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O país prisão

Foto: TSF




Hoje acordei preso. sonhei-me algemado num calabouço qualquer, algures, no centro de Lisboa, sem explicações ou apoios. Senti medo genuíno, tanto que nem me apeteceu acordar de todo, na esperança de conseguir mudar o rumo da noite, na orgânica flexível do sonho.

Depois voltei a casa, e pressenti a minha casa como um refúgio. O corpo aqui recupera a segurança, como se a segurança fosse um combustível que é preciso, que é indispensável, como se a casa fosse um repouso absoluto onde nos atestamos de segurança. A casa é como aquele lugar de conforto em que não podíamos nunca ser apanhados quando brincávamos ao fica em miúdos. A rua já não o é. As ruas assustam, e as vozes inteiras das gentes calam-se inseguras, com o sangue a escorrer-lhes pela cabeça e o corpo marcado pela dor dos bastões, neste medo antigo que reemerge agora com dentes arreganhados e presas afiadas.
Não podemos deixar que esse silêncio retorne, pois vivemos numa realidade muito crua. As pessoas são levadas a acreditar que o que mais conta é o dinheiro, é o bom emprego, é o carro, são as férias e o direito aos feriados. Mas não é. A pouco e pouco, obrigam-nos a rebaixar a valorização do conforto afectivo e moral. Obrigam-nos a abandonar a segurança da casa e vir para o medo das ruas. Existe a ideia errada de que podemos ser felizes sozinhos ou, pior ainda, contra os outros. Não podemos.
Os nossos líderes eleitos estão senis ou covardes ou arrogantes, por uma ganância extremista que lhes tolda a memória do passado, e esqueceram-se profundamente que também são portugueses. Os nossos líderes não nos consideram portugueses a nós e encerram-nos a todos nesta imensa prisão alcantilada junto ao mar. Não o podemos permitir.
Houve momentos em que achei não haver vivido tempo nenhum fora desta prisão, até me lembrar das palavras do meu pai, que sabe uma verdade sobre este mesmo silêncio, que eu não sei, por não ter vivido no tempo em que ele existia tão denso, que todos viviam mesmo numa prisão. Eu não vivi, e não quero nunca viver. Vivi trinta e seis anos em Portugal e os restantes quatro, passei-os num rectângulo perdido, dominado à força por uma obscuridade que impunemente julga poder roubar o futuro dos meus filhos. Não o posso permitir. Não podemos ser felizes contra outros ou sem os outros. Aguenta, aguenta, aguenta...Não aguento mais! - Devemos ser todos Portugueses. Dignos. Livres. Felizes. Não adianta nada fugir da prisão, importa sim abri-la escancarada, deixar sair os cheiros do mofo e da podridão, arrancar-lhe os ferros das grades das portas e das janelas, abrir todos os espaços com a força livre da voz e fazer desta prisão um país novamente. O nosso país.

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