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Breve relatório aos Ingratos


A ingratidão tem sérios problemas de visão na memória permanente. Vive a um passo da névoa absoluta. É talvez por se olhar demasiado ao espelho a compor as melenas, ou porque só vê ao perto, acaba por nem descobrir os rostos de antes, que até, consistentemente, lhe abrem os braços e tudo, mas ela nada. Com os pelos da crina na frente dos olhos só se lhe reflecte no vidro esmaltado um presente cheio de ângulos agudos, ou rasos, nem sei. Aquilo pouco tem de boa rectidão. Acho-a demasiado obtusa para o meu gosto.
Aliás, a ingratidão havia de cortar o cabelo com mais frequência. Ou isso ou desempoeirar da memória a falta de honestidade que a cega e a torna mais ingrata ainda. Sendo tal ainda possível.
Chamem-me arrogante, mas sinto pelos ingratos um misto de condescendência e asco que se alternam e potenciam mutuamente. Excuso-me da função de os compreender ou de lhes ter pena. Endurecem-me as intransigências menores e põe-me paternalista a jacto, mesmo sem querer. 'Aquilo' é gente desmedida de memória digo-vos. Bárbaros, ou pior. Ingratos mesmo. Sim, é isso mesmo. Não agradecidos aos favores, displicentes que nem compensam o amor que se lhes dedica. Desagradáveis à entrega com que se lhes consagra a dedicação passada e presente.
Das vis criaturas que me povoam os dias, as ingratas, são as piores. Abdicam da individualidade em muitas tarefas e deixam um rastro de fel por onde passam. Apontam as línguas bifurcadas aos centros glúteos mais apetecíveis e só furam oportunidades penetradas pelas circunstâncias. Aos ingratos é possível dar-se os bons dias, mas não tarda se descobre, que até isso nos desdenham. São más nos núcleos estas criaturas, podres na casca visível, deslizam quase invisíveis pelos interstícios dos espaços comuns das pessoas normais, mas estão mortos por dentro da empatia.
Alguns ingratos avulsos, um dia já foram nossos, e é por isso que são agora ingratos. Já receberam muito do pouco que lhes demos, mas não lhes bastou e quiseram mais, tudo. Tudo melhor. Os ingratos são também glutões, abrem o ego e devoram tudo e todos por onde passam, com bocas do tamanho da sua doença. Os ingratos constipam-nos pela internet.- Quem me dera que acabassem de uma vez com isso. - Sinto saudades dos modens lentos e das bibliotecas públicas.
Já entreguei o meu amor a um ingrato, foi num sábado. Emprestei-lhe a sala onde me esfaqueou o tempo que nunca me devolveu convenientemente. Um pack de momentos perdidos e muitos abraços desperdiçados. Muitos mesmo. Até fingi ignorar que me feriu de morte, porque me atirei às reconciliações de cabeça. O ingrato nem notou. Atrás do miserável ingrato fui muitas vezes, por me entender feliz, como parte da comitiva da sua amizade. É sempre assim com estes feitiços que destilam. Os ingratos dão as voltas que têm de dar, e congratulam apenas os que nem estiveram no seu crescimento, esquecendo-se num abrir e fechar de olhos dos que lá permaneceram indómitos. É típico da sua natureza. O ingrato é mais que arrogante, tem a maldade a correr-lhe no sangue.
Mas é astuto o ingrato, 'finge tão completamente, que chega a fingir que é' melhor que aqueles que foi deixando para trás. O ingrato tem genes de raposa, igualmente matreiro, um mestre auto-proclamado da sensação exultante e intelectual dos tempos rápidos. Até escreve poesia também, como os melhores ingratos da história da ingratidão contemporânea. O imediatismo é a sua arma e brande-a debalde pelos campos encharcados do sangue dos que deixou para trás. Dos seus esquemas nascem os labirintos que engendra para convencer os outros que nem é quem é. Tão ardiloso é o ingrato que ninguém lhe vê o passado, só o rosto exacto do tempo onde vive a fingir que é excelente e maravilhoso.
Em boa verdade, devo admitir que lhe invejo o quase vigor religioso com que constrói a sua 'persona'. O ingrato goteja aqui e ali, deita uns fumos neste e naquele ouvido, foi crescendo da mera mediocridade até à precisão da complacência dos melhores. Ah, sim. O ingrato conluia, viaja a ritmos terceiros, esbraceja por lugares à frente, tartamudeia promessas que não cumpre e levanta uma enorme crista, que nem possui. (talvez seja só cabelo?) O ingrato só liga aos grandes, porque os pequenos, não lhe trazem protagonismo. Os pequenos enojam-lhe a procissão perfeita. Pobres e miseráveis pequenos que se entregam a escrever textos obscuros procurando, ainda e sempre, a benção maldita dos ingratos. Há uma mancha escura no Sol, hoje. É a mesma mancha que sempre lá esteve e que a todos cega por igual.
Eu chamo-lhe assim, ingratidão. Outros, poderão vê-la de ângulos diferentes, pois é notório que nunca vemos uma história da mesma exacta maneira.
Um dia, sentar-me-ei com algum ingrato e perguntar-lhe-ei sobre o existencialismo da ingratidão: "Onde terias chegado sem pisares este caminho polvilhado de pequenos dedicados?"
E ele, dir-me-á assim: "Tivesses cabeça para me adorar mais e estarias onde eu estou agora." - Sim.
Saberei então, o que é um ingrato quase bíblico. E nesse dia purgá-lo-ei definitivamente da minha vida.

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