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Mensagens

Cabanas de Tavira

Aterroriza-me o espaço intermédio entre a luz e o nada.
Depois de uma manhã tão bem passada a tentar apanhar caranguejos, pequenos peixes e conquilhas duvidosas, em poças de água tão tépida como a minha disposição, concluo:  A água turva não mostra os peixes ou conchas em baixo; o mesmo nos faz a mente nublada. 

Procura-me no Sol

Uma manhã perfeita, eu estava só, ouvindo a chama do Verão, à deriva, só à deriva... Caía sem peso, flutuando nesta neblina dourada, respirando os sons azuis do céu, repletos de memórias de outros dias. E no meu sonho era um jovem, e sendo jovem queria ser melhor. Com flores na boca e nos meus olhos, flutuando apenas nas cores do céu, procurando as estrelas e os anjos. Transformado pela subida, olhei para baixo e vi o mar. Aí tracei em acalmia absoluta, os contornos do teu rosto. Nuvem do céu, que pareces, um burburinho de água. Leve sonho que me carrega, por seres tão minha, como a nuvem é do vento. Não faz mal... Cantei depois, no recolhimento, das memórias de outros dias. Empurrei para cima o céu, e no meu sonho era criança. E sendo criança queria ser melhor até desaparecer no teu Sol. Casimiro Teixeira 1998

A casa da Baía do Tigres

(...)  Era um lugar frágil e sentimental, de tangos e boleros que tocavam por dentro das paredes e se ouviam à noite só em sonhos. Quem lá morava enlouquecia lentamente até fazer parte dele. Era um lugar feito de muitas loucuras, que tossia e suspirava e arrepiava-se às vezes. Pareceu-nos o lugar certo para nós. Ao acercar-nos, o céu tingira-se de púrpura com franjas alaranjadas, e o mar exsudava um odor a gardénias que nos inebriou os sentidos. Linda envergava um vestido leve, quase transparente, de cor lilás, e a sua beleza simples, parecia fundir-se com a do próprio entardecer. Mesmo antes de alçarmos a escadaria de madeira da entrada, já estava convencido. Seria ali que nós ficaríamos, para sempre. Em frente, o Atlântico embalava sonhos com o seu restolhar lânguido e perfumado, a própria mansão alardeava um tom suave de beleza que serenava o espírito. Apesar do seu aspecto delapidado de catedral em ruínas, clamava por vida em cada nicho, cada divisão. A rodeá-la cresci...

Calma preguiçosa

Deixem-me o sonho! Deixem-me o sonho! Sei que veio já a manhã desperta, e porém,  sinto só acalmia pelo meio. Vagueio solto por um lugar onde nem ponho, nem disponho de vontade certa. Aqui soberana, a preguiça tem, o poder final do seu enleio.

Hollywood: Um filme sem história.

Deixei de ver filmes de Hollywood. Decisão consciente, e tomada em definitivo, sem hipótese de retrocesso. Existem excepções, eu sei, mas até essas as desconsidero. O rácio de toda aquela artificialidade de vidas filmadas, cada vez mais me incomodava, e proporcionalmente me diminuía o interesse pelas histórias contadas. Via cinema e esquecia-me de seguir o enredo. Isto perturbava-me por demais, pois quando saía da sala de cinema, quando desligava o dvd ou a televisão, tomava consciência que havia só reparado na perfeição absurda dos dentes, na frieza insistente dos olhares, ficando desarmado pelo explosivo, inquieto até.  Os gestos canónicos de sempre cativavam-me e no fim entre os que morriam e os que se apaixonavam não havia ali mais nada. Era uma perfeição improvável.  Não podia ser! Revoltou-se-me a vontade. " O cinema é verdade vinte e quatro vezes por segundo." Foi Jean-Luc Godard quem o disse, não eu, porém, estou certo de que mudaria radicalmente esta fr...

Banho de Verão

Hoje deu-me para os banhos zen...estou a entrar no espírito livre do Verão. Que bom! - Férias....
Recordas a primeira vez que te disse que te amava?                                                    Chovia tanto e tu nem me ouviste. Espirraste e tive de o repetir. Eu disse: Amo-te! Eu disse...e tu não disseste nada. Ergueste as mãos ao meu olhar brilhante, e vi a chuva a correr pelos teus dedos. Depois beijaste-me e disseste:  Se tu morreres, se tu morreres... também eu morro. Só no dia em que tu disseres. Só nesse dia. Diz-me: Sou tua para sempre, para sempre. Diz-me!                                   Se tu morreres, repetiste, se tu morreres também eu... depois juraste-me que serias sempre minha  e que eu seria sempre teu. Recordas a última vez que te disse que te amava? Estávamos quentes e seguros no nosso mundo perfeito. Boc...

Esta dúvida sempre presente nos teus olhos...

" Estas coisas funcionam assim, em vagas: por vezes, não há nada, deserto total, noutras vezes chega tudo ao mesmo tempo. É assim com a consideração, como é assim com os amores, com a sorte e com os acasos em geral. Pelo menos, é nisso que acreditam os supersticiosos como eu." excerto do livro (por publicar) "Duas Vidas sem Importância"

Apetece-me tanto que tenhas razão Alberto

" Editar este autor (Casimiro Teixeira), "condenado" a ser esquecido, o que o levou a fugir dos seus semelhantes, o privou de pertencer a qualquer estatuto, literário ou outro qualquer, desta sociedade hostil à independência, parece ter sido  tarefa de muitos, não sei bem explicar porquê, mas sei que foi assim. Percebi-o quando li o seu livro e depois lhe tentei acompanhar o percurso. Não poderia nunca ser um grande sucesso, não neste país, nunca neste mundo. O que é pena, pois é um livro inteligente, o que pode significar que o seu autor também o seja, e só espero que a redenção do tempo me venha dar razão. " Opinião do leitor Alberto Moreira, sobre o livro "Governo Sombra" Obrigado.

Os dias mais interiores

Andamos por aí blindados, brincando nas ruas, e nas mesas dos cafés aos carros de assalto, cada um a pensar na melhor estratégia para defender os seus interesses. Fala-se e ninguém realmente escuta, impacientemente à espera da sua vez de falar.  E todos têm tantas opiniões para dar e tanta razão na certeza do que dizem! Quando as coisas azedam depois, o que invariavelmente acontece, do assunto em discussão passa-se para o ataque pessoal e lá vão mais uns pontos na frágil tabela das relações humanas, mais uns riscos e arranhões, alguns indeléveis.  Fala-se de coisas que nada têm que ver mas há que saber que, em modo de sobrevivência, os egos disparam sem raciocinar sobre tudo o que mexe. E os minutos e as horas passam, sem haver nada decidido ou importante a ser dito...tolices a maioria! Somos assim, não é de propósito, simplesmente nada se conclui neste extremo estado emocional. Somos conduzidos pela exaltação do nosso próprio umbigo. Vai-se lavando roupa suja. E à mão...

Caí do mundo por um abraço

Lembras-te do tempo em que choveste a noite inteira, uma tempestade furiosa longe dos meus braços. Recordas a altura exacta em que a ilha afundou, e ninguém a quis agarrar? Lembras-te do momento em que as árvores caíram? A madeira arrombou as paredes, naquele som que acordaria os mortos. Mas ninguém se importou sequer em acordar. Alguém se perdeu por isto Alguém se perdeu por um abraço. Imaginas ainda o tempo em que o céu escureceu? Esperei por ti, deitado na areia. E só parecia haver o som do mar furioso, e ninguém a estender-me os braços. Alguém se perdeu por isto Alguém se perdeu por um abraço, um abraço, só por um abraço. Casimiro Teixeira - 2012

Queríamos ser o céu.

Pelos fins de Junho, dei a saber ao Professor Múrcia a minha irrevogável decisão de mandar para o diabo a ciência das leis da vida, fosse ela qual fosse, e de me consagrar inteiramente à paixão dos romances: mas ele deferiu, com grande desgosto meu, ao pedido de ser meu professor de escrita criativa. A música cristalina da sua voz, ressoava no regresso de cada lição, aos meus ouvidos como uma opereta; nos olhos, porém, assomavam lágrimas. Não, não disse palavra ao Professor Múrcia sobre a minha descida aos infernos, nunca aludi sequer, a questão da trágica morte da Laura, foi somente pela minha total falta de entusiasmo, que ele começou a ter sérias dúvidas sobre a minha vocação para as letras.  Todavia, insistia em pensar que a minha falta de êxito, detinha-se sobretudo na incapacidade de convivência, e na dificuldade de afazer o espírito às sensações e aos pensamentos daquelas supinas personagens que criava. E ele acertava no que dizia, sem assomo d...

A felicidade ao nosso alcance

Na linguagem de todos os dias, a noção de felicidade designa uma inclinação amoral pela vida dada ao prazer. Sempre achei inexacta esta designação. Compreendi sempre a vida feliz de uma forma muito céptica, quase redutora: como sendo a experimentação do prazer limitada àqueles que não sofrem, ou seja, somos felizes na medida em que sabemos afastar o sofrimento.  São muito poucos aqueles que sabem enfrentar o sofrimento com dignidade e, em muitos casos, não são aqueles que se espera que o façam. Poucos sabem calar-se e respeitar o silêncio dos outros. Todos descobrem, mais tarde ou mais cedo na vida, que a felicidade perfeita não é realizável, mas poucos se detêm a pensar no seu oposto. Ser perfeitamente infeliz, também não se consegue com a devida facilidade. Os momentos que se opõem à realização de ambos são da mesma natureza, derivam da nossa condição humana, que é inimiga de tudo o que é infinito. Mas, só nos preocupamos com a primeira premissa: A felicidade perfeita, ou...

Frenologia? O que raio é isso?

Excerto do Romance, por publicar, "Duas Vidas Sem Importância" - Para aguçar o apetite a quem interessar (...)  Anos depois, o filho de Remédios, Jeremias Bruno, levou a cabo esta destruição do inexplicável, sem pressa e feita ao seu método. Mil vezes Jeremias fazia recordar o motivo por que a mãe o elegera como predilecto. A razão para tal favoritismo nascera de uma paixão sua que tanto a encantava: a frenologia. Eu explico; Jeremias, da prole escorregadia que deslizara das ancas de Adosinda, fora o único nascido com um travo adocicado de inteligência e apego familiar. Muito cedo na sua vida, fizera aquilo que todos sempre ansiáramos fazer; partir. Sem ter um centavo no bolso, rumou à América, estudou a fundo esta ciência caduca, que reivindica ser capaz de determinar o carácter e personalidades humanas, pela observação aprofundada da forma da cabeça, mais concretamente, dos seus altos, ou caroços definidos, e, adornou-se com ...

Eu sou criança!

Que alegria sermos todos pequenos por um dia. Voltarmos a ser as crianças que fomos, e que, alguns de nós, sempre somos, em todos os dias das nossas vidas. Agora até acredito nas efemérides, nestas celebrações esporádicas do que sempre tem, e deve de ser celebrado. O dia da criança, acho-o especial por demais. Sim, porque nunca o deixei de ser. Não me importo com a censura ou com as opiniões desgastantes de quem acredita, que algures no tempo devemos crescer e deixar o passado para trás. Apupo com veemência a tristeza destas almas, pois não posso deixar de acreditar que, tendo sido em tempos uma criança, como todos inevitavelmente fomos, de bom grado alguém possa querer deixar de o ser, ou fazer de conta que nunca o foi. Tenho dois filhos, crianças ainda, e, neste dia, fujo com eles da maldição do crescimento, da injúria ingrata de já ser um adulto.  Ninguém acolhe melhor uma criança do que outra criança. Daí que, celebro aqui, com eles, e com todos aqueles que mantenham o ...

Opinião no blogue "Ideias Dispersas"

Quase imperdoável o meu esquecimento em mencionar aqui, a muito interessante recensão que a minha querida amiga Cláudia Moreira, fez do meu livro: "Governo Sombra" no seu discreto mas fundamental blogue: IDEIAS DISPERSAS. Fica pois aqui o link para o mesmo, com esperanças de que ela me perdoe, e para que o leiam, claro. Vão gostar de certeza.

A Luz dos meus dias.

Vivo em função da existência da luz
 E das batalhas desiguais ainda que nem mereça uma vida que seja inteira e totalmente luminosa sigo-lhe o sopro para onde me conduz
 o rugoso ruído de seus cristais
 erguendo-se no rigor da manhã que se abeira traduzida numa só palavra, tão..tão poderosa.

 Nem tento interpretar esta ceifa matinal.
 Sou o homem que nunca a compreendeu
 calculo mal as palavras nas noites desertas
 levanto-me, abro o olhar e volto a viver
 Já nem concebo outra existência que não seja igual existo apenas no dealbar colorido do céu entre o manto da escuridão e as lâminas abertas naquele instante em que a noite deixa de o ser. Ali descarto o que sou e torno-me gente Nos confins da luz— flores de sonho tilintam, explodem, resplendem,  sou o menino de lábios cosidos, cruzando as pernas no dilúvio branco que brota dos céus, minha nudez em sombra, ninguém a sente. Ou as paixões que estes fogos em m...

Governo Sombra - Book.it de Valongo

Ontem de tarde, com a Marisa Mendes, da Chiado editora, na sessão de autógrafos da Book.it de Valongo