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O último post

Façam as minhas asneiras importar todo este caos, contar. Os monstros são todos humanos, e só quem não viveu saberá onde me encontrar.

As Crónicas do Senhor Barbosa VI

Aos últimos dias do ano encontraram-no ainda a picar um dragão com uma lança de arame, sempre quixotesco, na esperança que o gosto da perdição diminuísse mas não diminuía. - Nunca nada me diminui aqui à espera por um bocado de sorte. - pensou o Senhor Barbosa. Nisto sentiu uma restolhada imprevista no peito, entre as mamas feitas de desolação, flácida carne de desespero acumulado. Fincou-lhes os dedos por baixo e largou-as, uma e outra vez ao espaço.  Pegava-lhes e largava-as. Duas, cinco, vezes e vezes sem conta. Fazia-o de olhos fechados que os espelhos há muito que os retirara da casa. Também não diminuíam. O Senhor Barbosa lembrou-se muitos anos antes, de ter sido visto por algum outro desgraçado a caminhar nu o fio direito do murete da marginal. Afinal estava-se o ano a acabar e parece que se festeja a renovação, a esperança da mudança no novo. Assim fez e prenderam-no. Não foi a primeira vez que o encarceravam por querer ser livre. Não seria a última. O Senhor Barbosa,...

A Dureza do Fogo

Outrora fomos cinza, enxofre e um breu grosso. Caminhantes que se atrasam sem se saber já mortos. Fomos faúlhas de morrão que nunca acende. Sim, fomos um passo de vento, lento e incessante, que empurra para longe o que é nosso, e nos deixa n’alma o fogo dos tormentos. Fomos o que nos castra, nos tira, nos rouba, nos prende, nos torna neste ser que não recua nem vai avante. E eu não quero mais ser pedra a arder nesta fogueira. Por isso me ergo e lhe quebro a dureza, com ritos impenetráveis de suaves pilastras, não mais carentes de serem gume. Por isso escrevo desta maneira, Pois é a forma que espanto, é a certeza, O fio etéreo com que remeto minhas palavras, Confiante de sair incólume. Hoje, hoje somos todos pedras irmãs, roliças, delicadas e cientes desta empatia. Se, em tempos, (como muitos iguais) Fomos arestas rudes que cortavam, as tristes penas de nossas vidas vãs, agora, não mais deixaremos de sentir que existe poesia, no falso fundo...

Dia sim, dia não uma beleza antiga

Carrol Baker

Brilho fosco das Mudanças - Parte 4

continuação... - Deus nosso senhor! – Exclamou de acanhamento. – Isto nunca antes me havia acontecido. - Estás bonito, estás, ó Viriato. – Diz-lhe ela. Era a primeira vez que se lhe ouvia a voz barítona. - Aposto que bebeste algum vinho novo, fermentado a martelo, comeste figos maduros ou farinheiras de colorau estragadas, não foi? – Replicou-lhe de mãos postas às ancas fartas. - Sossega lá. Deixa que a Germina já te faz uma canja pura que te limpa os canos dos pés até à alma. Ele assim assentiu, sem mais nem menos, só pela boa estranheza que o seu toque lhe trazia às entranhas. Germina fez-lhe a canja a voar, e obrigou-o a engolir duas colheres em um longo intervalo. À segunda, Justino teve um vómito erótico que lhe subiu das virilhas até à glote e largou tudo para o prato, mas ela não se melindrou por isso. Sem grandes trejeitos, levantou o saiote e a combinação e colocou a mão dele sobre a sua perna nua. A canja sumiu-se do prato num milagre. O velho Justino fez conta...

O Natal do Saramago

Saudades de ver bons Filmes (XI)

...mais natalícios que o bolo-rei e as rabanadas de saudade. Feliz Natal para todos os que visitam este meu mundo!

Solstício de Inverno

Edward Hopper ,  People in the Sun , 1960.

Grandes cabeças dão as mãos

Brilho fosco das Mudanças - Parte 3

continuação... Nas raras alturas em que abandonava o casarão e descia o íngreme outeiro na direcção da aldeia, fazia-o por mera e estrita necessidade, pois, mesmo apesar da doença canhestra e da avançada idade, nunca permitia que fossem outros a lhe aprovisionarem a casa. Insistia sempre em faze-lo por si só. – Justino Viriato, retrato vivo de " Wilde ", era homem orgulhoso, mas isto já se sabe. A sua vida inteira fez exames de consciência e cuspiu saliva untuosa, talvez ligeiramente aguada de sangue, aos pressupostos   aromáticos e hipócritas multicolores que lhe surgiam debalde. Dois pais mortos e ricos, cada um deles pendurados em cada peito, fariam isto a qualquer um. Começava a andar às voltas no meio da gente, na feira, mantendo-se naquele dia sobretudo nas proximidades das vendedeiras de flores. As grandes e pesadas rosas vermelhas, flamejavam sanguíneas e louçãs na manhã húmida do quadragésimo terceiro aniversário da morte dos seus pais. Queria comprar as duas ...