mesmo, pois a seu o de seu dono, e cada um lá fará a sua própria interpretação, como deve de ser, contudo, nunca é demais salientar, quase à laia de um prefácio, a opinião de alguém, que já o leu, e que assim o explica tão bem. Obrigado Paula.

A queda de um anjo triste.

Desafogados brilhos desta existência, quis olhar em frente, e vi somente escuro. Escuro, escória, lixo, lama e penetrante breu. Quis seguir em frente e não mo permitiram. Quis marcar presença, caí, e fui banido. Quis viver, e fui marcado a fogo com o rótulo do nada. Malditas palavras que me acendem esta vivência, pudera eu ser livre, e não viver por trás deste muro. Ser vento, ou poeira, e correr solto pelo esplendor deste céu. Malditas palavras que de mim emergiram, ainda mal as proferia, e já as via, abafadas em seu ruído, como se fossem pássaros, abatidos em revoada. Como eu mesmo, abatido assim, em tenra idade. Mas sosseguem, pois sou coisa irritante que insiste em não morrer. Malogrado pela estupidez do desprezo, sou, ainda assim, Homem! Homem! Homem... Estou vivo, e não desabo. Desafogado percurso que ainda mal começa, não verás teu fim nesta desdita amordaçada. Quis dizer o que quis, e não me faltou a vontade. Mais fáci...
Desta janela encantada de onde o meu olhar se pendura, vejo todos os dias um casal que ruma já ao final de uma vida preenchida. Todos os dias, se perfilam perante a minha vista, como se ainda mantivessem um futuro repleto de projectos. É possível que outros olhos que sobre eles se deitem, possam ver somente a tristeza da penúria que lhes reveste os corpos, mas eu, eu vejo um casal enamorado, que ainda vive a vida com um entusiasmo adolescente. Andam sempre de mãos dadas, e partilham tudo. Os bancos de jardim, o saco de plástico de onde se alimentam ao sol, a paixão, o toque carinhoso das mãos entrelaçadas. Sobretudo a paixão, que neste casal parece inabalável. Pergunto-me a mim mesmo: qual será a receita para uma relação de amor, assim tão serena e inoxidável, nestes tempos de horror que nos abarcam? E, como conseguem eles, manter duas existências assim, tão uníssonas ao longo de uma vida inteira? O que subsiste realmente, acima da desdita da realidade? 

Apresentação do Governo Sombra no Diana Bar

Sei que já o fiz, mas, não podia deixar de tentar transmitir aqui, com grande emoção, os meus mais sinceros agradecimentos ao Rui T, ao Angelo Vaz, ao Sr. Vereador da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim, Luis Diamantino e a todos aqueles, que estiveram presentes sexta-feira passada, na apresentação do meu livro "Governo Sombra" no Diana Bar na Póvoa de Varzim. Foram momentos que nunca esquecerei, amizades que alegremente cimentei, e que decerto, dificilmente o tempo as fará desaparecer. Entendo agora, que um livro, encerra muito mais do que a própria história que contem, é também uma ponte, que passo a passo vai sendo edificada em cada momento deste percurso que iniciei aquando do seu lançamento, uma ponte sólida, longa e tão deslumbrante na sua estrutura, que a atravesso de olhos fechados, imerso em prazer e deleite, pois, mesmo que lhe tenha lançado os alicerces, são vocês agora, os leitores, quem a vai cuidando com desmedido esmero e paixão, e por isso vos agradeço a t...

Porque hoje é dia de luta...

Desalento

Encontro-me triste, abandonado e só. mais cão vadio do que homem, sem ter quem me procure, desalentado, neste fim do mundo que mete dó, com um pé já apontado a um nada que perdure. Pobre espinho curto que a ninguém pica, minh’alma é desventurada e escura, (coitada). Não sabe ser alma, nem cai ou fica. É feita de coisa inerte que nem perdura. Deverei ir mais além, na busca de quem me queira, ou aqui permanecer, tão triste, só e abandonado? Sou vidrinho furado por onde tudo se esgueira, sem vontade sequer, de estar em nenhum lado. E, de olhos fechados, já não sinto sequer este vento, mais me faltam forças para os manter abertos, neste ponto onde estou, sinto só, abandono e desalento, e um sem fim de outros males incertos. Quem me virá buscar a este cume de solidão? Sei-te aí por perto, mas chamar-te, eu nem m’atrevo. Maior será a dor de um tal...
(...) "O " Governo Sombra " nada tem de nocturno, de subterrâneo, de inconsciente. Está penetrado de luz e exprime qualquer coisa de perfeitamente consciente, embora permanente no homem - simboliza a experiência talvez mais frequente na existência, a dupla atracção das duas "tentações" da alma humana: a do bem estar, do amor seguro, dos dias sempre iguais, por um lado; por outro, o da aventura, da insegurança, da graça sempre renovada dos medos e dos mistérios que nos assoberbam, por vezes nos aterrorizam, arrancados ao tempo com trabalho e perigo, como as pedras ao duro flanco da montanha." opinião do leitor: Luis Vaz Morgado

Viver no Passado.

Surpreende-me a minha própria nostalgia por tempos que nem conheci, e dos quais tenho apenas recordações transmitidas por terceiros. Nunca antes me colocara a viver nos anos da geração dos meus pais, mas de tempos a tempos, sou involuntariamente transportado para aí. São somente breves instantes que se dilatam quando passo pela cozinha e o sol ilumina uma determinada cor das paredes. Caio numa fantasia em tons de azul pastel, de um tempo em que havia vacas leiteiras, muito pouca gente, e todas as pessoas se conheciam umas às outras, numa pequena aldeia isolada no cimo de um monte, sobranceira ao rio Ave. Havia ali uma quietude de ledo pasmo que muito me agradava. Velhas que raramente saíam de casa, e a quem eu fazia recados. Casas trancadas no tempo pela penúria ou pelo abandono, algumas mais antigas que as próprias velhas. Não existiam bulícios de inquietações, não se choravam misérias em privado, e em público não havia necessidade para tal, pois as desventuras eram de todos. Um...
Escrevo porque encontro nisso um prazer que não consigo traduzir. Não sou pretensioso. Escrevo para mim, para que eu sinta que a minha alma me fala, por vezes canta-me até, muitas vezes choramos os dois, sozinhos.
A eterna comédia humana. Só quando o pesado caixão de mogno subiu para a berlinda negra, só quando a longa fila de automóveis tristes se pôs em marcha, é que ele acordou do pesadelo e viu, conscientemente viu, toda a sua desgraça. Pela primeira vez chorou; chorou não por ela, mas pela ruína total e sem remédio da sua vida inteira. Porque era assim: a partir daquele momento toda a sua vida desabara convertida num montão de escombros. Debaixo dos destroços, ele jazia sepultado - morrera também. Existem angústias tão desoladoras, tão infinitamente cruéis, que ficamos com a sensação nítida de que passámos já para além da morte. É a eterna tristeza humana também.