Avançar para o conteúdo principal

Chão


Não sei se te lembras de que dia foi hoje
Dos sonhos alcoólicos de grandes e-feitos
Das cirroses de nuvens de gomas
Se morreste também algures de ressaca
Tu que sorrias sempre com o fígado

Não sei
Se quando caminhas te lembras
De andarmos descalços sobre os mesmos vidros
As mãos umbilicais e os copos envaidecidos
Se quando caminhas
Nas ruas que hoje foram nossas
E hoje são de ninguém
Ainda saltas ou se te sangram os pés
Se pavimentaste o chão
Como fizeste com o mundo
Se já não vês o quadro
E não te lembras do Zeppelin de chumbo
Que atirámos ajoelhados ao espaço

Algo em mim não quis saber
Que quando florimos no deserto já éramos História
Que da dinamite que dizimou a paixão
Nasceria um peixe-lápis
(Quanto não pode um sinónimo contra um canhão)
E com ele desenharia esta salva de tiros em verso
Para que o teu chão e o teu mundo nunca esqueçam
O que teimas em esconder debaixo da pele
Mas a pele teimará para sempre em te lembrar

Rita Pinho Matos
in FLANZINE # 16 "Pele"

Mensagens populares deste blogue

O Artista que faz falta Conhecer

Um dia desenhei um rectângulo largo em uma folha de papel-cavalinho, não foi salto nenhum, pois em anos antigos, já me tinha lançado a fazer rabiscos aqui e ali. Em pastel sobretudo, e uma vez cheguei ao acrílico, mas aquilo eram vãs tentativas sem finesse alguma. As artes plásticas são um mistério ainda, e uma das minhas grandes decepções como ser humano criador. Essa e a música. Creio até que terei começado a escrever por me faltar jeito para o desenho e para os instrumentos de sopro.
Assim que voltemos ao meu rectângulo. Esquissei-o de vários ângulos e adicionei-lhes cornijas e janelas. Alguns sombreados. Linhas rectas e perspectiva autónoma, cor e até algum peso acumulado. Longe do real mas muito aproximado deste. Quando dei por mim tinha o Mosteiro (Stª. Clara) desenhado, em traços grosseiros e pôs-me feliz ter chegado ali, até me dar conta que cometera plágio.
O meu subconsciente foi buscar o trabalho do Filipe Laranjeira ao banco da memória, e sem me pedir licença, copiou-o de…

Dia sim, dia não, uma beleza antiga.

Um filho que não se chama assim.

Tenho dois filhos, um tem vinte anos e a outra dezasseis. A explicação estereotipada das abelhas e dos pássaros, das florzinhas...não sei... não funcionou de todo. Talvez por minha inépcia, ou talvez que por enquanto, tenha funcionado melhor num que no outro, resta saber. Os dois juntos são o cão e o gato e ambos insistem que não fazem mal a uma mosca. É verdade. Sou eu quem mata todas as moscas, melgas e aranhas cá de casa, e ainda que em muitos momentos destes anos todos, aqui e ali me parecessem bicharocos terríveis, toda esta experiência vem sendo uma zoologia bonita de amor, repleta de macacadas e aves de voos tristes.
Ou isso, ou então aqui aplica-se aquela velha apologia de que tudo está destinado a encontrar o seu próprio caminho. Tentei ensinar-lhes isto de rosto sério mas eles olharam para mim e desdenharam tudo com um encolher de ombros. Não são parvos nenhuns os meus filhos, e nesta urgência de aprender a ser pai, ensinaram-me eles a constante lembrança de não falar coisa…