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As Crespas Manhãs de algum Janeiro


Qualquer jardim nunca nos parece selvagem
só um ajuntamento de belas formas,
muitas vivas, quase. Muito nossas sobretudo, mãe.
Mas andamos perdidos em um mar cintilante
de solidão, mãe. Andamos crianças ainda
a gatinhar cambaleantes na nossa sofreguidão de pessoas futuras.
Não sabemos nada sobre jardins
ou porque quis tanto Alexandre chegar à Índia
sobre um rastro de sangue.
Oh, o Sol está vermelho, mãe
e o bosque tão negro,
morto na invisibilidade do verdadeiro escuro.
Devem-nos a construção das formas falsas do verde e da luz,
a sua aparência
humana, quase, mãe.
Devem-nos a sua ingratidão planetária
o seu fim conquistado em tantas batalhas inúteis.
Porque quis César ser Imperador, ou Hitler personificar a morte?
O que querem os homens frustrados deste jardim inventado, mãe?

Graças aos nossos esforços e convenções
às nossas conveniências rigorosas,
a constante busca humana pelo que é elusivo
indefinível, derrota-se a si mesma.
E a harmonia a que chamamos beleza
definha, mãe. Morre já, mãe. Não existe mais.
Agora o Sol já está morto, mãe
e a noite está de volta.
Tem vida própria.
Intrincada, determinada, uma vida secreta,
como qualquer jardineiro extraterrestre de bom nome saberá explicar-te com as mãos e a terra.
Só os humanos é que ainda o imaginam jardim
ou arranjam recursos para definir as razões de algum novo Napoleão.
Porque esta é uma relação, é a nossa eterna relação
o que explica a razão soberana de nunca estar
propriamente acabado
o nosso exacto fim.


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