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Brilho fosco das Mudanças - Parte 3


continuação...

Nas raras alturas em que abandonava o casarão e descia o íngreme outeiro na direcção da aldeia, fazia-o por mera e estrita necessidade, pois, mesmo apesar da doença canhestra e da avançada idade, nunca permitia que fossem outros a lhe aprovisionarem a casa. Insistia sempre em faze-lo por si só. – Justino Viriato, retrato vivo de "Wilde", era homem orgulhoso, mas isto já se sabe. A sua vida inteira fez exames de consciência e cuspiu saliva untuosa, talvez ligeiramente aguada de sangue, aos pressupostos aromáticos e hipócritas multicolores que lhe surgiam debalde. Dois pais mortos e ricos, cada um deles pendurados em cada peito, fariam isto a qualquer um.
Começava a andar às voltas no meio da gente, na feira, mantendo-se naquele dia sobretudo nas proximidades das vendedeiras de flores. As grandes e pesadas rosas vermelhas, flamejavam sanguíneas e louçãs na manhã húmida do quadragésimo terceiro aniversário da morte dos seus pais. Queria comprar as duas mais belas e elegantes que encontrasse. Precisava disso para apaziguar o grilhão da saudade que alastrava mais e mais no seu interior, como fungos negros a correrem lestos os baldios húmidos da sua implosão pessoal. Porém, nenhuma lhe agradava a esse ponto.
Uma mulher já madura, mas com o olhar puro de uma menina, aproximou-se de si com um deslumbre vivo de vermelho fogo colado ao peito palpitante. Trazia um vestido cinzento, simples e descomprometido de falsas modéstias. Ataviava-lhe a cintura um cordão carmesim, da cor das rosas que lhe incendiavam o busto cigano. Justino estremeceu, ante tal visão. Estarrecido, tornou-se imediatamente frio e calmo como uma manhã de Dezembro. Tirou-lhe o chapéu e fez-lhe uma vénia de respeito antigo. Tal beleza tão fogosa, assim o merecia. Depois, com extrema cortesia, disse-lhe como se ela lhe tivesse perguntado algo:
- Peço imensa desculpa menina, por lhe ter tocado tão bruscamente, é que o meu coração não está habituado ao toque de sineta que tal visão lhe fez soar.
A mulher não percebeu nada, ou então fez de conta que não percebeu. Sorriu-lhe por cima do ramalhete rubro, entregou-lhe duas rosas para a mão e acompanhou-as com um olhar quase tão fresco e brilhante.
No instante a seguir, uma figura quixotesca de cabelo desgrenhado e barba por aparar, com um sorriso de orelha a orelha e um leve salivar entredentes, saltava na sua frente, surgido detrás de um pote alto decorado com fetos e austrálias.
- Posso ajuda-lo com alguma coisa senhor Viriato? – Proferiu este homem, empurrando a filha à sua frente na direcção de Justino.
O velho viu ali a sua derradeira oportunidade de conseguir alcançar um final feliz.
- Preciso de alguém que cuide de mim. – Assentiu. – É livre a sua menina? – Continuou exclusivamente virado para a mulher. - "Toma todas as vantagens possíveis que conseguires - pensou a seguir - e que à tua consciência não repugnem as grosserias dos vendilhões" - interiorizou ainda. - O amor não é um desporto de cavalheiros meu caro senhor, - disse-lhe por fim - mas uma iluminação grosseira tão acesa quanto o Sol.
O atarracado florista quase que saltou da junta dos ossos em tamanha euforia.
- Está livre, está. É moça virgem e muito asseada. Asseguro-lhe senhor Viriato. E não está prometida a ninguém senhor Viriato, não senhor. Por enquanto quero eu dizer…pois, como bem vê senhor Viriato, uma rapariga assim, - desenhou os seus contornos com as mãos no ar - não pode ficar solteira por muito tempo! – Exclamou exausto.
- Não a estou a pedir em casamento meu caro senhor, - atalhou Justino – e não me atice a boa disposição com mourarias ambulantes, seu desalmado. Preciso de uma enfermeira a tempo inteiro, e pago bem por isso. A menina estaria interessada? - Dirigiu-lhe a questão.
Os seus olhos diziam-lhe que sim, todavia, foi a boca marejada do pai quem respondeu a toda a brida.
- Então não está! Leve-a hoje mesmo senhor Viriato. Descanse, que eu cá me arranjo com as rosas e o resto.
- Ficamos assim acordados então. – Ripostou Justino, indisposto àquele homem terrível. – A partir de amanhã, conto consigo lá em casa. Não se assuste, pois tenho os hábitos de um morto, e a tarefa de me cuidar será igualmente simples.
Nela viu-se logo um medo a fugir-lhe pelos olhos fora, até o pai lho travar com a mão.
Justino afastou-se rapidamente, não sem antes lançar um último olhar à mulher, que permanecia atónita e muda, no mesmo lugar, rodeada pelo pai e por uma pequena multidão que se juntara com rapidez na barraca do florista a saberem a que se devia todo o alvoroço.
Enquanto iniciava a morosa subida pela colina procurou um lugar onde pudesse descansar um pouco o coração enfraquecido, e disse para si mesmo com amargura. – Naturalmente que fiz bem! Claro! Naturalmente! – Recomeçou a caminhar. Parou de novo, junto à fonte que mediava o caminho, bebeu uns goles de água, e repetiu, - Naturalmente que sim! - Só parou em casa depois.
No dia seguinte, às seis e meia, no decorrer da sua rotina matinal, foi surpreendido por um vulto singelo e acanhado que saía da neblina matutina dos penedos junto ao portão da sua casa: Era ela. Germina Arosa, a sua enfermeira a contrato, e a única mulher que o veria urinar sentado, sem lhe fazer qualquer remoque de malícia ou gracejo.
A Justino Viriato o seu coração sempre o enganara, pois considerava-se particularmente, um homem oco de emoções, visto só ter conhecido o amor da sua mãe. Incauto nas partidas que aquele músculo maldito lhe pregava, assombrou-se na percepção daquela figura de mulher, por demais enevoado tanto na memória como no corpo, mas foi coisa momentânea, pois logo se inflamou no seu peito envelhecido a lembrança dos seus olhos. Assolapado e mal refeito por esta confusão sentimental interior, até deixou cair a laranja da manhã.

Cumprimentou-a galante, do poiso altaneiro da varanda, baixou-lhe a chave do portão amarrada a um cordelinho, sisudo no caminho todo da descida. Assim que ela entrou e se aproximou dele fez-lhe um ligeiro assomo de deferência com a cabeça, como as criadas de outros tempos faziam, isto sem proferir palavra que fosse. Justino sorriu pela primeira vez, em muitos, muitos anos. Dirigiu-se então ao pátio, e saiu para o terreiro ajardinado por trás da casa, no sentido da cagadeira exterior, espantando os pombos treinados e os bichos das frestas. Ela seguiu-o em todo o caminho a uma distância respeitosa. Viu-lhe logo as intenções madrugadoras e sem mais demoras, limpou-lhe do rabo uma aguadilha acastanhada com uma folha macia de papel e arrematou outra para lhe conter a última gotinha de mijo que lhe brotava daquela rodilha de rugas que em tempos já fora um mastro orgulhoso. Quando o ajudou a levantar-se do anel de madeira da sanita, ergueu-se com ele um maior tremelique de assombro que o desacostumou de cima abaixo da modorra pálida da sua existência costumeira.

Continua...

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