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A minha Pequena Existência


Para mim o simples acto de sair de casa deixa-me o pátio dentro da cabeça feito num oito. É como se me fizessem um bruto cocó de cão dentro da cabeça, sem ter dono que o limpe. Os homens de cinzento que lá vivem não se importam faz tempo.
Hoje fui sair com o meu filho; quer dizer, o meu filho pediu-me para ir sair com ele: vamos tomar um café, pai? - Perguntou-me. - Foi um rebate, sabem? Uma quase apoteose, depois de tantos anos de negação. Senti-me de novo uma pessoa, melhor quiçá, senti-me um pai, que é no fundo uma pessoa com um imperativo às costas. Um fulminante mais de emoção que de fogo. Ser pai é como quem passeia ao acaso pelo medo e depois sai-lhe a coragem toda limpa em uma simples frase. - Claro que sim. Vamos. - Respondi-lhe logo, exultante.
Aquele simples convite reunificou-me, dobrei o queixo para trás e uivei para a rua, pela janela entreaberta. Lá fora, uns sujeitos pastoreavam os olhos para cima e riram-se por eles abaixo, por entenderam que ninguém consegue uivar se estiver maldisposto. Até o riso deles me fez bem. Quase tudo me faria bem naquele instante; o meu filho quis passar tempo comigo. Haverá bem maior?
Ouvi o frio de Novembro aos gritos contra o meu uivo e aumentei-lhe o volume. Que se lixe o frio! Não sabe nada sobre as pequenas alegrias. 
Os homens de cinzento deram uma mão e até limparam a merda toda. Foi uma coisa singular, de instantâneo, feito as fotografias clássicas a que dávamos o devido valor (agora é tudo para a memória, até esta se encher de lixo). Que se lixe também. Aquele momento fez-me deixar de querer andar à pedrada com os bichos da rua, a gente toda que me faz julgamentos sumários muito baixinho. Libertei um largo espaço atafulhado no meu pátio, povoado de criaturas que rastejam umas por cima das outras. Os homens de cinzento também ajudaram aqui.
Lá fomos.
Devo ter mudado muito; a barba espessa quiçá. O volume massivo do corpo, de certeza. Atrás do medo vinha um desconforto miudinho e por cima, só desconfiança. Se calhar o café dos bilhares já faliu, e agora até há uma 'loja gourmet' no lugar do videoclube. Apararam os plátanos no jardim, talvez tenha sido o Outono ou os funcionários camarários, e a Vila inteira deixou de parecer estar fechada em uma caixa de sapatos. A Vila parecia vigorosa e incandescente no dia em que saí com o meu filho. Seria impressão minha ou o resultado das eleições?
Falo demasiado. Falo muito e cada vez falo mais. Em primeiro lugar porque quero que me entendam direito, mas sobretudo porque necessito que me reconheçam de algum modo. Quando o interlocutor me aborda com estranheza nos olhos é quando eu falo ainda mais. Perguntei muitas coisas ao meu filho, mas percebi o meu egoísmo entranhado e calei-me, deixei-o falar. Tinha de o deixar falar, foi sempre um dos nossos embates, a cavalgadura do meu discurso incessante. Deixei-o falar e é fascinante aquilo que se ouve quando não se fala. Em dez minutos soube mais do que nos últimos cinco anos.
Contei-lhe sobre o meu horóscopo desta semana, para nos rirmos em conjunto. Saúde: "Cuidado com o fígado." - O que nós nos rimos. Ele falou-me sobre a namorada e o futuro e senti-me em um filme. A dada altura tive vontade de um 'guronsan' mas lá me aguentei. O mar estava tão calmo que parecia ouvir-nos com regozijo. Disse-lhe sobre a necessidade de tomar banhos de chuveiro mais curtos e ele respondeu-me que isso era 'podre'. A um ritmo dissimulado cheirei-me nos sovacos, talvez tivesse razão em mais vezes do que estaria disposto a admitir. Tinha lido um compêndio errado sobre a paternidade actual. Era muito provável que estivesse mesmo a ficar demasiado 'maduro' para estes tempos, 'podre', enfim.
A menina da caixa era refugiada de algum lugar onde as pessoas se movem muito lentamente e nem falam muito bem a nossa língua, só um 'fac-simile' desta. Se, em tempos isto me enervaria, neste dia arredei-me de explosões desnecessárias. O meu filho queria que eu fosse com ele ao registo civil e depois à sua escola. Ou seja, tudo isto me pareceu mais e mais uma realidade palpável e menos um acaso distópico. Do meu pátio imundo, libertei mais uma zona franca, onde cabriolavam unicórnios e fadas mamalhudas. Uma delas tinha a cara da Rosario Dawson. Quase.
Estava ali a ouvir guinchos de gaivotas em redor e ele continuava mesmo ao meu lado. Nem se importava com a vista façanhuda dos outros na minha direcção. As pessoas mais ou menos grotescas que me julgam o corpo e as escolhas de vida. Poderia isto ser realmente um princípio?
- O seu neto tem imensa vida. - Diz-me uma senhora sorridente. Demorei até perceber que se referia ao meu filho. Foi nessa altura que pensei na morte da minha mãe, na casa onde nasci cujo aluguer acabou definitivamente vencido, e na maneira como o passado se dispersou todo e os Natais nunca mais foram os mesmos. Há que talvez, insistir na mudança, ou na sua inexorável força. Há que pensar que, o Passado é uma memória apenas, não um lugar permanente dentro das nossas cabeças.
Mas, sinto de novo força e ternura nas veias, limpei quase a totalidade do pátio dentro da minha cabeça e dispensei os homens de cinzento que, a dada altura, me metiam mais medo que respeito. Umas horas com o meu filho e já me apetece sair à rua novamente. Deixar de beber para parecer mais pessoa e menos inchado e final. Pai, invés de escritor frustrado que não sabe porque é assim. Homem, em vez sumidouro.
Acabamos a manhã em um mini-mercado, a fazer compras para o almoço. E depois disto, pressinto que veio um frio qualquer, diferente deste frio que me lavou a cara e as mãos, e me pôs próprio para estar à mesa, ainda que continuasse a duvidar possuir um físico difícil para estes dramas, acreditei durante estas parcas horas, que isso seria possível.






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