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A Noite em que Gershwin me deu um filho - Parte 3


...continuação

Passaram-se alguns meses depois disso. Aproveitamos a noite para nos municiarmos junto à Grana Padano, a pizzaria do Leandro Antonino, um benemérito dos desabrigados e também um homem de grandes paixões.
- Bendito Leandro que nos deixa sempre qualquer coisa para a refeição da noite. – Diz ela.
- O que foi que encontraste?
- Uns restos bons de lasanha. Tão bons como se tivessem sido cozinhados para nós.
- Lasanha, que elegância! Isso casaria tão bem com um Chardonnay, de madeira discreta, se o encontrássemos claro. Um Malvasia, um Vermentino ou até um Garganega, cumpririam aqui bem o seu papel. - Tinha lido isto tudo num manual que encontrei na semana passada neste mesmo lixo, o do Leandro. Ela entretinha-se a limpar cascas de cebola e restos queimados de pimento do contentor da lasanha. Prossegui. - Ali num corpo médio, só para eliminar a gordura untuosa dos queijos e a cremosidade das natas, entendes? - Dei tudo o que podia mas ela nem me notou a ser fingidor. - Sonhar não nos embriaga mas satisfaz à mesma, - insisti - tão bom que seria!
- Ricalhaço! - Exclamou finalmente. - Mas que falas tão finas. E se eu me besuntar toda de lasanha, aqui, por aqui abaixo, um bocado a escorrer por aqui...hã.. olha este pedaço aqui a escorrer-me pelo peito, tão quentinho, todo para ti. Hum, então? Ainda te vais por a pensar nos vinhos esquisitos?
- Caralho Cecília! 
- O que foi?
- Não amues, vá. Conta-me.
- O que nos define como homens nunca é a vontade de sermos homens, mas as acções que tomamos, é mais isso suponho, desejar ainda poder beber um bom vinho, não me faz ser melhor homem, muito embora, quando o fazia, não me imaginava melhor do sou agora. Serei melhor ou pior do que era antes de ser o que sou agora?
- Está muito enganado “senhor” Monteiro, tu és verdadeiramente um grande homem. Tens o piço de um homem que sabe o caminho. Se sabes mais ou menos sobre vinhos, isso pouco me interessa.
- Tola, pensas mesmo isso?
- Sim.
- O que tens aí na mão?
- Não é de comer meu fodilhão, só eu é que sou.
- Pára com isso. O que estás a esconder-me? Mostra lá. O que é?
- Sei lá eu. As coisas que o Leandro descarta como lixo não lembram a estes tempos difíceis. Parece um filme, mas numa caixinha tão estranha. Uma curta talvez, a avaliar pelo  enrolado pequeno da fita. Não seria engraçado se fosse um dos meus filmes picantes?
- Cecília! Não brinques com coisas sérias.
- Então? Nem deve de ser. Não pode. O Leandro tem outros gostos mais peludos, musculados. Tu sabes. – Riu-se à gargalhada, emulando com o braço o que me pareceu o movimento da tromba de um elefante.
- Porra mulher...
- Ai, que coisa. Não se pode brincar agora? É uma espécie de fita que já nem se usa, do teu tempo portanto. Toma lá seu chato, é o raio de uma cassete somente. De que me serve isto? – Nesse instante, Cecília começou a sentir algo no estômago. De início não lhe parecia nada, mas depois deixou-a vergada. – Podíamo-nos concentrar antes no jantar. Estou esfaimada meu pintainho, e se esquecêssemos os filmes e atacássemos a lasanha?
- Um filme dizes tu?
- Película meu querido, magnética dizem, mas a mim não me atrai de todo, engambelada em camadas como se fosse lasanha. Já se me cresce a água na boca. Comemos aqui ou embrulhamos para levar? – Riu-se novamente.
- Essa agora!
- Quer me parecer, que hoje temos jantar, cinema e pinanço, fofinho. Só nos faltava encontrar um desses benditos vinhos estrangeiros para te por mais a modos.
Orgulho, repetia-lhe por diversas vezes. Nunca percas o orgulho Cecília. É tudo o que nos basta para nos mantermos sãos.
- Deixa cá ver então. Que ridículo. – Apeteceu-me dar uma gargalhada também. – Isto é uma cassete daquelas antigas. Um cartucho, melhor dizendo. Pode até nem ter imagem alguma. Aliás, tenho quase a certeza que não tem. Isto é um cartucho de oito pistas. Música Cecília, música perfeita.
- Oh! E então, hoje fodemos antes ou depois do filme?
- Cala-te lá com isso. Que inferno. Olha, vês? Está aqui escrito nesta etiqueta quase apagada: Ger... Gershwin! – Que achado. O Leandro deitou isto fora? É muito mais que simples música: “Porgy and Bess”, Meu Deus! Ias adorar ouvir isto. Esta peça é mágica.
- Música dás-me tu. Esqueces-te que tive uma vida antes de estar contigo? Julgas-me estúpida?
- Não. Não me esqueci disso.
- Então?
- Então o quê?
- Então vai à merda, pronto.
- Somos transparentes agora Cecília, invisíveis ao mundo, é como diz o Tito, e isso é a parte que nos toca na ordem natural das coisas. Adianta contrariar o presente com imagens do passado?
- Tu até podes ser, eu gosto de foder para esquecer e sinto-me viva por isso. Neste caso poderás contar em foderes o senhor Gershwin o mágico, esta noite, porque daqui já não levas nada.
- Não, chiça mulher... Mas que coisa, nem estou a falar disso sequer. Que raio!
Quando ela amuava ficava como um feto mirrado, encostada a um canto imaginário que divisava por mero instinto. Quando se soltava, era uma fera sem jugo. Nada havia que pudesse fazer, e isso excitava-me, sempre.
- Bem, acalma-te sim? Primeiro comemos o que houver, depois tratamos do que houver para tratar. O que eu não dava por um bom copo de vinho.
- Isto afecta-te mesmo a sério não te afecta meu garanhão?
- Põe uma rolha nisso, sim? Deixa-o ganhar depósito, assentar convenientemente.
- Senhor doutor da mula ruça! Já não há muito que assentar entre nós. O padreco anda de olho em mim outra vez. Desconfia de tudo o raça do homem, e suspeito que é aquela puta da Graciete quem lhe enche os ouvidos de mentiras. Olha-me com olhos de bala, cada vislumbre que me envia é um tiro directo. Ainda este Domingo passado falou na Jezebel e sobre a arrependida Madalena na recitação da homilia. Ele nem sonha que eu estou sempre lá atrás a ouvir tudo, o grande sacana. Achas que é pura coincidência?
- Tu costumas ir à missa?
- Claro. Todos os Domingos e no dia da morte da minha mãe, e também no dia da Santa Cecília, que é a padroeira dos artistas, caso não saibas.
- Não, não fazia ideia. Fui agente de seguros antes de...bem, antes de te conhecer, e não creio que os seguradores tenham santos de estimação. Andamos lado a lado com os banqueiros, os políticos e os vendedores de casas. Todos juntos fingimos a responsabilidade de sermos os novos santos padroeiros dos tempos de agora.
- Toda a gente tem um santo meu inventor esgalgado, até os sem-abrigo rezam de vez em quando, nem mais nem menos que os outros, mas também o fazem. Agora, o que te peço, é que não me achaques mais a cabecinha com essa história absurda da filharada. Peço-te por tudo! As pessoas como nós não podem ter filhos, não devem. Deus não quer ver neste mundo mais filhos de bêbados, putas e vagabundos. Já os há quanto baste.
- Não sou nenhum vagabun...
Interrompeu-me rápida com um dedo espetado na frente dos olhos.
- Pronto, pronto. Não queres falar disso, não falamos. Mas garanto-te que um filho nosso redimir-nos-ia de tudo.
Os olhos dela negavam essa evidência. Não conteve um gesto agitado, bruto. Expôs o peito duro, aproximou-se e empurrou-me, desajeitadamente deixando cair a lasanha no processo.
- De tudo o quê? Vês o que fizeste? Achas que preciso da ajuda de alguém? Parvalhão! Sempre a falar-me de orgulho, de orgulho. Onde está o teu orgulho então? Apanha isso e vamos embora para cima.
- Não vejo nenhum mal nisso. Podíamos ter um filho e criá-lo longe de tudo isto. Podíamos pois. Eu já me curei das minhas aflições, e tu...tu... Ah, merda! Posso ao menos levar o cartucho do Gershwin comigo?

Ela encolheu os ombros apenas.

...continua

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