Avançar para o conteúdo principal

Já fomos caminhantes de mãos dadas


Este é o meu tempo futuro,
que tanto temi que chegasse.
E é quase tudo quanto me resta,
tarde, incumprido e infecundo.
Lembras-te dos fundos recatados
que ninguém vê,
por trás da luz do balcão?
Ali nos pusemos ao abrigo
onde não chega a aflição nem o resto duro do mundo.
Ali fomos dois amantes deitados em uma floresta
virgem de sentimentos desesperados.
Peregrinos alheios ao tempo que se acabasse,
e mais não digo.

Este é o meu presente, horrível dia
de rebentação.
Instantes tolos de um amor que se decide, 
e que nem vivi por pura concentração.
Talvez tenha sido a pele um estorvo
ou as palavras em carne viva em demasia.
Qual gomo suculento caído ao chão
lentamente mordido ou sem demora.
Até que a luz inteira fraquejasse, sem mercê,
e a ausência alada do corvo
morresse, longe daquilo que ninguém crê.
Conta-me do que falamos atrás daquele balcão.
Para que não mais guardemos lembrança
vaga e desprendida de nomes e datas
e assim nos faça paz o sono de agora.

São estes os meus tempos já do passado,
o Sol adormeceu em um pálido frio pelos caminhos do nosso bosque
e a fúria só admite palavras indizíveis.
Todos os gestos acabam assim, descritos em hesitação,
como se fossem janelas esquecidas
repletas de rostos invisíveis.
Palavras que te disse, porque é este o meu corpo mansão
jamais as esquecerei ou o nosso arvoredo alcantilado.
Se se acabar, que fiquem ao menos as oportunidades conseguidas.
Deixei-te alguns livros
para leres a razão de me teres atravessado,
a união.

Mensagens populares deste blogue

O Artista que faz falta Conhecer

Um dia desenhei um rectângulo largo em uma folha de papel-cavalinho, não foi salto nenhum, pois em anos antigos, já me tinha lançado a fazer rabiscos aqui e ali. Em pastel sobretudo, e uma vez cheguei ao acrílico, mas aquilo eram vãs tentativas sem finesse alguma. As artes plásticas são um mistério ainda, e uma das minhas grandes decepções como ser humano criador. Essa e a música. Creio até que terei começado a escrever por me faltar jeito para o desenho e para os instrumentos de sopro.
Assim que voltemos ao meu rectângulo. Esquissei-o de vários ângulos e adicionei-lhes cornijas e janelas. Alguns sombreados. Linhas rectas e perspectiva autónoma, cor e até algum peso acumulado. Longe do real mas muito aproximado deste. Quando dei por mim tinha o Mosteiro (Stª. Clara) desenhado, em traços grosseiros e pôs-me feliz ter chegado ali, até me dar conta que cometera plágio.
O meu subconsciente foi buscar o trabalho do Filipe Laranjeira ao banco da memória, e sem me pedir licença, copiou-o de…

Dia sim, dia não, uma beleza antiga.

Um filho que não se chama assim.

Tenho dois filhos, um tem vinte anos e a outra dezasseis. A explicação estereotipada das abelhas e dos pássaros, das florzinhas...não sei... não funcionou de todo. Talvez por minha inépcia, ou talvez que por enquanto, tenha funcionado melhor num que no outro, resta saber. Os dois juntos são o cão e o gato e ambos insistem que não fazem mal a uma mosca. É verdade. Sou eu quem mata todas as moscas, melgas e aranhas cá de casa, e ainda que em muitos momentos destes anos todos, aqui e ali me parecessem bicharocos terríveis, toda esta experiência vem sendo uma zoologia bonita de amor, repleta de macacadas e aves de voos tristes.
Ou isso, ou então aqui aplica-se aquela velha apologia de que tudo está destinado a encontrar o seu próprio caminho. Tentei ensinar-lhes isto de rosto sério mas eles olharam para mim e desdenharam tudo com um encolher de ombros. Não são parvos nenhuns os meus filhos, e nesta urgência de aprender a ser pai, ensinaram-me eles a constante lembrança de não falar coisa…