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Mensagens

Má semente

(...) Não tarda nada e descubro-te só dias melhores ordenados nas roupas que deixaste para trás. Desenho-te o corpo quase todo em luz salgada, branca, branca... feito ondas de joy divison. Acendes-me a mais antigas das febres, e por ti partirei todos os vidros no céu. Quão perfeita é a liberdade dúctil destas ondas nocturnas,
 afagando-te em espuma, os tornozelos corajosos, 
 caules perenes desses olhos cristalinos
. Amanhece novamente e, ninguém nunca gostou do nosso bairro. Ninguém nunca gostou do nosso Mar. Não houve poeta algum, nesta terra dos nossos que se lembrasse de escrever sobre um lugar onde destas ondas não se alevantaram arranha-céus. E houve tanta gente, longe de nós... longe de mim. Tanta gente cheia de poesia que nem produz sentido algum para a crucificação do verbo amar. Forrados de desprezo. É a sua condição natural. Fizemos dos nossos dias a espera por este poema febril.
 Mas habitamos onde a poesia não tem código-po...

Lista de compras

Peido, logo existo!

Hoje, o Homem exalta-se a si mesmo constantemente. Confesso que nunca me pensei como um moralista de bastidor, daqueles provedores de sofá que despejam dislates em frente ao televisor, e depois, insatisfeitos, rumam às redes sociais a mostrar ao mundo como a cabeça lhes chegou aos dedos. Ontem apercebi-me que sou. É uma idiossincrasia que   talvez me tenha chegado com a idade. Certas noções de certo e errado começam finalmente a assentar cá dentro.  Todos sabemos sobre o terrível incêndio, sobre as vítimas, a indefinição de culpabilidade, os deslizes da, por vezes, muito pobre comunicação social que os acompanhou. Todos já sabemos tudo sobre isto, demasiado quiçá. Por altura destes tempos imediatos, nem o mero escapar de um gás de algum mosquito se livra do escrutínio continuado e multi-interpretado. É assim que são as coisas agora. Muito úteis a espaços, em momentos e situações que de outro modo passariam despercebidas da maioria, como revoluções, catástrofes, viola...

Canção para solitários a meias

Tenho clara noção dos haters que vou trazer contra mim ao escrever isto, mas tem de ser.  A canção dos irmãos Sobral que levantou a pátria onde Camões morreu de fome, faz-me uma certa espécie, sobretudo pela letra; um amante pede ao seu amante (que já não o ama) que volte, pois ele irá “amar pelos dois”, na vã esperança que, com o tempo, o amante “reconsidere” o amor perdido. Considero este tipo de “filosofia amorosa” prejudicial. Eu próprio tenho quase como arrumados os meus assuntos sentimentais, mas faço questão de ensinar aos meus filhos o exacto oposto, não vão estes acabar aí pelos cantos a fungarem amores perdidos. Coisa que dói muito ao coração de um pai. Tendo em conta este meu ponto de vista, a música da Luísa Sobral  tem um jogo harmónico muito semelhante ao que se escuta na bossanova, com sétimas e menores e menores de sétima e bemóis e sustenidos. Não é uma composição nada fraca, não senhor. Vou até mais longe, manifestamente arriscando atirar à consi...

Agradecimentos

Gostava apenas de agradecer o tempo que me deram. Foi nisto que pensei a vida toda. Nisto e em juntar dinheiro para um dia ir dar voltas ao mundo, para ver se é verdade o que dizem sobre este ser redondo e cheio de gente que nunca se ri, de mim, só abre os braços gentis e recebe quem vem da inocência de pouco saber. E nem mais nem uma coisa nem outra, porque já ando há alguns anos nauseado por tanta imobilidade com que me vergam os egoístas, os que me permitem morrer. Antes, só vos queria dizer, que me deu para arremessar computadores superpovoados à parede, calhando de ouvir dizer este ou aquele, que só falam lá do alto da vida, mas não têm chão. Gostava que esses soubessem que a vida se faz mesmo é de recortes, e que uns serão de papel, outros são mesmo verdades. Gostava só de agradecer os fins-de-semana, em que conserto os meus sonhos menos resistentes, e em que treino para não ir na conversa de qualquer um e em que esculpo as mãos para o trabalh...

O alerta ao suicídio acaba nulo

Emile Durkhein , o grande e iminente sociólogo, psicólogo e filósofo, autor d'" O Suicídio ", tão commumente alardeado como o "pai da ciência social moderna"; escreveu em tempos que: " só há suicídio se o acto de que a morte resulta tiver sido realizado pela vítima tendo em vista esse resultado. " - Tanta descarada redundância bacoca afligiu-me por demais então, insípidos anos noventa, sendo eu um jovem incredulamente liberto de uma pacatez quase aldeã, justamente acabado de sair fresquinho da sua pequena terra insossa para outra, muito mais fervilhante de atrações intelectuais, sexuais e em geral desiguais da sua origem, onde tanta nova gente tão efervesce nte em comparação com a sua própria palidez  gratuita de nascença, o despertavam.  Quanto mais não seja pelo facto de que tal insensatez tão disparatada ter sido proferida por alguém de tão grande monta cientifica ainda o fazer agora. Suponho que a desfaçatez dita ou escrita, nunca carrega em s...

Corações tão deslavados de morte eficaz

Adolfo diz-lhe: - Anda cá. Vem viver no meu coração . Ela hesitou. A sua última palavra ficou suspensa no desejo do ar do quarto, como uma nota falsa de duzentos euros. Adolfo chamou-a de novo, ela pôs-se de pé, levantou os braços e despiu a blusa, rodou o trinco do soutien, de trás para diante, soltou-o e aproximou-se dele sem guardar recordações de nada, porque tinha o coração definitivamente mutilado para o amor. (...) Excerto do conto -  O Triste caso do Homem sem Fim - in " Estórias de Amor para Desempregados " Miro Teixeira Auto-Publicação 2016  -  Estorias-de-Amor-para-Desempregados  - Link disponível só para loucos e aventureiros com boas almas que anseiem saltar fora deste tempo.