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A Noite em que Gershwin me deu um filho - Parte 5


...continuação

- Padre trago-lhe os cães de volta mais cedo, e mais qualquer coisinha à laia de desabafo para lhe animar o dia parado. Pode ser? Estou que nem posso.
- Então, então.. – Remeteu-me perante tal atrapalhação. – Para isso cá estou eu meu filho. Em que te posso ser de serventia? 
O homem não tirava os olhos do meu blazer, cheio de folgas nos botões polidos, por uso excessivo. Aproveitei a distração e atirei a matar.
- Trago a cabeça prostrada com o peso dos cornos que a minha Cecília me pôs! – Exclamei de uma assentada. - Cornos, salvo seja. É uma maneira de dizer. Aquela mulher vive aqui na cidade mas é do mato senhor padre, é toda do mato e até cheira a isso. Recusa-me a posteridade, diz que não pode ver nada a crescer dentro dela, e isto mata-me senhor padre, mata-me aos poucos, sabe?
Foi a vez do padre se benzer.
- A Cecília pôr-te os cornos é mesmo matéria para um milagre Plínio. Estarás equivocado com certeza. Ocupa-te mas é de outros afazeres, conta meia dúzia de coisas diárias em vez de mil e toma nota das receitas da vida na ponta da língua. - Remeteu-me muito críptico. -  “A Cecília pôs-me os cornos!” - Que grande disparate. Sabes bem que ela fez um voto de castidade meu filho. Esteve a um passo de se tornar noiva efectiva de Cristo. Sabias disso não sabias?
Ouvir aquilo foi quase como se uma pessoa me tivesse interrompido o acto sexual a montante, como se faz com os cães de rua enganchados pelos sexos. Caí desamparado e quando finalmente me começo a levantar dos destroços daquele desastre encontro-o, muito lívido, uma careta de medo a beber o vinho sacramental com os olhos vidrados na minha confusão.
- Estas senhoras vão agora verificar-te umas coisas Plínio - diz o padre fazendo um gesto assertivo com os dedos que animou de sangue os corpos de três beatas ali ao pé - Põe-te quietinho que isto não te vai doer nada. - Continuou. - Calças abaixo!
- Pensava que... Não interessa isso agora. O senhor prior é um valente brincalhão, graceja com coisas sérias com tanto à vontade, que até parece verdade. – O padre mostrou-se surpreso. - De qualquer maneira, para gente como nós, o amor isso sim, é quase um milagre por si só, não acha?
- Certo, certo...isso eu até percebo, não é pecado nenhum ser-se desabrigado, mas não deixa de ser tremendamente inconveniente. - Replicou. - Apresenta-lhes o teu 'sacrário' para verificação Plínio. Fá-lo agora.
- O que quer dizer com isso?
- Falo de um tempo em que ainda não eram tantos. Um tempo em que vos podia controlar de perto. Cheguei a esterilizar dezenas e dezenas..agora, já não consigo. São demasiados.
Foi quando percebi o perigo.
As três senhoras aproximaram-se de olhos muito arregalados e com uma tremedeira de mãos que me começou a assustar a sério. Levantaram-me do chão e fizeram um círculo em meu redor. Aos poucos aquietou-se a igreja.
- São uma desgraça estes tempos. Um dia, hão de ser todos imunes aos vícios. - Proferia o padre entre goles. A seu tempo verás como isto é para o teu bem.
- Pois, digamos que a culpa é dos tempos. Porque não? Mas as senhoras que nem me toquem um pêlo que eu não sou nenhum santinho. Ouviram?
Elas aplicavam-se ardentemente debruçando-se sobre mim. O padre soltou-se do começo da bebedeira, ajoelhou-se e pegou-me na cabeça em pleno ar, à distância de três passos.
- Poderias ter-te deitado com todas as vagabundas, com todas as meretrizes, com as oferecidas piores, tuberculosas, drogadas, bêbedas, com todas as imundas das ruas, as esquecidas, as desdentadas, as… Deus meu! Mas com a Cecília? Não! Por Deus, não!
A sombra dele era imensa contra a parede. As três mulheres zumbiam de dentes cerrados com uma fúria que lhes fugia da cabeça para as mãos. E nas mãos nasceram-lhes facas. Quase me mijei todo. São loucos, completamente loucos.
- Não sou nenhum vagabundo senhor padre! - Exclamei. - Um filho é tudo quanto aspiro. Deixe lá as revoluções espíritas, guarde os cães e as facas e eu vou à minha vida. Pode ser?
Aquilo tudo assustou-me como os urros de um leão doente. O padre esgazeado as mulheres de véu, como imagens de oratório dispostas em roda de sacrifício, prontas para tudo de olhos fechados. Muito me lembrou os tempos das fogueiras institucionais, ou das portas giratórias dos abrigos. Lembrou-me a loucura das revoluções que tudo sanificam  lidando com "os filhos das ruas". Ficou tudo ermo na minha cabeça e só queria fugir dali muito depressa como um suicida convicto que corre em direcção a uma falésia.
Com um pontapé desesperado abri uma frecha entre as harpias carpideiras e escapei do cerco. Corri pela ladeira do cemitério acima só para a alcançar antes que algo de muito mau nos sucedesse aos dois. Tinha um pressentimento. Ao chegar ao coberto ela não estava. Revolvi tudo, levantei pulgas e cobertores, algumas pessoas pelo meio. Nem sinal dela. Temi o pior.
- Safaste-te? - Diz o Zygmut, deitado no chão sobre as sapatas de madeira. Escorria suor, sorria aparvalhadamente, mal conseguindo manter os olhos abertos.
- A Cecília, viste-a?
- Deita-te aqui Plínio, bebe uma rodada connosco. Vamos fumar e beber, esquecer o frio, companheiro.
- Perguntei-te pela Cecília. 
- Quem?
- A Cecília homem, a Cecília. Como assim quem? Caralho!
- Vi-a hoje cedo, enquanto observava um homem a varrer o lixo no jardim da Graça. - Diz o Padrasto, a tremer muito no outro extremo. - Ele costuma partilhar comigo o que a mulher lhe põe na marmita. Percebi logo ali que o nosso lugar neste mundo só faz sentido se houver quem nos siga no além, sabes Plínio? Poderá ser amor, isto? Não sei. Lembrei-me de ti Plínio, de ti. Vês como eu me lembro de ti?
- Viste-a mesmo? Valter, diz-me a verdade. Estás com ar de quem não se levanta há dias. Pareces febril. Estás bem?
- Eu...podia chamar-se Cecília, não estou bem certo. Sim, era ela. Ela manca de uma perna, não manca?
- Troca-me isso em miúdos. – Riu-se para dentro da tosse o Zygmut. - Querias mesmo fazer um filho?
- Sim, queria. Quero. Tu sabes onde está a Cecília? Se sabes tens de me dizer. O padre Josué enlouqueceu. Tenho muito medo por ela, por vocês todos. Ninguém está seguro aqui neste lugar. Deveriam ir-se embora, o mais depressa possível.
- Não há de passar de hoje. Foi a música quem me colocou pronta. - Diz-me Graciete. - Aquele tique-toque maravilhoso do folclore sulista. Sabias que eu cheguei a ter aulas de música? Claro que não. Quem é que liga à Graciete? Ninguém. A Graciete é feia, é gorda e desarranjada, ninguém quer perder tempo com ela. Mas eu tenho sentimentos também, sabem malditos. E tenho bom gosto também. É isto que procuras?
Mostrou-me um leitor de cassetes com o cartucho do Gershwin dentro.
- Mas...
- Chiuu... Cala-te e anda cá que já me sinto fértil. Queres um filho ou não? Fecha essas cortinas e deita-te comigo.
Afastou a terra da ganga com um gesto repentino, ajeitou o cabelo, pôs os dedos aos lábios para limpar o pó e riu-se. Não havia propriamente uma razão para rir, apenas o mundo e pessoas ao fundo.
O "Porgy & Bess" começou a tocar.

FIM.


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