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Mensagens

O país prisão

Foto: TSF Hoje acordei preso. sonhei-me algemado num calabouço qualquer, algures, no centro de Lisboa, sem explicações ou apoios. Senti medo genuíno, tanto que nem me apeteceu acordar de todo, na esperança de conseguir mudar o rumo da noite, na orgânica flexível do sonho. Depois voltei a casa, e pressenti a minha casa como um refúgio. O corpo aqui recupera a segurança, como se a segurança fosse um combustível que é preciso, que é indispensável, como se a casa fosse um repouso absoluto onde nos atestamos de segurança. A casa é como aquele lugar de conforto em que não podíamos nunca ser apanhados quando brincávamos ao fica em miúdos. A rua já não o é. As ruas assustam, e as vozes inteiras das gentes calam-se inseguras, com o sangue a escorrer-lhes pela cabeça e o corpo marcado pela dor dos bastões, neste medo antigo que reemerge agora com dentes arreganhados e presas afiadas. Não podemos deixar que esse silêncio retorne, pois vivemos numa realidade muito crua. As pesso...

Ah, poder sonhar e não mais acordar!

Nunca sonho os sonhos completos. Isso é das maiores tolices consentidas. Acabar-se-iam e depois, a lucidez não me convém de todo. Ficaria ceg o , ainda que de olhos abertos, de órbitas vazias, perfeitamente claro, mas sem instinto criativo. Preso a instantes-sonhos horríveis e outros pertences menos humanos.  Um dia hei-de ponderar sobre os sonâmbulos! Sim, esses heróis esquecidos da noite. Estar do outro lado é que é, mais do que um sonho, nesse lado tudo se arredonda de tão absorto que é, de tão pouco indigno que é. Ali é que há vida! Ali existe-se. E todo este irreal sorrateiro tornar-se-ia a única coisa real que valeria a pena. Nunca desta cabeça saiu uma imagem de desconfiança. Sempre ovelha de olhos abertos, nunca pastor incinerado lá no outro reino verdadeiro. Acordado tenhos facas e facas e facas e desfaleço de energias, sem poder sonhar. Por vezes até parece que a minha alma se antecipa ao momento do desfalecimento, sucumbindo ao sonho que estou a sonhar mesm...

Os nossos pequenos ódios.

Somos um país pequeno, e por vezes munimo-nos de pequenos ódios, que talvez sejam grandes demais para serem assim sentidos, com a cabeça quente. Alguns até se justificam pelo medo em que vivemos, ou não se justificam de todo, considerando que o ódio não passa de uma emoção, logo, cabe-nos a todos te-lo no peito a bel-prazer, mas nunca na razão. Refiro-me concretamente aos comentários de Isabel Jonet, a senhora que se encontra à frente do Banco Alimentar Contra a Fome, e que afirma que a pobreza em Portugal é conjuntural, tornando-se, da noite para o dia o mais recente ódio de estimação nacional, pelo menos, no que às redes sociais diz respeito.  Ora, a dimensão do disparate torna clara uma coisa fundamental: ainda não percebemos.

Sabes...

Sabes, escolhi o pior lugar para me esconder. Fui trancar-me sozinho dentro de ti, e já não sei maneira daí sair. Escrevi frases e frases e frases ao vento, nunca mais ninguém as leu como tu. E em cada um dos meus versos, contei o princípio do teu nome. Sabes, estremece ainda, às vezes, todo o meu chão, pelo modo inteiro como ainda me roda o quarto, de embriaguez por ti. Estremeço também com os barulhos nocturnos da nossa água, naqueles lugares estreitos de mistério, onde a compreensão nunca chega. Sabes,  ponderei sobre as razões todas e sobre aquele vento que subia devagarinho o teu vestido pelas tuas pernas de veias mínimas, de ancas largas de sol  pintadas a cal, onde se perfilou o fio do meu último desejo. Sabes,  foi tudo um longo eco de loucura, não foi? Já nem me encontro dentro de ti, só estremeço pela cor da noite, e pelo pressentir distante dos tempos, quando a ideia de ti insi...

Mensagem cifrada.

Os seres humanos possuem o impulso de partilhar ideias, acompanhado pelo forte desejo de serem ouvidos. Faz tudo parte da nossa necessidade de comunhão. É por isto que estamos sempre a enviar sinais e alertas, uns aos outros. É também por isto que os procuramos constantemente nas outras pessoas. Estamos sempre há espera de mensagens, na esperança contínua de uma ligação significativa. E, se não recebemos ainda essa mensagem que aguardamos, isso não quer dizer necessariamente que ainda não tenha sido enviada. Por vezes, significa apenas que não estamos a ouvir com a atenção devida.

As palavras

As palavras são sinceras, não as estraguem, não as ensinem a mentir, não as deixem ficar onde não devem, pois como os solitários, elas também se envergonham. ‎

Caminho ansioso pelas areias de outono, neste lugar ventoso aqui no Norte. E não encontro nem gente que ri, nem estranhos como eu, entregues à mesma sorte, ou almas conhecidas que também andem sem dono. Não encontro sal nem gente que chora, no vasto espaço vazio que hoje eu preenchi. Não há gente nenhuma onde estou eu agora. CT 2007

Asas à solta no Centro de Memória

No sábado estive presente na inauguração da excelente exposição de pintura do meu amigo Helder Sanhudo, no Centro de Memória de Vila do Conde, que aconselho a todos que visitem, pois estará aberta ao público até 24 de Fevereiro do próximo ano.  Como tive a honra de a apresentar, a seu convite, e como me sinto tão orgulhoso por me poder associar a um evento tão interessante, deixo-vos aqui o texto que li nesse dia. Espero que gostem. " Percebo pouco de arte, mas percebo tudo sobre aquilo que me dói e sobre aquilo que me faz feliz. A meu ver, o trabalho do Helder constitui-se de uma tendência escancarada para a ternura e para a sua percepção em gestos que nos fogem da ideia. Acuso-o de ter uma sensibilidade aflorada e a mania de transformá-lo em poesia. Tem aquele gosto perturbador pelas coisas simples, que, na minha opinião, sempre serão as mais belas de todas. Quando criamos, sonhamos. E quando sonhamos, chega um tempo em que queremos inevitavelmente p...

Dia do Poeta

A morte é a melhor saída, quando não há futuro nem fé nem salvação; quando a vida, a nossa vida, se tornou —desde o útero— uma amálgama de utopias, de sonhos e imagens sem corpo; de montanhas que inventamos e escalamos. Sós, tão sós como a companhia que a nós se junta. Certas almas não têm par, já nascem ímpares, desgraçadamente ímpares, mas não imunes... nem inocentes, porque não há inocentes —todos temos alguma culpa, mesmo da culpa que não temos... Não choro mais os mortos, invejo-os, se a morte os veio buscar devagarinho; se os abraçou suave, docemente, como que libertando-os do terrível pecado de estarem vivos nestes tempos de agora; como que tirando-lhes todas as dúvidas, neste flagelo de falta de certezas, só os posso invejar. Morre-se devagar às mãos de inimigos que nunca vemos, que se escondem nos rostos que conhecemos, mas que não nos enfrentam, sorriem apenas, sob máscaras de desculpas. Diz-se que qualquer um pode fazer um poema, mas não pode.  ...

Agora que morri...

Morri três vezes hoje. Melhor reformular o que tenho para te dizer. Morri TRÊS vezes hoje! Uma foi, quando deixei de te ver, a outra, foi mais longa, uma espécie de morte prolongada, quando fugi da vontade de viver, pela longa estrada arvoreada. Morri três vezes hoje... e a terceira nem foi verdadeira. Foi uma vida fingida, que fez de conta estar terminada. Morri...morri três vezes hoje. Melhor faria em morrer de vez. Que espécie de homem morre por esquecer, O amor da sua amada? Tomara eu ser homem, e morrer de paixão. Morri três mortes hoje, e nenhuma por vocação. Mas que grande disparate, é o que discorre do que sinto, corre o sangue por onde o coração bate, e eu minto, eu minto. Morri três vezes, fica a vida para outro dia, tenho vontade de acertar, quem mais o esperaria, nunca mais me encontrar?