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Pensamentos avulsos VI



Deixar de ser normal de repente, sem fazer grande alarido disso.... Tem de ser assim sabem? É como uma inoculação de futuro sem considerações prévias sobre alergias potencialmente letais. Tem mesmo de ser assim.

É que, este mundo "tão verdadeiro" de agora, oh sim, este mundo que se diz tão autêntico quanto o outro, o que é realmente, está tão cheio de malucos de circo, de viciados em segundos perfeitos nos lugares perfeitos, de festivaleiros de circunstâncias proveitosas que tudo acaba por ser só abrupto, só vício de imediatez, só flor mal-cheirosa de curta gestação. A loucura nunca foi bem-vinda a este mundo, nunca. Vermo-nos cobertos, manietados quiçá, como se por cima dos ombros nos atirassem um rótulo gigantesco; louco! e já está, acabamos postos em fadiga descontente, para não dizer angústia.
Vai-se ao passado buscar as fotografias da aparente normalidade, retoca-se o acne e o sorriso de infinitas possibilidades e publica-se, disfarçando tudo, como se aquilo fosse um aspecto hierático da nossa personalidade, um episódio pungente desta marcha forçada rumo à manutenção da normalidade. Não. Não, porra, não! Tenho tantos dias capazes de gestos inesperados e até irremediáveis. Dias de brilho intenso. Por vezes tão intenso que me ofuscam e nem os vejo. Tenho outros piores também. Baços e grotescos. Dias de flores velhas, que já exalam aquele odor enjoativo de podridão. Dias próprios de serem deitados fora na véspera ou na antevéspera, e que me esqueço de os mudar na jarra. Tenho dias variados. A rotina não é proporcional ao tempo mas à disposição. 
Não há mais lugar a ponderações, ao balancear maravilhoso das hipóteses improváveis, ao lirismo romântico da filosofia indefinida, que nos conduz sempre a mais e mais questões. A mais e mais adiante...pois, adiante. Dizem-me aqui do lado que me devo calar, de vez.
Acontece, agora, já...e, já está. Nunca quis ser nada que fosse rotulado tão rápido, de qualquer forma. Só então é que evasivamente me reparo: "Não sei como foi isto." - No entanto, ao cabo de longos minutos resto-me sempre na vã espera pelo inexplicável: "Isto poderia acontecer-me, mas, nunca me acontece."
Tenho dias que me encontro de pé, descalço. diante do espelho do guarda-fatos. Ponho o rosto muito perto do espelho e examino-o. Aparece uma expressão dura e impiedosa, que nunca me apercebi que ali estivesse, mesmo que nunca tivesse desaparecido, já desde o tempo do álbum de fotografias. Com dois dedos de cada mão repuxo os cantos da boca, os cantos dos olhos, como que a tentar desfazer-me da normalidade, que a mim se me afigura mais hipotética que real. E a morte iminente ao virar da esquina?  Se não tiver estômago para isto, havia de ter ficado a escrever poesia no quarto das traseiras, onde o meu pai guardava a máquina de costura, os livros mofados, as antiguidades que niinguém quis e os instrumentos que ganham vida à força de pilhas. Enfim.. ninguém nunca me instruiu nada sobre falar fora de vez, acordei um dia e só pensei que assim faria muito mais sentido.
Não sei se já vos disse, que deixei de ser normal no dia 2? Disse?
A sério?
Então o que fazeis ainda aqui?

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