Avançar para o conteúdo principal

Só, o Outono ou nunca.


Entre o brilho verde de fulgor
e o nada, nada me pertenceu.
Aqui, as brisas espalham feridas
embrenhadas pelas faias bravas,
logo aqui tão perto

uma pequena saga
de grandes memórias esquecidas
que muitos sorrisos devassaram.
Bosques inteiros de rostos
ladeando os caminhos de pegadas de lama

um arvoredo frio e deserto
posto quieto à força
da lâmina dos dias marginais
e sem horizontes
longe de todas as coisas de fácil recompensa
que nunca sequer quis.
Por lá dentro haverá,

um homem cansado
magoado nas mãos e nos montes
pelos prados sibilantes do coração
onde o vento foi chamar
amor ao seu amado.
Um homem rendido
a escutar só recados de silêncio,
que se esqueceu devagar do Outono
nascido desse recorte de cicatriz
perdido
ou quase acabado.
Houve sempre muito
visto de esguelha por estes lugares.
Tanto abria os olhos como existia
ou os fechava tristemente
quando os caminhos se abriam
adivinhando os mistérios das
paisagens e anseios imperfeitos

que por um instante,
por essas paragens
junto desse corpo inerte que todos já sabiam
a floresta, perplexa, recolheu-se em suas pedras lisas
e folhas perenes de corpos esmagados
ficou sem palavras ou pele vestida
envelheceu
ficou

a contar sombras de dias pelas folhagens.


Mensagens populares deste blogue

Jorge Machado

Ninguém nunca sabe ao que vem, viver é um ensaio. Dão-nos o que fazer e coisas para que acreditemos e depois ficamos à solta. Dão-nos o nós e a vida de barro, mas há quem faça o que bem entende gostar de fazer. E até há quem o faça muito bem. Ninguém nos explica direito, em pequenos, que as coisas mudam e partem e ausentam-se, e que antes de aqui chegarmos, já o seríamos, mas que tudo se cria e que tudo se nos pode escapar. Carecemos de um olho arguto e atento para captar o que mais conta, até à eternidade. Eu, por boa sorte, tenho um amigo, que por sorte também é o meu melhor amigo, que entende muito bem que há tempos de equívocos, de medo e de combate. Que o mundo, de tão duro e belo até ao fim é mais colectivo se for partilhado em imagens, que nos deixem estarrecidos. O Jó sabe disso de querermos ser felizes, nisso somos mais que irmãos.  E desde catraios entendi nele, o seu lugar exacto. O seu carácter metódico, rigoroso é a pedra de toque da sua vida e da sua paixão, a fotografia. …

...onde o vento sopra mais forte

O meu caríssimo amigo Rui T, em actuação ao vivo no Teatro Municipal de Vila do Conde, com o novo tema, entretanto já gravado: "Corre", baseado no meu livro com o mesmo título. O Humberto sorri algures.

Podem saber um pouco mais sobre o Rui e o seu trabalho, aqui.

Cinco minutos

Assumi escrever isto em cinco minutos, sem tempo para hesitações. É só para esvaziar, para não me deixar soterrar pelas avalanchas da inadequação.  Os meus olhos saltam perdidos entre os grandiosos eventos estivais, apanham respingos das fontes iluminadas com os rostos eleitorais, entram pelas bibliotecas dentro, todas maiores que os meus medos. Param nos cafés lotados de soberba, cheios de viciados em exposição, a transbordarem pelas esplanadas, parecem todos mais cansados que eu com as suas roupinhas de férias.  Tanta feieza e formosura juntas que já não tenho certezas sobre como saber separa-las. Ou se devo. Ou se preciso fazê-lo. Ninguém me mandou andar por aqui, ao acaso, a procurar personagens absurdos. Aqui fora, todas as montras são íntimas, e ninguém mostra vergonha de nada comprar. Aqui fora vêem-se os rostos, olhos nos olhos, enquanto rejeitam de frente. Dói, mas é melhor assim. Durmo e tenho sonhos estranhíssimos em que ajudo pessoas que parecem nem precisar de mim. Afastam-s…