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Mensagens

Só isto conta, o que eu sou.

 

Dia sim, dia não uma beleza antiga

  Piper Laurie

As Crónicas do senhor Barbosa XVIII

Investir selvagem pelas ancas, naturalizar-se besta por todo, ou meramente borrifar sémen ao desbarato, como se apagasse fogos incontroláveis por lugares selvosos, estava muito longe de ser a postura do Senhor Barbosa na vida. Foi um despertar aqui há uns anos. Já muito que a sua virilidade natural fizera por décadas e décadas, agora, caía em sossego profundo, até ao dia em que a quietação se tornou total. Medidas as circunstâncias, concluiu que a dada altura, e sem que se tivesse apercebido quando, não abdicou voluntariamente do sexo. Antes este o fez por si. E, em boa hora. Conquanto o celibato não houvesse sido uma opção tomada, era-o na mesma. Rasurava-lhe uma estranha plenitude que dedicara à escrita. Cabia-lhe agora uma paz circunscrita às virilhas e localidades arrabaldes que já não o admoestavam com aquela ânsia contínua que igualmente o incomodava, como tantas outras. Todavia, e apesar da concórdia, permanecia-lhe uma injusta incerteza em relação a Madalena. - O próprio  B...

Tolerância à lactose lida.

  Quando era novo, a minha mãe comprava meio queijo limiano todas as sextas, que, em princípio, seria para todos lá de casa, mas eu gostava muito de ler: "As Crónicas Marcianas", "Viagem ao Centro da Terra" e todas as revistas de Super-heróis que comprava no quiosque do Altino com uma mão, enquanto comia queijo, desbragadamente, com a outra. Assim, o queijo acabava-se em um instante. Muito, por que lia tanto quando era novo, até mais do que agora, apesar de continuar ainda a comer imenso queijo.  O Freud talvez fosse capaz de explicar isto, mas o Freud serve para tudo. Face a qualquer tribulação, vem o Freud em auxílio, explicar tudo. O Freud e o Fernando Pessoa, que tinha tantas sombras diferentes, que qualquer inexplicável ele me resolvia.  Fui adolescente desde muito cedo. Não tive período de infância, comecei a trabalhar para ser homem, novo, e a estudar todas as leituras possíveis com uma curiosidade infinita. Mas tive uma sorte espantosa, porque tive amigos - ...

Dia sim, dia não uma beleza antiga

  Sophia Loren

As Crónicas do senhor Barbosa XVII

  Aquela Lua de Outubro vinha levantando-se medonha nas últimas noites. Imensa, grotesca de tão bela, e não havia maneira de a evitar. Caía-lhe mal, quase como os fritos. Às sua custas, andava o Senhor Barbosa tão mal dormido que ganhara uns sulcos marrons, raiados, por baixo das habituais olheiras de má-disposição ao absoluto. Para completar o quadro burlesco daquele lar desavindo, a pobre Madalena agora recorria a muletas para tudo. Fosse para lhe pedir que despejasse os cinzeiros, a areia dos gatos, a sua incomensurável frustração, para ir às compras na Cooperativa, rogar o que pudesse no altar da N.Senhora da Lapa, ou inclusivamente apenas circular pela casa, em um passo metálico de lesma, com uma borracha de permeio. "Cabra!" - Pensou o Senhor Barbosa - "Sabia sempre como rasteirar um homem."  Se pudesse, dar-lhe-ia uma mão. Até se atiraria a esfregar e a aspirar. Embrulhar-la-ia no regozijo de uma latrina de gatos fresca e cheirosa. Comprara daquela areia bril...

As Eleutérias foram uma Rave.

  Em tempos idos celebrava-se as Eleutérias. Isto, basicamente se resumia a um bando de homens injectados de testosterona a justificarem a si mesmos a última carnificina. Metiam ali no meio o Zeus, e meter o Zeus é quase igual a meter Deus. - Caramba! É só uma letra de diferença. Tenham dó. - O importante era que, algum grupo, exército, nação, acabasse de trucidar outro, dedicasse a vitória ao correspondente suserano e fizesse a festa em seu louvor. Todos excitados de sangue e espírito, como se fossem eles mesmos a representação do Criador no campo de batalha e na Terra em geral. Uma vez isto reconhecido, há que avançar para o dia seguinte. Aqui é que as coisas se complicavam.  É que o Homem, fosse de que nação fosse, de que exército, de que etnia, de que religião, jamais soube lidar com o que viria a seguir. A festa fenecia ao ritmo do rubor vivo das brasas das fogueiras, e, com estas, a noção da razão da sua presença ali. Da mera intenção de antes estar excitado e agora trôp...

O Bosque

  (...) O bosque, a ideia da floresta indecifrável    que por si dentro caminha. O chão arenoso onde já não existe medo e toda a solidão aberta, toda, só minha. Deito-me na terra sem soalho, profundíssima como o mar distante. O que poderá aquilo ser? Uma obscura vida interna de navegante. (...) In: "Forte Agitação Marítima" - Excerto

Dia sim, dia não uma beleza antiga

Merle Oberon  

A noite em que o Rodrigo Leão me deitou farpas dos olhos.

Gosto muito do Rodrigo Leão, sobretudo por estar na génese de duas das bandas mais experimentais, geniais e bem sucedidas que tive o prazer de ouvir e amar nos últimos 40 anos: Sétima Legião e Madredeus. É bem verdade que também os seus trabalhos a solo, a partir de 1995, me têm muito entusiasmado, pela criatividade e diversidade instrumentativa. Foram novas sonoridades minimalistas que romperam barreiras, que não hajam dúvidas aqui. O homem é um virtuoso, e toda a glória lhe seja merecida por aquilo que vem fazendo aqui e além-fronteiras. Ressalvo o seu projecto " Cinema " como um marco da música colaborativa, e falo de parcerias com gigantes como Beth Gibbons (Portishead) e Ryuchi Sakamoto. Tudo isto poderão apreender na sua extensa biografia na wikipédia. O que pretendo realmente ressalvar é que, adoro-o, sim, tenho uma fraqueza de fã pelo Rodrigo Leão, daquelas de quase desfalecimento, mas ele, por seu turno, e mesmo sem o saber, detesta-me! Eu explico: há aqui uma pequen...

Filhos-da-puta dos ricos.

Suponho que a grande maioria das pessoas nunca desenvolveu um forte sentido intuitivo acerca da abissal diferença entre um milhão e um bilião. Deixem-me tentar explicar-vos desta forma: um milhão de segundos equivale assim à volta de 11 dias. Já um bilião de segundos, são quase 32 anos. Percebem agora?

Fechar gavetas.

  Estar vivo é abrir uma gaveta na cozinha, tirar uma faca de cabo preto, descascar uma laranja. Viver é outra coisa: deixas a gaveta fechada e arrancas tudo com unhas e dentes, o sabor amargo da casca, de tão doce, não o esqueces. Luis Filipe Parrado

O Mal

Lembro-me muito bem que a minha mãe via sempre o Mal onde, para meus inconvenientes trabalhos, inevitavelmente ele aparecia, onde sempre se ocultara, esse 'mal' que de facto existia, e que o seu coração singular sempre me pareceu feito por medida para detetar. Eram os vizinhos, os parentes desbragados, o senhor da mercearia que cobrava tudo em excesso. O Mal, jamais me pareceu serem as atitudes erradas das pessoas, mais se assemelhava a um jogo de catequese. A senhora catequista dizia-nos certas coisas sobre o bom deus justo e generoso, e, logo a seguir sussurrava outras coisas muito baixinho sobre o diabo e afins. Na minha cabeça aquilo era um jogo das escondidas. O bem vinha contar até cem, terminava, todo apaixonado pelas pessoas e acendia-se na busca. Dentro do tasco da Dona Evinha, adjacente ao adro, escondia-se o Mal a beber sumol de ananás, sobranceiro na sua altivez. O bem, raramente o encontrava, apesar deste se esconder sempre no mesmo lugar. Parecia-me uma espécie de...

Magnífico Noir

Sunset Boulevard (1950) Billy Wilder Shadow of a Doubt (1943) Alfred Hitchcock The Lady from Shanghai (1947) Orson Welles Out of the Past (1947) Jacques Tourneur  The Night of the Hunter (1955) Charles Laughton Ministry of Fear (1944) Fritz Lang   The Third Man (1949) Carol Reed Double Indemnity (1944) Billy Wilder

Depois do Jantar, deserto.

Joan Margarit, in "Misteriosamente Feliz"  

Bom dia, príncipe

Há muito que não te falava, escrevendo-te.  Hoje é o dia dos teus anos, filho. Escrevo-te. Quero te dizer que o Verão esmorece sempre por esta altura, acaba-se por esta altura, mas volta sempre. O Verão jamais desiste de retornar. Também que Setembro voltará e que a vida por cá se ajeitará, no entretanto; que as manhãs estão cada vez mais frescas e as noites também. Não faz mal, filho. O Outono também apetece e com ele os passos de volta a nós. Quero dizer-te que a noite esconde os sorrisos e mostra os dentes e o dia faz o inverso. E para te dizer tudo isto escolhi escrever silêncios e abrir-te o ferrolho enferrujado do meu  coração. Acho que apesar de tudo, sempre acabei por escrever um poema aceitável. Que amadureceu em ti por vinte e três anos.

Lia, Cri the Coeur.

 "Sons and Daughters..."  Adoro esta rapariga, a Lia Bompastor , vocalista desta banda alternativa, ' Cri the Coeur '. Adoro-a quase como se fosse minha própria filha. A amizade juntou-nos cedo, pois nasceu de uma boa amiga que a gerou quase ao mesmo tempo que o meu primogénito. Assim fomos crescendo, e dessa forma fui apreciando a sua intrépida dedicação às artes musicais e adiante. É hoje uma mulher vila-condense indómita, que continua a esclarecer-se culturalmente e a florescer sem parar. Adoro-a, da mesma forma que adoro a minha amiga, sua mãe. Ambas fortes mulheres, incapazes de serem vulgares. Atravessam e juntam. Fazem e criam, e a Lia, sobretudo, que é realmente um grito do coração. Convido-vos a conhecerem a sua banda, os mencionados: " Cri the Coeur ". Sei que não se vão decepcionar, pois há grande pujança neste projecto. Grande vontade criativa. Enorme fusão, enorme voz...(aqui estou a ser parcial, é verdade, mas atentem, peço-vos..), há, como que...

As Crónicas do senhor Barbosa XVI

O Senhor Barbosa sabia agora que até os habitantes mais canhestros de Conde Santo podiam triunfar. Claro que era preciso amargar muito, a todo o custo, a todo o custo de qualquer prazer possível, para as coisas chegarem tão longe, mas sabia agora que era possível. Bastava fingir que era. E sabia também que, em Conde Santo, há um exército de fingidores a serem melhores do que ele. Não se demovia de tentar, contudo. Madalena engomava na cozinhava. O som do vapor do ferro acalmava-o. O aroma da limpeza e decoro da sua casa espraiava-se em seu redor. Ela cantarolava quase assertiva, quase triunfante após o esforço em o domar. Estava iluminada pelo sol radioso, quase, filtrado pela pequena janela da cozinha. Toda aquela luta desunhada porém, deixou marcas, em ambos. Ele voltava à janela quando ela não o via. Madalena emagrecera imenso. Descera de rubicunda a macérrima. Modesta e circunspecta, jamais. Ali estava ela, a imagem conseguida de um quadro Rockwell; um pé nu arqueado, sobreposto so...

Teorias do Caos

  Tenho algumas teorias que fui desenvolvendo sobre a vida.  E sendo desfavoráveis à minha vontade, o regozijo por as ver confirmadas é superior ao desgosto que a sua repetição me provoca.  A vaidade da inteligência parece ser o único consolo para o sofrimento.

Dia sim, dia não uma beleza antiga

  Grace Kelly