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Carta obsoleta a um filho vila-condense.


Transportamos connosco a infância até ao momento em que morremos. É um romance que nunca nos abandona. Tento ensinar isto ao meu filho, e não se apresenta tão fácil quanto parece. Quero acreditar que o que retive desses tempos terá feito de mim um homem melhor, de sentimentos mais presentes, e a mais valiosa lição que lhe quero deixar é esta. O meu pequeno tesouro interior. É bem verdade que tomo poucas coisas como certas, pois o progresso arrima-as constantemente, a grande maioria só medianamente me atinge, outras, destroçam-me em absoluto as lembranças de um menino que, ou não quis crescer, ou não quis que a terra girasse e fizesse mudar quase totalmente o mundo da sua infância. Felizmente que uma delas permaneceu perene e constante na passagem do meu tempo, a sempre contínua paixão por esta vila-cidade; Vila do Conde. Se me dou ao luxo de ter sentimentos contraditórios sobre o que vou vendo, faço girar os ponteiros do tempo para essa época em que andava à solta pelas ruas e transformo este romance numa história mais aprazível, feliz até. Tal como a própria vida, que não se repete quando termina, também cada novo dia em Vila do Conde pede-me para ser sorvido como se não houvesse outros. 
Os mais novos, como aliás o meu filho, parecem estar a perder estas memórias e não vão lembrar-se nunca mais de que aqui, já houve um cinema; meio paraíso, meio inferno, onde se podia ver filmes de kung-fu e do Chuck Norris, que faziam os caxineiros abanarem o querubim altaneiro sobre a tela gigante, e filmes indianos também, brutalmente lamechas, mas que punham em água os olhos da minha irmã. Nunca saberão estes meninos, sobre outros meninos, ditos “maus”, de semblantes façanhudos, de uma tristeza medonha, guardados a sete chaves lá em cima, atrás das grades da casa-reformatório, Correção,  - O Mosteiro de Santa Clara, que primeiro, dominou a paisagem crepuscular da terra que deitou por ali abaixo, do alto do monte e desde o rio, depois morreu de abandono e por fim se levantou lavada para aguardar sonolenta, por outros destinos melhores. 
Ou sobre esse mesmo rio espaçoso, de pedregulhos afiados e lama de sabão clarim, onde milagrosamente até se podia nadar, alheios a todos os medos, salvos de tudo. Ao instante do mergulho, estendia-se os braços e nadava-se para ali, como num mar manso, voltávamos a ter um caminho só para nós, abrindo-o com as mãos e com os pés. Dentro de água, sentíamos que podíamos falar através de palavras aquáticas que só as crianças e os poetas entendem. Sim. Estes novos vão desconhecer como fomos perseverantes, auto-suficientes, e como a rua nos ensinou a conquistarmos toda a lucidez para uma idade adulta. Não sabem que esta cidade, de alguma forma vive por si só, e que sonha por nós, e nós por ela. São os ossos do ofício do futuro, suponho. Fazer o passado viver anónimo para si mesmo, indiferente à memória dos novos.
Agrada-me a ideia de lembrar o chão da antiga biblioteca, a chiar seco por cada passo de pintainho que dávamos, de roubar beijos à namorada, alcantilados no muro alvo da capela da Senhora do Socorro, depois crescer e casar com ela, debaixo do sol salgado, na capela da Senhora da Guia. A minha própria história sentimental seguiu o fio do tempo pela chã do rio, até ao mar. A vida toda é saudade, como sentir ainda no céu-da-boca o sabor pastoso das broinhas de mel do Pinto, uma por dia a caminho da escola. Não sei, cada dia me parece aquele primeiro, em que atravessei a ponte pela primeira vez, de calças à boca-de-sino e boca aberta de espanto. O casario descia lá de cima do mosteiro imponente, abria-se ao alto pela avenida fora, e os carros até zuniam nos entalhes das juntas da ponte. Passei de esguelha os olhos pelo jardim de chão florido do terreiro, a fazer de conta que era o jardim mais bonito do mundo, e era. Ainda é. Fechei a boca para que o meu espanto fosse acudido pela grandeza que as coisas bonitas nos inspiram, e abri muito os olhos para guardar aquele desenho na cabeça para sempre, quando dei por isso, já estava em Vila do Conde.


Eu sou aquele que precisou que lhe mostrassem uma evidência. O bocado da minha vida de que mais gosto, e que depois de mostrado, nunca mais esqueci. Fiz amigos, daqueles que me sorriem na memória, e dos outros, os que me sorriem em pessoa. Fiz escolhas, das que marcam o futuro, em que pesou saber que esta evidência – que este lugar simples é realmente único – é verdadeira. É mais do que justa. Simplesmente é, existe. Amiúde, tudo me faz refluxo à memória. Porque cada lugar oferece-nos uma pequena janela, desigual de lugar para lugar. Mas, o que vemos realmente no horizonte é o fundo da nossa infância. Um outro lugar mais íntimo, que foi o lugar da nossa alma. E assim, apertados entre este “...pinhal, rio e mar...” não queremos ter fuga de nós próprios. Viajamos para longe, chegamos à outra metade do mundo, abrimos essa janela e afinal, o que encontramos? A paisagem mais familiar de todas, a saudade. Vila do Conde é como um espelho. Faz-nos falta falar e ouvir falar dela, compreender como se mantêm sangue e alma quente e comunicante sob céus estrelados de qualquer outro lugar do mundo, e ainda assim reflectimos a grata vontade que nos faz retornar, sempre. 
Começo agora a caminhar por um beco, afinal é mais uma viela, que sobe irregular, empedrada desde a praça luminosa ribeirinha até ao desembocar de uma das ruas mais antigas desta minha vila. Algumas vielas parecem ceder facilmente os seus escaninhos de segredos obscuros à luz de pequenas maravilhas mal adivinhadas. É certamente o caso desta. Devia assumir a estratégia do maratonista no início de uma maratona. Mas não consigo apaziguar o fluxo de emoções quando me perco pelas ruas da minha cidade. Gosto de esquecer as paisagens e relembra-las constantemente com novos olhos. Lá em cima, no outro lado do rio, fica um longo passado de vento, suor e serradura, tornado limpo e mais asseado pelas exigências deste presente moderno. O esplendor galante da nau replicada, lembrança ancorada da grandiloquência do povo que ainda somos. Desço a escadaria ao lado da Alfândega, atravesso a estrada, sento-me num bloco de pedra aberto ao perfil ondulante da nau e penso no que sentem os pescadores lá fora – que transitam entre mares que acabam e mares que começam. De algum modo não consigo evitar a evidente simetria entre passado e presente, entre o heroísmo dos marinheiros e destes pescadores, e sem estranhezas, também do grosso caudal de tantos escritores e poetas que por aqui passaram, e dos que ainda aqui estão, quase a começarem a eternidade. Para mim estão todos interligados, e nunca serão mais uns do que outros, mesmo que no fundo do mar só existam palavras de areia. Penso nisto e tento compreender se o meu filho saberá que foi Vila do Conde quem os lançou aos ventos e os trouxe de volta, alguns, e se estas palavras alguma vez o ajudarão a entender que esta cidade finge nem precisar de guarda-chuva sob nuvens pesadas e iminentes, e que nos atira ao vento sibilante debaixo do sol quente, que merece esplanadas, longos passeios na marginal e tardes de leitura nos seus jardins. Pergunto-me se ele saberá um dia que o seu pai amou um rancho folclórico, um grupo de teatro amador, dois ou três cafés inesquecíveis, algumas festas eternas no salão dos bombeiros, os bolos do bom doce e do santa clara, as sandes de chouriço e as cadeirinhas circulares do S. João, os despiques dos carros de corridas na curva do praia azul, as pagaias dos kayaks do Fluvial a deslizarem pelo rio ave, o mar, o mar, sempre este mar hipnotizante que nunca nos abandona, e os jogos de futebol de rua, as noites calmas da Feira de Artesanato, as torcidas nos jogos do Rio-Ave, o voleibol e os trampolins do Ginásio, e todos os desfiles, todas as marchas, todas as procissões. O festim colorido das flores nas ruas, de quatro em quatro anos. As tardes longas dos dias de verão, daquelas como se vêem nos filmes que não nos largam as recordações, e até daquele nevão inusitado que por um dia acabou com todas as aulas nas escolas. Será que ele se irá lembrar de tudo isto? Mesmo que lho repita por mil vezes? 
Os amigos verdadeiros e todos os rostos e todas as ruas e todas as praças e todas as casas e todos os cães e folhas de outono. Alguma vez se perderá sem propósito definido por um caminho que o faça querer contar pelos dedos todos os arcos do aqueduto? Encontrar e manter o amor da sua vida entre capelas? Sentirá a compulsão de fotografar as portas da rua da Fraga e de pintar a aguarela o forte S. João? De percorrer todas as pontes, entrar em todas as igrejas, atravessar a vau o açude? Pois não sei. Todavia, insisto na lição fundamental de lhe acender agora as memórias de infância que um dia serão suas, convicto da única certeza que nunca me desilude; que existe todo um deslumbre de orgulho de pertencer, de pertencer a uma cidade assim. O resto agora é com ele.
Texto sujeito a alterações. Versão original publicada inicialmente em "O Vilacondense" - 2013

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