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Mensagens

Saudades de ver bons Filmes (VIII)

... daqueles em que a paixão é tanta que até mata. "Ai no korîda" aka "In the Realm of Senses" -    Nagisa Ôshima  (1976)

Já fomos caminhantes de mãos dadas

Este é o meu tempo futuro, que tanto temi que chegasse. E é quase tudo quanto me resta, tarde, incumprido e infecundo. Lembras-te dos fundos recatados que ninguém vê, por trás da luz do balcão? Ali nos pusemos ao abrigo onde não chega a aflição nem o resto duro do mundo. Ali fomos dois amantes deitados em uma floresta virgem de sentimentos desesperados. Peregrinos alheios ao tempo que se acabasse, e mais não digo. Este é o meu presente, horrível dia de rebentação. Instantes tolos de um amor que se decide,  e que nem vivi por pura concentração. Talvez tenha sido a pele um estorvo ou as palavras em carne viva em demasia. Qual gomo suculento caído ao chão lentamente mordido ou sem demora. Até que a luz inteira fraquejasse, sem mercê, e a ausência alada do corvo morresse, longe daquilo que ninguém crê. Conta-me do que falamos atrás daquele balcão. Para que não mais guardemos lembrança vaga e desprendida de nomes e datas e ass...

Nunca é fácil esquecer

A Noite em que Gershwin me deu um filho - Parte 5

...continuação - Padre trago-lhe os cães de volta mais cedo, e mais qualquer coisinha à laia de desabafo para lhe animar o dia parado. Pode ser? Estou que nem posso. - Então, então.. – Remeteu-me perante tal atrapalhação. – Para isso cá estou eu meu filho. Em que te posso ser de serventia?  O homem não tirava os olhos do meu blazer , cheio de folgas nos botões polidos, por uso excessivo. Aproveitei a distração e atirei a matar. - Trago a cabeça prostrada com o peso dos cornos que a minha Cecília me pôs! – Exclamei de uma assentada. - Cornos, salvo seja. É uma maneira de dizer. Aquela mulher vive aqui na cidade mas é do mato senhor padre, é toda do mato e até cheira a isso. Recusa-me a posteridade, diz que não pode ver nada a crescer dentro dela, e isto mata-me senhor padre, mata-me aos poucos, sabe? Foi a vez do padre se benzer. - A Cecília pôr-te os cornos é mesmo matéria para um milagre Plínio. Estarás equivocado com certeza. Ocupa-te mas é de outr...

Só, o Outono ou nunca.

Entre o brilho verde de fulgor e o nada, nada me pertenceu. Aqui, as brisas espalham feridas embrenhadas pelas faias bravas, logo aqui tão perto só uma pequena saga de grandes memórias esquecidas que muitos sorrisos devassaram. Bosques inteiros de rostos ladeando os caminhos de pegadas de lama só um arvoredo frio e deserto posto quieto à força da lâmina dos dias marginais e sem horizontes longe de todas as coisas de fácil recompensa que nunca sequer quis. Por lá dentro haverá, só um homem cansado magoado nas mãos e nos montes pelos prados sibilantes do coração onde o vento foi chamar amor ao seu amado. Um homem rendido a escutar só recados de silêncio, que se esqueceu devagar do Outono nascido desse recorte de cicatriz só perdido ou quase acabado. Houve sempre muito visto de esguelha por estes lugares. Tanto abria os olhos como existia ou os fechava tristemente quando os caminhos se abriam adivinhando os mistérios das paisagens e anseios imperfeitos só que por um instante, por e...

Esta mulher dormindo

(Para ti) Mais um dia que se ajoelhou de faca na boca. Esta mulher em máximo equilíbrio, sorrindo como uma estátua. Esta mulher feita de carne e sono, embrulhando os filhos por estrear Falhou em tudo e ri-se, de carvão a cercar o estômago As narinas muito abertas à procura do ar. As pernas tranquilas para o outro lado do corpo Uma dor de furar cidades numa cara adolescente, estreita, entre dois olhos   É mesmo ela, sem dúvida, esta mulher de diversão para qualquer dia um gesto desajeitado para qualquer ombro o maior esquecimento da família, até aos domingos E volta a cara para outro lado, de preferência à procura da luz   Mulher nua, no quarto, desistindo da sua lírica, Olhando o tecto Mulher encolhida na própria sina, encontro fatal   Os olhos comem O corpo alcança A mulher ergue-se no túmulo de outra vida Desaprendendo de ser gente   Mulher de bater à porta em dias invisíveis Calada, encostada à condição do se...