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Mensagens

Piquenas estórias de amore X

- Porquê? - Responde-lhe em contra-golpe. - Porque foi aí que me acertaste com os mesmos estiletes ainda ensanguentados de antes, as cuspidelas de distração...em cheio, com esse teu "amor". Aqui está o porquê. - Nunca conheci ninguém como tu. Não tens coração, ponta de amor, empatia, nada. - Tenho sim, mas ninguém o quer da forma que o dou. Toda a gente só quer muito o amor que dá, pouco, o amor que recebe, se achar um pintelho de diferença entre estes. Se existir um grão que seja nesta engrenagem, deixam as flores de crescer, apodrece tudo num instante. O amor é a forma mais natural de desentendimento. - O desamor, queres tu dizer.  - Não, não. O amor mesmo. Não há razão alguma para se inventar uma palavra que lhe prefixe o oposto daquilo que já é. - Estás a dizer que toda a gente é egoísta, como tu mesmo, e assim incapaz de amar quem não nos ama igual? - E não é? Quando nos conhecemos éramos uma imensa terra fértil, cheia de potencial, depois, lentamente fomo...

Até a eternidade...

(...)  Há uma presença forte em alguém que se mantém calado: são as rugas do rosto e os cantos da boca que falam sem ser por palavras.   Tivemos ali uma conversa inteira em dez segundos de silêncio. Fixei-o com alguma rigidez ao atravessar o umbral, fazendo contorcionismos impossíveis para que nem sequer o ar que nos rodeava se tocasse. Reparei que tinha a pele inchada nuns pontos estratégicos do rosto. Mapas de rugas em redor das pálpebras e da boca, finas gretas de morte anunciada, entre lençóis possivelmente, o que me desagradou pela facilidade, mas a morte ainda assim estava à vista. O primeiro sol engana-nos tão bem como o último dia de frio, daí saiu-me o sorriso que larguei sobre o seu corpo ao cruzarmo-nos. – Ficas aí morto para mim, como o velho sacana que és. Um sacana frio. “Morra o Dantas, morra! Pim. ” O resto da turba observava-me com desprezo e desilusão, como se eu fosse uma carraça intumescida pelo sangue virgem dos velhos e dos bicho...

Pelos caminhos apodrecidos.

O Outono deixa-me os olhos mais rápidos sobre os livros e perde-me sempre de propósito o bom discernimento atirado ao acaso em tudo o que li pelas ribanceiras traiçoeiras. Bebi três litros de uísque de malte e por isso caí. Na cumeada a galope escorreguei e caí.  Lá em baixo, desempedrando os dignos monstros às vezes só por graça de neles me perder,  passei a eito o título e a dedicatória e abandonei páginas em branco em busca do embate desprevenido da fecunda gavinha. Só que as pessoas que escrevem são todas matreiras mentem em cada fôlego que os faz nascer, enganam-se muito, riscando as regras da busca do escaparate. Logo na primeira pagina fazem amor os personagens que enfadonha decepção! Fumo um charro em sua memória. Mas vim a saber que tinham os sonhos cheios de pedra e solidão e por isso se punham unidos de todas as maneiras. Três passos ou páginas e alagam-se logo de beijos figurados, quando já eram outras horas. Outra ...

Dia sim, dia não, uma beleza antiga.

Cyd Charisse

As crónicas do Senhor Barbosa

A solidão apoia-se numa só perna, e o senhor Barbosa, que não dorme há dois dias, perfurou com os seus dedinhos as parecenças e projecções de outros lugares que muito mal o receberam. Mal sai do pé da janela, a sua natureza é estática, mas só no corpo, (a cabeça não pára de crescer em ideias) e quando o faz, aprecia apenas ser bem recebido. Ali só sentiu medo e desprezo e confusão. O senhor Barbosa rodopia sobre si mesmo com a confusão que lhe atiram para cima. Parece uma mosca a quem arrancaram as asas por ciúme ou por rancor. Rodopia e rodopia... Acaba por rodopiar demasiado, ficar tonto e cair desfalecido. Pobrezinho! Sabe lá o que são as coisas normais. Se soubesse, não estaria sozinho. No fim vomita de náusea e julga-se doente no seu perfil psicológico, sente espasmos ao nível da existência, do desfasamento unilateral nas costelas, e pôs-se a escrever cartas aos filhos, incapaz de alinhar logicamente os filamentos para o seu futuro.  Nenhum vizinho alguma v...

Saudades de ver bons Filmes (VIII)

... daqueles em que a paixão é tanta que até mata. "Ai no korîda" aka "In the Realm of Senses" -    Nagisa Ôshima  (1976)

Já fomos caminhantes de mãos dadas

Este é o meu tempo futuro, que tanto temi que chegasse. E é quase tudo quanto me resta, tarde, incumprido e infecundo. Lembras-te dos fundos recatados que ninguém vê, por trás da luz do balcão? Ali nos pusemos ao abrigo onde não chega a aflição nem o resto duro do mundo. Ali fomos dois amantes deitados em uma floresta virgem de sentimentos desesperados. Peregrinos alheios ao tempo que se acabasse, e mais não digo. Este é o meu presente, horrível dia de rebentação. Instantes tolos de um amor que se decide,  e que nem vivi por pura concentração. Talvez tenha sido a pele um estorvo ou as palavras em carne viva em demasia. Qual gomo suculento caído ao chão lentamente mordido ou sem demora. Até que a luz inteira fraquejasse, sem mercê, e a ausência alada do corvo morresse, longe daquilo que ninguém crê. Conta-me do que falamos atrás daquele balcão. Para que não mais guardemos lembrança vaga e desprendida de nomes e datas e ass...

Nunca é fácil esquecer

A Noite em que Gershwin me deu um filho - Parte 5

...continuação - Padre trago-lhe os cães de volta mais cedo, e mais qualquer coisinha à laia de desabafo para lhe animar o dia parado. Pode ser? Estou que nem posso. - Então, então.. – Remeteu-me perante tal atrapalhação. – Para isso cá estou eu meu filho. Em que te posso ser de serventia?  O homem não tirava os olhos do meu blazer , cheio de folgas nos botões polidos, por uso excessivo. Aproveitei a distração e atirei a matar. - Trago a cabeça prostrada com o peso dos cornos que a minha Cecília me pôs! – Exclamei de uma assentada. - Cornos, salvo seja. É uma maneira de dizer. Aquela mulher vive aqui na cidade mas é do mato senhor padre, é toda do mato e até cheira a isso. Recusa-me a posteridade, diz que não pode ver nada a crescer dentro dela, e isto mata-me senhor padre, mata-me aos poucos, sabe? Foi a vez do padre se benzer. - A Cecília pôr-te os cornos é mesmo matéria para um milagre Plínio. Estarás equivocado com certeza. Ocupa-te mas é de outr...