Avançar para o conteúdo principal

Ser jovem outra vez e esclarecido desta vez.




Não sei bem explicar porquê, mas, esta canção marcou-me imenso quando a ouvi pela primeira vez, ali pelos arrabaldes dos pré-púberes oitentas. Por essa época nem conhecia quase nada do Bowie. Ouvira até à exaustão o "Let's Dance" e o "China Girl", sem me fazer grande abalo ou alarido. Andava longe do 'glam' e à solta pelo gótico e pop alternativo. Só me apaixonei por ele quando conheci a minha namorada fanática pelo camaleão David, pelo herói David. A minha namorada que é agora a minha mulher e que me ensinou a gostar deste homem. Não é maravilhoso isto? Eu nunca a apanhei nesse exacto caminho, quer isto dizer, ela nunca se apaixonou assim, tão perdidamente, por nenhum dos músicos, bandas, artistas, que eu, na altura (e ainda) adorava e adoro. Nunca a levei a mal por isso. O coração quer o que o coração quer ouvir e amar.
"All the Young Dudes" não é um grande êxito do David Bowie, mas é um hino e tanto. De certa forma é quase algo religioso. Como quando se sente que se tem uma congregação de pessoas a escutar-nos, e toda a gente está a cantar o que cantámos, e, quando o cantámos, os lugares vibram com as pessoas em uníssono a participarem neste fenómeno inexplicável que é esta música.
Malogradamente, nunca o vi e/ou escutei ao vivo, mas, ao ouvir esta música, na solidão dos meus ouvidos tapados por "headphones vintage", no tempo em que ainda se ouviam músicas em cassetes piratas, gravadas por amigos - mix tapes - e em que aparelhos rudimentares chamados "walkman" - coisas pré-históricas, mas de marketing tão exacto, apetecível, tão bem explicado  - a gente andava e a música vinhas atrás, connosco. - Parecia só nossa. Aquela música era só nossa, mesmo que estivéssemos em qualquer lugar onde nem seria suposto haver rastro de música. Que maravilha! O David Bowie parecia assim cantar só para mim e esta música ficou-me para sempre. Que coisa tão inusitada, que um senhor japonês da Sony se lembrou de fazer. Talvez porque não quisesse ficar parado em casa a ouvir David Bowie, onde todos os vizinhos o pudessem ouvir e o quisesse só para ele. É este tipo de egoísmo ingénuo que por vezes fomenta as grandes invenções.
Adiante.
Até duvido de estar a escrever isto pois é raríssimo ouvir rádio, mas hoje ouvi esta música e veio tudo em catadupa do passado até esta pequena memória que aqui escrevo. A culpa é da minha mulher, do Nobutoshi Kihara (inventor do walkman) mas sobretudo do David, e da mania que tinha de ser um génio.

Mensagens populares deste blogue

Jorge Machado

Ninguém nunca sabe ao que vem, viver é um ensaio. Dão-nos o que fazer e coisas para que acreditemos e depois ficamos à solta. Dão-nos o nós e a vida de barro, mas há quem faça o que bem entende gostar de fazer. E até há quem o faça muito bem. Ninguém nos explica direito, em pequenos, que as coisas mudam e partem e ausentam-se, e que antes de aqui chegarmos, já o seríamos, mas que tudo se cria e que tudo se nos pode escapar. Carecemos de um olho arguto e atento para captar o que mais conta, até à eternidade. Eu, por boa sorte, tenho um amigo, que por sorte também é o meu melhor amigo, que entende muito bem que há tempos de equívocos, de medo e de combate. Que o mundo, de tão duro e belo até ao fim é mais colectivo se for partilhado em imagens, que nos deixem estarrecidos. O Jó sabe disso de querermos ser felizes, nisso somos mais que irmãos.  E desde catraios entendi nele, o seu lugar exacto. O seu carácter metódico, rigoroso é a pedra de toque da sua vida e da sua paixão, a fotografia. …

Peido, logo existo!

Hoje, o Homem exalta-se a si mesmo constantemente.

Confesso que nunca me pensei como um moralista de bastidor, daqueles provedores de sofá que despejam dislates em frente ao televisor, e depois, insatisfeitos, rumam às redes sociais a mostrar ao mundo como a cabeça lhes chegou aos dedos. Ontem apercebi-me que sou. É uma idiossincrasia quetalvez me tenha chegado com a idade. Certas noções de certo e errado começam finalmente a assentar cá dentro.  Todos sabemos sobre o terrível incêndio, sobre as vítimas, a indefinição de culpabilidade, os deslizes da, por vezes, muito pobre comunicação social que os acompanhou. Todos já sabemos tudo sobre isto, demasiado quiçá. Por altura destes tempos imediatos, nem o mero escapar de um gás de algum mosquito se livra do escrutínio continuado e multi-interpretado. É assim que são as coisas agora. Muito úteis a espaços, em momentos e situações que de outro modo passariam despercebidas da maioria, como revoluções, catástrofes, violações dos direitos hu…

...onde o vento sopra mais forte

O meu caríssimo amigo Rui T, em actuação ao vivo no Teatro Municipal de Vila do Conde, com o novo tema, entretanto já gravado: "Corre", baseado no meu livro com o mesmo título. O Humberto sorri algures.

Podem saber um pouco mais sobre o Rui e o seu trabalho, aqui.