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As Crónicas do Senhor Barbosa V


Seria de supor que o senhor Barbosa viesse novamente a lembrar-se de deixar escritas mais algumas palavras. Afinal é um homem, um filho e um irmão. Foi um pai e um marido, um amante altruísta, companheiro subterrâneo, cúmplice circunstancial. Até foi amigo apático de alguns, mas já se esqueceu de quem, e o pai, figura fantasmagórica sempre perfilhada em uma luz mais brilhante por entre todas as chamas mais explosivas da sua vida, veio afinal a cumprir, deixando-lhe instruções para se salvar no mundo, como sempre lhe prometera que faria. Estava tudo em uma cartilha manuscrita em letra bem desenhada, que o senhor Barbosa só agora descobriu oculta entre uma legião de restos descartados da sua infância, ao lado destes, metida dentro de um pano atafulhado naquele nicho de tijolo de burro que um dia de tempestade fez soltar-se da lareira apagada.
Para ele aquilo era um acto de adoração. Mas o senhor Barbosa ficou tão arrebatado pela descoberta, ensombrado pelas nuvens visíveis por cima desta, que surpreendentemente nem se pôs a desbravar o tecido em pedaços pequenos até chegar ao tesouro que o pai lhe legara depois do cancro. Porque era um tesouro, sim. Aquela parcela embrulhada, veio a concluir, era o maior tesouro que possuíra nos últimos dez minutos. 
Da sua testa brotavam pequenas gotas de felicidade que caíam e voltavam a cair sobre o embrulho de pano, humedecendo-o. Imóvel, às portas da sua própria salvação, simplesmente não quis destruir a imaculada destreza com que o pai o amarrara. Manejava-o com grande firmeza, apenas, de uma mão para a outra, lançando-lhe olhares demorados e fixos. Que bela escultura de pano!
Até que de repente se trespassou como se se esvaziasse, como se tivesse descoberto que sempre estivera vazio até aquele momento, desmanchou-se o senhor Barbosa. Pobre senhor Barbosa. Tão estranho e solitário senhor Barbosa, tão ignóbil e obtuso, tão marcado. Tão marcado por tudo.
Que medo teve do pai, pensou, continuando imóvel. Mas no fundo era boa pessoa, porque eu tenho os seus olhos, os seus lóbulos das orelhas, a sua voz e os seus ossos. Somos ambos boas pessoas, pensou ainda, porque à nossa maneira inquietante sabemos ficar calados e olhar o que vai sem pestanejarmos um vôo de mariposa.
Ainda continuou mais algum tempo imóvel o senhor Barbosa, severo com o embrulho-tesouro nas mãos. Perturbou-se só por momentos, quando recordou um episódio banal de infância, com o pai, ele e o pai, o admoestador pai, na cumeada do monte de santa Zéfira, ali para os lados da correnteza travada do rio, onde os raios de sol iam certos para morrer.
Essa memória veio-lhe dos efeitos secundários das sua visões de sono ligeiro. Ignorava se estaria mesmo a acontecer, ou se apenas imaginava que estaria.
Despertou, razoavelmente. Concentrou-se em respirar com alguma regularidade, à espera que a dor diminuísse, embora soubesse que o dano era total e irreparável.
Encheu um copo quase até à borda. Apressou-se a carregar no isqueiro e acender um petardo que a mulher do Ortiz lhe deixara ali em tempos remotos, em uma caixa mimosa, lavrada a quejandos foleiros. Sabia a mofo a ervanária, nas primeiras baforadas, mas quando se juntou ao cheiro do pano e do papel antigo queimados, o senhor Barbosa finalmente relaxou, como um semáforo verde.
Agora estava mais que pronto para escrever tudo o que tinha a dizer. 

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