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Esta mulher dormindo


(Para ti)


Mais um dia que se ajoelhou de faca na boca.

Esta mulher em máximo equilíbrio, sorrindo como uma estátua.

Esta mulher feita de carne e sono, embrulhando os filhos por estrear

Falhou em tudo e ri-se, de carvão a cercar o estômago

As narinas muito abertas à procura do ar.

As pernas tranquilas para o outro lado do corpo

Uma dor de furar cidades numa cara adolescente, estreita,

entre dois olhos

 

É mesmo ela, sem dúvida,

esta mulher de diversão para qualquer dia

um gesto desajeitado para qualquer ombro

o maior esquecimento da família, até aos domingos

E volta a cara para outro lado, de preferência à procura da luz

 

Mulher nua, no quarto, desistindo da sua lírica,

Olhando o tecto

Mulher encolhida na própria sina, encontro fatal

 

Os olhos comem

O corpo alcança

A mulher ergue-se no túmulo de outra vida

Desaprendendo de ser gente

 

Mulher de bater à porta em dias invisíveis

Calada, encostada à condição do seu lixo

Remexendo nele com línguas nos seios

 

Não lhe resta nenhuma casa, declarou a guerra perdida

Mas há-der vir uma desculpa que lhe baste para o nojo de estar

desperta

e o cheiro contínuo a orfandade

 

Mulher toda, cavalo elegante, praia

a vida é pouco mais que a humidade daquele quarto,

morte lenta por silêncio,

e um resto de nada

um resto de nada



Cláudia R. Sampaio

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