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Brilho fosco das Mudanças - Parte 2


continuação...

Chegava a pontos extremos, de lhes escrever poemas. Longos versos jâmbicos, que depois lia em voz alta no salão térreo, virado às vitrinas que resplandeciam de ouro e madrepérola, naquelas manhãs sem tempo ou luz.
Duas gerações de Viriatos amealharam ali mais de dez mil botões, muito embora, poucos daqueles raros, que tinham conhecimento de tais despojos, fizessem fé de que haveria tantos assim no mundo inteiro. 
Com o passar dos anos, sumiu-se tão rápida a réstia saúde do seu corpo, a uma velocidade prodigiosa. Não era nada de estranho, a saúde falha-nos por vezes, mais ainda, se nem nos apetecer guarda-la com gosto e cuidado, e todos os médicos consultados assim lho asseguravam. Houve um até, que em corajosa bravata chegou mesmo a predestinar-lhe um fim prematuro. – Tolo!
- Ou o senhor Viriato se deixa dessas tolices e se agarra à vida, come e bebe com regras, e aproveita as maravilhas que o viver regrado nos oferece, ou esta foge-lhe num instante, como um pássaro libertado. Fie-se no que lhe digo homem!
Justino ponderou sobre aquilo numa volta do ponteiro mais comprido do relógio, fez de conta que tomou medida ajuizada do que o médico lhe dizia, sorriu-lhe até, mas pelo breve instante do passar de um suspiro. Depois, levantou-se abruptamente e proferiu o seguinte, em alta voz entretelada:
- Estou-me nas tintas para a vida ó Jeremias, como estou certo de que ela também está farta de mim. Nem uma palavra salvo do que me disseste. E, já agora, mais te digo: estou-me nas tintas para ti também seu pirralho insuportável. Juízo tinhas tu se fosses visitar os teus pais lá na eira da fraga, seu sanguessuga ingrato. – Saiu porta fora, com a lentidão orgulhosa que a perna lhe permitia.
No ano em que mataram à traição o primeiro-ministro, andava Justino Viriato às voltas com a sua consciência, e não havia olhar mais atento que não lhe visse a morte a circundar-lhe por perto, já quase lhe bufando no cangaço enrugado.
- O amigo está pouco falador. Más notícias? – Murmuravam-lhe as vozes da feira de Santana com um retinir angustiante. – Pegou-se-lhe algum mal ruim, Viriato? – Insistiam. – Essa cor que lhe enche a cavada dos olhos não me agrada mesmo nada. – E por aí fora.
Eram falsas vozes, mentirosas a cada sílaba, aguardando ansiosas pelo seu fim prematuro. Pois, muito embora trouxesse sempre um esgar de ruindade no rosto, o seu coração era tão grande que todos os conhecidos maquinavam formas de se servirem dele.
Ao seu lado, e bem entendido por baixo de si, estavam os propostos titulares à sua fortuna, esses mesmos, que descaradamente lhe dirigiam a palavra, aqueles que lhe disputavam a atenção pelo mero e singular interesse do pecúlio, que a queda daquele malfadado telhado lhe deixara na carteira. Não haviam herdeiros de sangue para todo aquele dinheirão, de modo que, sendo Justino, o último dos Viriatos, jogavam todos a cartada da simpatia fingida, - os grandes canalhas - na esperança de verem os seus nomes figurados num qualquer documento oficial que lhe fosse redigido como se de um testamento se tratasse.
Anuía a tudo com a cabeça mas desdenhava-os depois lá do fundo com uma tinha visceral. Nunca fora homem de fazer amigos aqui ou acolá, tinha escasso interesse nas pessoas. Aliás, para Justino Viriato, as gentes que o rodeavam naquele lugar do fim do mundo, pouca mossa lhe faziam ao espírito, e mais depressa se identificaria com um penedo agreste, ou algum filhote de mocho, do que, com qualquer um deles.
Em Ervedal da Esteira havia uma igreja, um paço antigo que albergava um gordo inútil que se dizia presidente, um mercado e um café que se fazia de padaria, servindo pão seco às curtas horas da manhã. Era todo feito de ruas estreitas de pedras gastas, casas de dois andares, com mansardas em cima que empoleiravam gente e terreiros inundados a estrume por baixo onde se afligiam os animais pelos barulhos, e a mansão dos Viriato, no alto de uma colina bravia, sobranceira a tudo e a todos. Mais tarde ou mais cedo, não havia alma, mais ou menos desgraçada, que habitasse por aquelas bandas, que ali se não reunisse numa altura ou noutra.
Justino recebia-os a todos, de coração aberto e sempre com aquele sorriso de falsete, mas em pose de senhor feudal, com a educação refinada instituída pela hereditariedade. Porém, desbaratava-os logo de seguida, com um encolher de ombros funesto, mal estes abriam a boca. Parecia que a sua esperança se elevava no momento imediato à presença dos vizinhos, para logo desabar ao som das suas falas. Traziam-lhe todos, os mesmos pedidos e súplicas, histórias de desmesurada tristeza, rebuscadas algumas. Outras, de uma simplicidade arrepiante. No fim de contas, fosse qual fosse o relato, ou a pessoa em questão, todos lhe queriam o mesmo: dinheiro, e pouco mais. Quando temos bens e temos que dar, não falta quem nos visite.
Dessa feita, pouco se lhe dava ou trazia quem lhe falava, ou o que diziam. Gostava da simplicidade do silêncio. Por isso se dedicava aos botões, às laranjas e aos mochos que piavam sim, mas não aborreciam ninguém. No seu lento passo de moribundo, arredava-se de relações mais íntimas, afastava-as com um olhar severo, e lá se ia atravessando no caminho de todos, sem consequências de maior.

Em tempos chegou a ser professor universitário, e a sua fama académica teria começado quando apareceu de pijama e cabelos compridos para defender uma tese. Um dia, já como professor catedrático, no exame final da sua disciplina, disse aos alunos que podiam trazer os livros que quisessem no dia do exame; os alunos nem queriam acreditar na sorte deles; Foi uma avalanche de valores que ali nasceram, e também a sua última aparição em Coimbra. No dia seguinte apresentou-se em frente ao reitor, com o mesmo pijama lendário e apresentou a sua demissão, recolhendo-se definitivamente para o Ervedal.

Continua...

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