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Mensagens

A Paz do Silêncio

Abertura da nova exposição do meu amigo Helder Sanhudo, a não perder no próximo Sábado. (...)  O arranque de uma nova exposição de Helder Sanhudo é de interesse comum, e se não é, deveria de ser. Este interesse parece advir da forma como se reinventa com regularidade, arriscando técnicas de criação e afirmando uma arte que se deixa maravilhar pelo mundo numa atitude firmemente positiva.  Há no seu labor uma grande versatilidade que acaba por se afirmar ou na libertação imensa, ou na parcimónia da cor, sendo assim, ao mesmo tempo económico e luxuriante.  É um tipo de exposição que funciona como bálsamo para estes tempos rápidos de imediatez desumana, pois quer-se demora na visita. Cuidado na apreciação. (...)

The Walking Dead - Season 8

Confesso que esperava mais arrepios no episódio de estreia da nova temporada (8) da série que me vem apaixonando aos repelões desde 2010, (The Walking Dead - TWD ). Chegou potente e bem orientada no desenrolar da narrativa, mas não explodiu no ecrã, como é costume em um início, final, ou interlúdio de meia-temporada desta série tão rica em fait-divers , pormenores e até  easter-eggs descarados. Nesta série maravilhosa que não é somente sobre zombies (desenganem-se), não é o terror do apocalipse que vem sendo aqui descrito à minúcia, mas sim a natureza humana, face às adversidades mais impossíveis. Deixou-me em estado de anti-clímax, mas suponho que seria previsível que o fizesse, pois, a história precisa de ser construída e não apenas resolvida em um episódio de arromba. Como escritor, entendo isto, mas como 'seguidor', decepcionam-me os artifícios de um inicio que muitos aguardavam (após a apoteose da temporada sete) mais feito de queixos-caídos. Restou quiçá a quasi-hom...

Saudade de ver bons Filmes (XI)

...que só estreiam amanhã, mas que, graças ao 'milagre' da internet já vi e recomendo muito. É quase impossível ver este filme e não nos perdermos na trilogia " Antes do Amanhecer"  (Richard Linklater), que claramente influenciou Klinger, no estilo verborreico e romântico, ainda que tenha abdicado do mais comum e previsível final feliz. Saem Jesse e Celine, entram Jake e Mati. Saem  Julie Delpy  e  Ethan Hawke , entram  Lucie Lucas  e  Anton Yelchin (um actor que faleceu cedo demais, em Julho passado e que presta neste filme, o papel da sua curta vida .) Sai Viena, entra o Porto. Com produção do maravilhoso  Jim Jarmusch,  Klinger opta por não contar apenas a história do primeiro encontro do casal, mas todo o seu relacionamento, desde o encantamento ao desgaste. Através da competente montagem de Géraldine Mangenot e do próprio Gabe, o filme vai jogando com as emoções do espectador, ao embaralhar a história do casal....

Como se fosse escrita hoje...

"Um regulamento a favor do fogo" 12 de junho de 1972 "Com a chegada do verão, destes grandes calores que tornaram as matas e os pinhais inflamáveis como estopa, é certo e sabido que começam por esse país fora os incêndios. Devoram as encostas das serras, deixam-nas negras, despidas, terras de desolação onde, por muitos anos, se erguerão apenas os troncos queimados. Neste tempo se levantam inúmeras vozes a pedir proteção para o nosso património florestal, já de si tão escasso.  A vulnerabilidade das nossas matas, se bem pensamos nela, é, a toda a hora, um convite à ruína total. Depois o tempo refresca, vem a chuva, adia-se a catástrofe para o ano.  Na falta de um sistema de defesa eficiente, conta-se sempre com a dedicação e a ousadia das populações que, mal se ouve o sinal do fogo, correm montes e vales, gritando, ofegando, para irem atacar o incêndio, sem curarem de saber a quem pertencem as árvores que as chamas vão furiosamente destruindo. Acudir ao fogo é obri...

Olha a revolução aí à porta.

Excerto da minha participação na revista Piolho #23 de Outubro de 2017. Ainda estou vivo e escrevo contra. (...) Mas são mais os que no levantar de um dedo, até tomam o medo de assalto, antes que o medo lhes sinta o cheiro, e sem apelo nem agravo, de repente senhores, de repente, o mundo é outro, e deixa de ser igual. E vocês aí em baixo, não choreis nem uma lágrima, pois que isto aqui não é nenhuma afronta, este fogo que hoje vereis, cortará o medo dos pés até à ponta, tremendo a terra e iluminando o céu, fará saltar a chama maior do alvoroço. Movendo ombros juntos, palpitantes, asas abertas, algumas, no exílio do rectângulo deste corpo, a maioria, resistentes, nos braços do país que é teu e meu, que é nosso! (...)

Piquenas estórias de amore X

- Porquê? - Responde-lhe em contra-golpe. - Porque foi aí que me acertaste com os mesmos estiletes ainda ensanguentados de antes, as cuspidelas de distração...em cheio, com esse teu "amor". Aqui está o porquê. - Nunca conheci ninguém como tu. Não tens coração, ponta de amor, empatia, nada. - Tenho sim, mas ninguém o quer da forma que o dou. Toda a gente só quer muito o amor que dá, pouco, o amor que recebe, se achar um pintelho de diferença entre estes. Se existir um grão que seja nesta engrenagem, deixam as flores de crescer, apodrece tudo num instante. O amor é a forma mais natural de desentendimento. - O desamor, queres tu dizer.  - Não, não. O amor mesmo. Não há razão alguma para se inventar uma palavra que lhe prefixe o oposto daquilo que já é. - Estás a dizer que toda a gente é egoísta, como tu mesmo, e assim incapaz de amar quem não nos ama igual? - E não é? Quando nos conhecemos éramos uma imensa terra fértil, cheia de potencial, depois, lentamente fomo...

Até a eternidade...

(...)  Há uma presença forte em alguém que se mantém calado: são as rugas do rosto e os cantos da boca que falam sem ser por palavras.   Tivemos ali uma conversa inteira em dez segundos de silêncio. Fixei-o com alguma rigidez ao atravessar o umbral, fazendo contorcionismos impossíveis para que nem sequer o ar que nos rodeava se tocasse. Reparei que tinha a pele inchada nuns pontos estratégicos do rosto. Mapas de rugas em redor das pálpebras e da boca, finas gretas de morte anunciada, entre lençóis possivelmente, o que me desagradou pela facilidade, mas a morte ainda assim estava à vista. O primeiro sol engana-nos tão bem como o último dia de frio, daí saiu-me o sorriso que larguei sobre o seu corpo ao cruzarmo-nos. – Ficas aí morto para mim, como o velho sacana que és. Um sacana frio. “Morra o Dantas, morra! Pim. ” O resto da turba observava-me com desprezo e desilusão, como se eu fosse uma carraça intumescida pelo sangue virgem dos velhos e dos bicho...