Avançar para o conteúdo principal

As Crónicas do Senhor Barbosa III




O Senhor Barbosa acredita que já nada o pode magoar. Nem o desprezo passado, presente ou futuro, nem o cão esgalgado da vizinha, de dentes longos, nem a hesitação insípida do amor mais ou menos alvoroçado, nem a morte, nem nada. Nada mais lhe poderá acontecer de tragédia inventada. Já outros a inventaram por si. Olha para os reflexos e sabe que isto é de uma tal arrogância que até lhe faz doer os dentes postiços. Ri-se e prossegue a acreditar na sua recém-criada fortaleza inexpugnável.
Mas, o Senhor Barbosa não fecha os olhos debalde, e sabe que, em tempos difíceis, às vezes é preciso morder a laranja para a poder descascar. Nada significa o que quer que seja até ao dia seguinte, altura em que voltamos a fazer contas à vida. É quando o riso cessa. Sabe isto e mesmo assim ri. Porque não? Está tão bêbado que outra coisa não lhe ocorreria fazer. O que é difícil é ultrapassar a espera pelo dia seguinte.
Ali estava outra vez o ruído. Aquele ruído frio, cortante, vertical, que tão bem conhecia já, mas que agora se lhe apresentava agudo e doloroso, como se de um dia para o outro se tivesse desabituado dele. 
- Quando me sentir aborrecido atiro-me ao mar! - Exclama. - É só descer a rua.
É tão bonita a consciência compacta, é como um belo sistema de destino esculpido nos intervalos para o café. Primeiro chamou-lhe irritante, pois assim lhe pareceu. Girava-lhe dentro da cabeça vazia, levantando-lhe um vendaval nas quatro paredes da caveira caricata. 
- Que tolice! Jamais o farei. - Riu-se novamente. - Costumo assustar toda a gente que me rodeia. - continua - por ser capaz de estar horas a fio a olhar pela janela, mesmo quando nada de interessante parece acontecer. Mesmo assim acontece. Acontece sempre e não a posso perder. A vida acontece lá fora aos outros, e eu, eu vejo-a na primeira fila como um deus desapegado.
O Senhor Barbosa aumentava a cada dia em ondas sucessivas, golpeando-se por dentro, fazendo vibrar o remorso com uma força desmedida, desregulado com o ritmo seguro do seu corpo decadente. Alguma coisa se tinha modificado na sua estrutura material de homem sólido, alguma coisa que lhe martelava a cabeça por dentro com pancadas duras e secas. Vergonha, concluiu. Simples vergonha por estar ainda são, de corpo sólido e livre, e ainda assim lamentar-se como se sentisse diariamente uma firme pressão de dor desesperada. Não sentia. Era um teatro. O Senhor Barbosa, contrariamente às evidências, respirava pela boca ainda. 
Tanta ignorância que a nossa mente divisa. O ruído diminuiu agora, menos do que isso até, parece ter-se sumido de todo, só a vergonha é que não.
O Senhor Barbosa tinha as veias cheias de existência.
- Tão bonito isto! - Disse, incerto.



Mensagens populares deste blogue

Constante de Planck

Dia sim, dia não, uma beleza antiga.