Houve sempre tempo para morrer melhor. Talvez fosse mais especial esperar o baque do fim ou até quem sabe, arrojar-me ao futuro cheio de mais hipocrisias que a maioria. - Quem poderá saber? - O Futuro é quase tão imprevisível como a vontade de morrer.
Ando nisto há demasiado.
Quiçá me acovarde sempre. Quiçá seja daqueles organismos pusilânimes que aguardam a salvação do último segundo. Só que esses não se entregam realmente. É teatro apenas, puro melodrama.
Eu não sou desses, nunca fui. Arraso tudo e todos à primeira. - Só!
Então o que sou, realmente? Serei a verdade no sangue derramado, o realismo dos comprimidos em excesso, a paixão mal-conseguida do mergulho inevitável naquele mar que jamais nos devolverá?
Fui tudo isso e porém, ainda aqui estou a escrever este texto presunçoso que pouco explica só faz referências e apelos e alusões e tretas por demais. É nojento este texto, é nojento porque implica com a morte como se esta fosse um espectáculo trivial sobre o qual se pudesse escrever assim.
Igualmente é nojento porque quer trazer compaixão ao seu escritor, que não o merece, pois só produz o pus da sua própria desdita e por isso, exactamente, por isso é que ele quer morrer. Há que saber explicar estas coisas poeticamente, é necessário possuir uma centelha de talento literário suficiente para criar essa impressão no leitor e colocá-lo na posição de se sentir afim com o seu interlocutor.
Este suicida falhado, até nisso falha, ou talvez por isso, falha a sua morte, constantemente.
Mas, não desisto. Um dia hei-de morrer; o meu fígado, os meus pulmões, o meu algoritmo interior, aquele cérebro que esquece mais do que recorda, estão todos comungados em me acabar rapidamente e eu agradeço-lhes, todavia questiono-lhes a prontidão do processo.
Ando nisto há demasiado, e sinto-me cansado por demais.
Talvez pudesse ser atropelado por um autocarro, o Morrissey descreveu-o tão bem que me apetece. Talvez consiga empurrar-me de algum penhasco ultrajosamente picado, ou de um prédio demasiado alto para existir na minha cidade. Não sei. Morrer, poderá ser a melhor coisa que alguma vez fiz nesta vida. Afinal, não duvido, tenho imaginação suficiente, para tal.
Houve sempre tempo para isto, e é provável que esse tempo pouco reste. Hoje é o dia do Pai, e eu já sou avô duas vezes, contrafeito. Ora, fornicai-vos para aí, se achais que assistirem os vossos filhos procriarem em tão tenra idade é algo de maravilhoso. - Não é! É uma merda!
Hoje é dia do Pai, eu eu, avô de dois netos maravilhosos só quero morrer como antes. Não são os filhos ou os netos, é a minha estória de vida que me morde a vontade de viver e me desgasta. Quantas garrafas de whisky e maços de cigarros serão suficientes para poder ser feliz finalmente?
Havendo vontade, tudo se consegue. De outro modo, são apenas vícios desenfreados. Amanhã começo a cortar os pulsos novamente. Soa doloroso, e é, confiem, mas faz o serviço mais rápido e no fim de contas estamos deitados em uma banheira com água quente.
Como é bom morrer! Feliz dia do Pai!
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