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Agradecimentos


Gostava apenas de agradecer o tempo que me deram. Foi nisto que pensei a vida toda. Nisto e em juntar dinheiro para um dia ir dar voltas ao mundo, para ver se é verdade o que dizem sobre este ser redondo e cheio de gente que nunca se ri, de mim, só abre os braços gentis e recebe quem vem da inocência de pouco saber.

E nem mais nem uma coisa nem outra, porque já ando há alguns anos nauseado por tanta imobilidade com que me vergam os egoístas, os que me permitem morrer.

Antes, só vos queria dizer, que me deu para arremessar computadores superpovoados à parede, calhando de ouvir dizer este ou aquele, que só falam lá do alto da vida, mas não têm chão. Gostava que esses soubessem que a vida se faz mesmo é de recortes, e que uns serão de papel, outros são mesmo verdades.
Gostava só de agradecer os fins-de-semana, em que conserto os meus sonhos menos resistentes, e em que treino para não ir na conversa de qualquer um e em que esculpo as mãos para o trabalho que aí vem. 

Ainda em criança, já me intrigavam os solidários que faziam sinais de luzes por causa dos polícias mecanizados que viviam mais adiante do nosso caminho em frente.

Gostava somente de vos saber as moradas, todos os endereços da vossa altivez, para enviar-vos os agradecimentos por entregar que tenho aqui guardados na gaveta da roupa interior. 
Gostava também de agradecer a nossa comum humanidade, para ver se ao menos assim um homem ganha alguma dignidade no corpo, e pergunta por mim, à voz pequenina que lhe vive no coração. Seria só uma perguntinha de nada, mesmo que esta esfumasse círculos de fogueiras tribais e planos para o futuro. Gostava tanto de o fazer.
Tomara que ainda haja tempo para vos agradecer direitinho, e que não me embrulhem os sonhos definitivos em um vazio. Disseram-me para ter paciência, que estava para lá de metade e que tivesse força, não que ma reconhecessem, só que a tivesse, porque tinha de ser.

Por enquanto, ainda me admira, essa espécie de fraternidade uterina, que mesmo sem ver bandeiras desfraldadas do mesmo país, se abre enorme na altura da intensidade em que as pessoas se abraçam. Por enquanto, por enquanto, ainda vos continuarei a escrever cartas de agradecimento. Quando se me acabar a tinta da paciência, quero mais é saber sobre aquilo com que sempre me ignoraram e mandar-vos a todos para o caralho!


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