Avançar para o conteúdo principal

A casa da Baía do Tigres


(...) Era um lugar frágil e sentimental, de tangos e boleros que tocavam por dentro das paredes e se ouviam à noite só em sonhos. Quem lá morava enlouquecia lentamente até fazer parte dele. Era um lugar feito de muitas loucuras, que tossia e suspirava e arrepiava-se às vezes. Pareceu-nos o lugar certo para nós.
Ao acercar-nos, o céu tingira-se de púrpura com franjas alaranjadas, e o mar exsudava um odor a gardénias que nos inebriou os sentidos. Linda envergava um vestido leve, quase transparente, de cor lilás, e a sua beleza simples, parecia fundir-se com a do próprio entardecer. Mesmo antes de alçarmos a escadaria de madeira da entrada, já estava convencido. Seria ali que nós ficaríamos, para sempre.
Em frente, o Atlântico embalava sonhos com o seu restolhar lânguido e perfumado, a própria mansão alardeava um tom suave de beleza que serenava o espírito. Apesar do seu aspecto delapidado de catedral em ruínas, clamava por vida em cada nicho, cada divisão. A rodeá-la crescia um enxame de palmeiras esvoaçantes, protectores perenes contra o fustigar da areia. A ladear a entrada, um pequeno jardim florido com cactos e acácias rubras pareciam puxar a si o próprio brilho do sol. O travejamento das paredes tingido num amarelo ocre, entrecortado pelas inúmeras portadas azuis, também de madeira, rematava o quadro em coloridos berrantes. Não era um lugar propriamente, mas sim uma pintura impressionista. (...)

Excerto do meu último livro (por publicar)

Mensagens populares deste blogue

Jorge Machado

Ninguém nunca sabe ao que vem, viver é um ensaio. Dão-nos o que fazer e coisas para que acreditemos e depois ficamos à solta. Dão-nos o nós e a vida de barro, mas há quem faça o que bem entende gostar de fazer. E até há quem o faça muito bem. Ninguém nos explica direito, em pequenos, que as coisas mudam e partem e ausentam-se, e que antes de aqui chegarmos, já o seríamos, mas que tudo se cria e que tudo se nos pode escapar. Carecemos de um olho arguto e atento para captar o que mais conta, até à eternidade. Eu, por boa sorte, tenho um amigo, que por sorte também é o meu melhor amigo, que entende muito bem que há tempos de equívocos, de medo e de combate. Que o mundo, de tão duro e belo até ao fim é mais colectivo se for partilhado em imagens, que nos deixem estarrecidos. O Jó sabe disso de querermos ser felizes, nisso somos mais que irmãos.  E desde catraios entendi nele, o seu lugar exacto. O seu carácter metódico, rigoroso é a pedra de toque da sua vida e da sua paixão, a fotografia. …

...onde o vento sopra mais forte

O meu caríssimo amigo Rui T, em actuação ao vivo no Teatro Municipal de Vila do Conde, com o novo tema, entretanto já gravado: "Corre", baseado no meu livro com o mesmo título. O Humberto sorri algures.

Podem saber um pouco mais sobre o Rui e o seu trabalho, aqui.

Cinco minutos

Assumi escrever isto em cinco minutos, sem tempo para hesitações. É só para esvaziar, para não me deixar soterrar pelas avalanchas da inadequação.  Os meus olhos saltam perdidos entre os grandiosos eventos estivais, apanham respingos das fontes iluminadas com os rostos eleitorais, entram pelas bibliotecas dentro, todas maiores que os meus medos. Param nos cafés lotados de soberba, cheios de viciados em exposição, a transbordarem pelas esplanadas, parecem todos mais cansados que eu com as suas roupinhas de férias.  Tanta feieza e formosura juntas que já não tenho certezas sobre como saber separa-las. Ou se devo. Ou se preciso fazê-lo. Ninguém me mandou andar por aqui, ao acaso, a procurar personagens absurdos. Aqui fora, todas as montras são íntimas, e ninguém mostra vergonha de nada comprar. Aqui fora vêem-se os rostos, olhos nos olhos, enquanto rejeitam de frente. Dói, mas é melhor assim. Durmo e tenho sonhos estranhíssimos em que ajudo pessoas que parecem nem precisar de mim. Afastam-s…