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Mensagens

A minha prenda de Natal do Jornal "O Público"

Amour!

Raramente falo aqui de cinema. Há muitos anos atrás, apaixonei-me por um tipo de cinema, que dificilmente consigo encontrar nos dias de hoje. Quando vejo cinema actual penso que, na maioria dos filmes, falta maravilhoso, aquela espécie de unguento que percorria os filmes antigos e que ainda hoje os faz nossos para sempre. Que não precisam resistir ao tempo, são pertença natural desse outro onde somos passantes ensombrados pelo relógio interior que inventámos. De tempos a tempos, a TV satisfaz-me essa nostalgia por bom cinema, embora, nunca mais seja aquilo que foi, nos tempos áureos da RTP2. Os seus ciclos nocturnos, de descarada fuga ao communmente comercial. Saudades, sim. Resta-me o desafogo ocasional da escolha arbitrária do DVD. Não é a mesma coisa. A RTP2 oferecia-me o prazer de o cineclube caseiro, e eu adorava-a por isso. Revi Casablanca, à poucos dias, em seus tons de apetecer - reconheço que por ter passado na TV e livre a minha areia na ampulheta - revi também um del...

Era uma vez um anjo...

" E mesmo assim, Cândida morria de vontade que ele lhe fizesse malabarismos nas mamas. Ansiava tanto por essa vulgaridade. - Qual seria a sensação nestas mamas que tenho agora? Poderias brincar com as minhas mamas pelo tempo que quisesses, sabes? Fazeres helicópteros com a língua e aterrares húmido no campo espaçoso dos meus largos mamilos. Podias sim, eu deixava-te. Sempre me achei demasiado pequena aí. Quase homem aí. Tinha mamas de homem mas mamilos de puta. Ai! Agora já não tenho Mateus. Agora já sou mulher inteira e posso ser a tua puta todos os dias, queres? Os anos deram feminilidade às minhas mamas, quebraram-lhe o apoio duro e fizeram-lhe crescer a elasticidade exacta das mamas próprias de uma mulher. Olha, e se tu me chupasses as mamas outra vez? Agora mesmo. Queres? Primeiro dar-te-ia um beijinho no nariz. Depois, alisar-te-ia o queixo com a minha própria língua, e aquela penugem que te cresce por baixo dos braços seria minha apenas, das minhas m...

Um tudo mais líquido

  Nada é tão ilimitado quanto o mar, nada tão paciente. Em suas largas costas, como um elefante vagabundo, carrega, minúsculos anões d'areia que trilham um mundo intermitente, e tem sempre lugar para todas as lamentações . Se me perder p'ra sempre, que seja nesse lugar de conforto, onde a água e a espuma, tudo guardam, em secreto jazigo. Não há outra vala comum que encerre tanto morto, ansioso por se recolher, ao lugar salgado desse abrigo. O mar é um imenso contentor, esse prodigioso armário,   a abarrotar, de cartas, memoriais, bilhetinhos de amor, pedidos de ajuda e todo um breviário, de alegrias e desditas, que para sempre ficarão confidenciais. Acostumou-se apenas ao som das músicas, à forma das palavras, às lágrimas...ás lágrimas.  Aos pássaros sonolentos, e ao retinir de escamas e de dentes, e por fim, também aos homens, que, apoiados nessas pilastras de sal ...

O país prisão

Foto: TSF Hoje acordei preso. sonhei-me algemado num calabouço qualquer, algures, no centro de Lisboa, sem explicações ou apoios. Senti medo genuíno, tanto que nem me apeteceu acordar de todo, na esperança de conseguir mudar o rumo da noite, na orgânica flexível do sonho. Depois voltei a casa, e pressenti a minha casa como um refúgio. O corpo aqui recupera a segurança, como se a segurança fosse um combustível que é preciso, que é indispensável, como se a casa fosse um repouso absoluto onde nos atestamos de segurança. A casa é como aquele lugar de conforto em que não podíamos nunca ser apanhados quando brincávamos ao fica em miúdos. A rua já não o é. As ruas assustam, e as vozes inteiras das gentes calam-se inseguras, com o sangue a escorrer-lhes pela cabeça e o corpo marcado pela dor dos bastões, neste medo antigo que reemerge agora com dentes arreganhados e presas afiadas. Não podemos deixar que esse silêncio retorne, pois vivemos numa realidade muito crua. As pesso...

Ah, poder sonhar e não mais acordar!

Nunca sonho os sonhos completos. Isso é das maiores tolices consentidas. Acabar-se-iam e depois, a lucidez não me convém de todo. Ficaria ceg o , ainda que de olhos abertos, de órbitas vazias, perfeitamente claro, mas sem instinto criativo. Preso a instantes-sonhos horríveis e outros pertences menos humanos.  Um dia hei-de ponderar sobre os sonâmbulos! Sim, esses heróis esquecidos da noite. Estar do outro lado é que é, mais do que um sonho, nesse lado tudo se arredonda de tão absorto que é, de tão pouco indigno que é. Ali é que há vida! Ali existe-se. E todo este irreal sorrateiro tornar-se-ia a única coisa real que valeria a pena. Nunca desta cabeça saiu uma imagem de desconfiança. Sempre ovelha de olhos abertos, nunca pastor incinerado lá no outro reino verdadeiro. Acordado tenhos facas e facas e facas e desfaleço de energias, sem poder sonhar. Por vezes até parece que a minha alma se antecipa ao momento do desfalecimento, sucumbindo ao sonho que estou a sonhar mesm...

Os nossos pequenos ódios.

Somos um país pequeno, e por vezes munimo-nos de pequenos ódios, que talvez sejam grandes demais para serem assim sentidos, com a cabeça quente. Alguns até se justificam pelo medo em que vivemos, ou não se justificam de todo, considerando que o ódio não passa de uma emoção, logo, cabe-nos a todos te-lo no peito a bel-prazer, mas nunca na razão. Refiro-me concretamente aos comentários de Isabel Jonet, a senhora que se encontra à frente do Banco Alimentar Contra a Fome, e que afirma que a pobreza em Portugal é conjuntural, tornando-se, da noite para o dia o mais recente ódio de estimação nacional, pelo menos, no que às redes sociais diz respeito.  Ora, a dimensão do disparate torna clara uma coisa fundamental: ainda não percebemos.

Sabes...

Sabes, escolhi o pior lugar para me esconder. Fui trancar-me sozinho dentro de ti, e já não sei maneira daí sair. Escrevi frases e frases e frases ao vento, nunca mais ninguém as leu como tu. E em cada um dos meus versos, contei o princípio do teu nome. Sabes, estremece ainda, às vezes, todo o meu chão, pelo modo inteiro como ainda me roda o quarto, de embriaguez por ti. Estremeço também com os barulhos nocturnos da nossa água, naqueles lugares estreitos de mistério, onde a compreensão nunca chega. Sabes,  ponderei sobre as razões todas e sobre aquele vento que subia devagarinho o teu vestido pelas tuas pernas de veias mínimas, de ancas largas de sol  pintadas a cal, onde se perfilou o fio do meu último desejo. Sabes,  foi tudo um longo eco de loucura, não foi? Já nem me encontro dentro de ti, só estremeço pela cor da noite, e pelo pressentir distante dos tempos, quando a ideia de ti insi...

Mensagem cifrada.

Os seres humanos possuem o impulso de partilhar ideias, acompanhado pelo forte desejo de serem ouvidos. Faz tudo parte da nossa necessidade de comunhão. É por isto que estamos sempre a enviar sinais e alertas, uns aos outros. É também por isto que os procuramos constantemente nas outras pessoas. Estamos sempre há espera de mensagens, na esperança contínua de uma ligação significativa. E, se não recebemos ainda essa mensagem que aguardamos, isso não quer dizer necessariamente que ainda não tenha sido enviada. Por vezes, significa apenas que não estamos a ouvir com a atenção devida.

As palavras

As palavras são sinceras, não as estraguem, não as ensinem a mentir, não as deixem ficar onde não devem, pois como os solitários, elas também se envergonham. ‎

Caminho ansioso pelas areias de outono, neste lugar ventoso aqui no Norte. E não encontro nem gente que ri, nem estranhos como eu, entregues à mesma sorte, ou almas conhecidas que também andem sem dono. Não encontro sal nem gente que chora, no vasto espaço vazio que hoje eu preenchi. Não há gente nenhuma onde estou eu agora. CT 2007

Asas à solta no Centro de Memória

No sábado estive presente na inauguração da excelente exposição de pintura do meu amigo Helder Sanhudo, no Centro de Memória de Vila do Conde, que aconselho a todos que visitem, pois estará aberta ao público até 24 de Fevereiro do próximo ano.  Como tive a honra de a apresentar, a seu convite, e como me sinto tão orgulhoso por me poder associar a um evento tão interessante, deixo-vos aqui o texto que li nesse dia. Espero que gostem. " Percebo pouco de arte, mas percebo tudo sobre aquilo que me dói e sobre aquilo que me faz feliz. A meu ver, o trabalho do Helder constitui-se de uma tendência escancarada para a ternura e para a sua percepção em gestos que nos fogem da ideia. Acuso-o de ter uma sensibilidade aflorada e a mania de transformá-lo em poesia. Tem aquele gosto perturbador pelas coisas simples, que, na minha opinião, sempre serão as mais belas de todas. Quando criamos, sonhamos. E quando sonhamos, chega um tempo em que queremos inevitavelmente p...