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A Noite em que Gershwin me deu um filho - Parte 2


...continuação

Outra noite, pela hora do jantar, ao revirar o contentor do lixo, duvidei que aquela tivesse sido a sua última palavra. Pensava que quando uma mulher diz que não fica à espera que insistamos antes de tomar a decisão final, mas que sei eu sobre mulheres? E só Deus sabe, quantas decisões finais já me haviam sido enganadas. Só via um caminho de saída: A descendência. Era como se o tempo bom saltasse a minha geração e fosse concretizar-se apenas nos anos vindouros, que assistissem à vinda de um herdeiro para me apagar da linha da genealogia e mesmo assim continuar o nome Monteiro, que é um bom nome, para todos os efeitos.
Houve homens de têmpera na minha família, mas era tarde para os celebrar pela simples razão da minha existência. Aprendi todo o significado de força com as mulheres, a minha mãe, tias, a minha avó do lado materno, que nunca precisaram da madrugada para manterem a ilusão do poder que detinham. 
Pegam num homem e atiram-no contra o chão, se já houver nele ligações definitivas ao que vai para baixo, ou empurram-no contra as nuvens se nele existir uma matéria mais evasiva que prefira outros estados mais gasosos. Fazem de um homem um vai-e-vem espacial, entre um céu que é horizontal, e um chão picado, de madeira meia podre, sangue, esperma, lágrimas e vómito, revirando-o durante o percurso e obrigando-o a ver-se como verdadeiramente é. Eu só via a Cecília à minha frente, mais nada. Queria tanto por-lhe um futuro por ela dentro.
“De homens passamos a pedintes, de pedintes tornamo-nos fantasmas. Tornamo-nos fantasmas sem o privilégio da morte. ” Afirmava o Tito – “Nem mortos estamos e já ninguém nos vê. Foda-se! Isto não pode acabar assim.” - Acrescenta. - Eu escrevi histórias importantes para um jornal de relevo. Deitei abaixo um presidente da junta e duas associações. Eu vi o meu nome em letras gordas. Em letras enormes Plínio?" - Dizia-me ele num pranto.
Costumava definir-me como um intolerante, um badalhoco e um bêbado. Nunca ao mesmo tempo, só quando a ocasião o ditava. O Tito era o mais sábio de nós todos. Sabia explicar-me que fui alguém que já foi todas essas coisas, embora tentasse sempre nunca sê-lo simultaneamente, porque nesses tempos em que assim fui, vivia num mundo demasiado ocupado, tão rápido, demasiado importante. Agora já não é assim. As horas do dia são regradas apenas pelos desejos mais básicos. O Tito entendia que já não se pode ser mais assim, e explica-me: "Quando sofreste o acidente brutal que te atirou para aqui, entendeste finalmente o que sentiam todos aqueles miseráveis segurados a quem investigaste as vidas antes de lhes transmitir a machadada fatal da desgraça." – Vai correr tudo bem. – dizias-lhes. – Não deixaremos que nada vos falte nestes momentos difíceis. Estamos aqui para isso mesmo. Vai passar, sabe bem que vai passar. Talvez não amanhã, mas dentro de uma semana, um mês ou dois, quem sabe? O verão está aí à porta, haverá sol quase todos os dias.  - Apontavas-lhes o céu pela janela, e eles anuíam por entre a desgraça que lhes corria atrás dos olhos." - O Tito compreendia-me tão bem. - "Uma palmada assertiva nas costas, e fechavas o negócio. A tua  infalibilidade estava disfarçada entre o calor da tua mão nas costas deles e o sorriso grotesco que abrias." O Tito sabia muito. A minha área de excelência fora a mentira. Agora, é a fome.
Contudo, com ela era diferente, não podia. Cecília apareceu-me uma madrugada trazida pela mão do padre Josué. O Arenga puxou-me a manga e sussurrou-me que ela havia sido puta perto do entroncamento da nacional 21. Não lhe perguntei nada. O Arenga é um invejoso que mente tudo o que diz pela falta de dentes.
A Cecília formou-se pelo conservatório, disse-me ela uma vez, e esteve até no cartaz gigante do Teatro da Avenida, numa produção endinheirada do Calçada Trancoso. Fez filmes e tudo, a minha Cecília. Se ser-se puta for isto, prometo, assim que possa, ir mais vezes ao cinema.
Ademais, nem era demasiado bonita para não ser uma mulher normal, dessas que vêm filmes à noite, sentadas no sofá, com meias calçadas e um copo de vinho branco na mão. Tinha estrias nas pernas, uns papos de celulite ao nível das coxas, e bicos-de-papagaio a descerem-lhe pelas costas, e todo o conjunto fazia-me estremecer de luxúria sempre que me aparecia defronte. Seria excessivamente calorosa para trabalhar ao relento, no escuro da noite. Uma actriz desempregada não é uma puta, embora muitas putas se estreiem em mais produções de cinema que a maior parte das actrizes de agora. 
Lembrou-se o Hilário de a ter encontrado muitas vezes nas filas do desemprego, à espera da taluda, naqueles quinze dias intercalados em que obrigam o povo a revalidar a segurança da pulseira electrónica invisível. Disparou logo ali uma discussão acesa entre ele o Vasco Arenga pela memória precisa de Cecília. - Puta é menos ou mais mulher que uma mulher que não o é? - O Vasco insistia que as putas eram a dádiva de Deus às multidões de desajustados que vivem com a condição errada à nascença. Interpelava-o Hilário com um desagrado tremendo, que em dias mais aguerridos até dava em batalha, por se sentir atingido na pessoa da sua mãe, que toda a vida fora servente em um lugar de alterne. "Uma puta é uma mulher que decidiu ganhar, sem ter que dar satisfações." - Adiantava o Arenga. - "Olha que te parto as fuças já aqui, se levantas um insulto que seja à minha querida mãe." - Continuava o Hilário. E aquilo prosseguia até vir o padre e atirar-lhe água em cima como se faz aos cães vadios que não têm vergonha.
Como um tesouro a ser utilizado no momento certo, percebi nela uma energia violenta pronta a entrar em acção. Havia ali potencial para uma grande eternidade. Como no dia em que chegou. Sentou-se ao meu lado num caixote de maçãs e ficou ali, por um bocado, a ouvir o que o padre nos dizia, e os disparates dos outros. Não moveu um músculo, ainda que todos, selvagens de cio, especulassem sobre ela. O que mais ansiei naquele instante foi a reacção daquele corpo nada devassado, ao meu empenho sonhador. Aqui, toda a gente parecia viver 24 horas num quadro de Rembrandt, rostos rejeitados e mal iluminados por um candeeiro de rua, mas ela não. Lia-lhe nos olhos o interesse, e tornei-me determinado. – Vai ser desta. Quero ter um filho contigo! Um filho nosso. – Porque gostar de alguém faz-nos ser melhor. A questão está em saber se melhoramos o suficiente para resistirmos ao desafio, quando comparados com a mulher em causa.

...continua

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