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Mensagens

Governo Sombra - Cap.II

CAP. II Lisboa, Agosto de 2008 Henrique Lobo Henrique Lobo revolvia-se com nervosismo, sentado com evidente desconforto num canapé de palhinha, de cor pastel do séc. XIX, na austera sala de audiências do palácio de S. Bento. Tinha as costas voltadas ao centro da sala, que estava ornada com uma bela lareira ao fundo, quatro grandes janelas com sanefas em tule adamascado, e cadeirões de aspecto bem mais confortável do que aquele onde decidira sentar-se. Agora, porém, era tarde. Tinha tomado a inglória decisão de esperar ali, ou quiçá melhor, tinham-na tomado por si.

Governo Sombra - Cap.I

CAP. I Vila do Conde, Janeiro de 2009 Pedro Gonçalves Surpreendido pela sua própria nostalgia por tempos dos quais nem retinha memórias pessoais, Pedro Gonçalves, deixou-se encovar no deformado puff castanho de bolinhas de esferovite, arrumado num canto acolhedor da sala, e sonhou acordado com a geração dos seus pais, tempos de escassas recordações, constantemente marginalizadas nas conversas à mesa, os anos quarenta e cinquenta, onde a pobreza, embora dura e lategada, parecia menos agreste do que agora. Por vezes, em breves instantes que se dilatavam em minutos, o pai e a tia, divagavam soltos por esses tempos, mas, o rosto carregado de sua mãe, sempre os demovia de continuarem imparáveis no desfiar de tais memórias incómodas. Não havia porém, esse travão agora. A morte de sua mãe, quatro anos já corridos, deixara-os quiçá livres, para soltarem a língua nessas memórias encerradas. Todavia, já não o faziam. Poder-se-ia dizer que na altura o fariam por vontade de tagarela, ou t...

Governo Sombra - Prólogo

PRÓLOGO Lisboa, Novembro de 1987 Um cemitério estreito no centro de uma cidade movimentada, indiferente, visto das janelas de uma pensão tristonha, fechada ao público à décadas, não é, em momento algum, objecto de alegre sugestão; e o espectáculo nunca aparenta o seu melhor, quando o seu ponto alto é a vista de folhas castanhas de Outono, esvoaçando sobre lápides que o tempo e os homens já esqueceram há muito. Admitir-se-á que nenhuma influência deprimente está ausente deste cenário. Este facto é pungentemente sentido por um homem, já bem entrado na casa dos cinquenta anos, que em 13 de Novembro de 1987, ali estava, há três horas e meia, admirando-o. Isto é amiúde, pois de vez em quando, de tempos a tempos voltava para o interior do quarto e media o seu comprimento com passos inquietos, até se concentrar na verdadeira razão da sua presença ali.

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O caminho da prata

Poema 8

És uma flor que cresce da parede gretada, perdida entre o feto a hera e a gesta, colho-te mansamente dessa curta fresta onde infeliz estás tu atada. Trago-te, tonto e sem jeito, enrolada no calor imenso deste peito, a ti, delicada e bela que és, minha flor silvestre, meu sonho de tudo o que virá. Perdido, perdido, ando eu, no rastejar, de um chão que nem sei se existe. Perdida, perdida, anda a vontade, a força de espírito, que por vezes parece que desiste. Em mim, em mim (Tiná) e anseio, anseio por esse teu olhar cheiroso de flor, que tudo me traz de volta, esse olhar, ah esse olhar de amor. É por isso, só por isso que eu sei, embora olhe para ti menos vezes do que já olhei, nesta vergonha, sim, nesta repugnante vergonha, que me corta a artéria da vida, inundando-a de peçonha, e nada mais me resta, que estas palavras pra ti ó minha flor, palavras nem sei bem de quê. De dor? De Amor? Pois eu estou cego, sou aquele que não vê. Mas por ti, por ti eu tento, e se ao menos, em ...

Rostos da Boavista (Cabo Verde)

Todas as fotos da autoria de Casimiro Teixeira

Poema 7

Mal posso com o peso da vida, cangaço atroz que me despedaça, carrego-o errante em vã desdita, tentando acreditar que ela passa. E passa, passa, ela vai, deixo-a ir sempre há minha frente, não sou homem que não vai, mais além do que aquilo que sente. Tenho vertigens ao viver, sou peso morto que balança inerte, na grande preguiça de ser, o copo cheio que nunca verte. Já pensei nisso, já contemplei, o fim avizinha-se-me prazenteiro, mas não posso, não sei, dar aquele final passo derradeiro! E por isso persisto, vivo, avanço, aguento, de sorriso velado, a indesejada vida da qual não me canso, de dizer que dela estou cansado. Eu escorrego sorrateiro pela borda d'água, eu imploro, ajoelho-me, rogo a vontade de morrer, quis o destino que me esvaneça nesta mágoa. Maldito coração que não pára de bater? Sou assim, Atlas covarde que sustem, o fardo surrado desta vivência, deste ser sou como sou, palhaço triste que tem, até preguiça ou medo de morrer.

Sagres

As aventuras de Rodrigo - O Guerreiro Sonhador - Cap.I

J á tarde ía a Primavera no seu correr de Estação ao longo do ano, e por todo lado se sentia o calor do Verão a querer surgir, assim foi que numa tarde muito quente de Junho, encontramos Rodrigo com o seu cinto de Tazos a tiracolo a vaguear alegremente pela floresta encantada de Oom, dizia-se que aí vivia Grunch, o treinador de cavalos alados, e Rodrigo procurava-o.

As aventuras de Rodrigo - O Guerreiro Sonhador

Prólogo H á muitos, muitos anos atrás, numa época de Dragões, criaturas estranhas, Cavalos Alados e Fadas, místicos feiticeiros, bosques encantados, Pássaros Gigantes, Reis e Princesas Encantadas, num tempo de céus azuis repletos de côr , inundados de luz e beleza, de corajosos cavaleiros reluzentes, heróis de bravura sem fim, e de malvados vilões de olhares sinistros e bigodes empinados, num tempo onde a imaginação dos homens não se detinha em sonhos pela noite, mas renascia no nascer de cada dia, prosperando em contos e relatos fantásticos de batalhas inacreditáveis e feitos de coragem além da própria vida. Nesse mundo de fantasia, nessa época maravilhosa, vivia um pequeno menino, que vagueava pelas planícies e pelas montanhas, atravessava oceanos e desertos, conhecia Imperadores e Vagabundos, poetas e guerreiros, e era um menino muito especial, pois tinha o Dom da fantasia e a todos agradava com os seus feitos de heroísmo. O seu nome era Rodrigo,e esta é a sua ...