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Às vezes sem rumo.




Por cima de uma das janelas acesas podias ser tu. A meio do tumulto que atravessa a rua em dia de feira podias ser tu. 
Às vezes é sexta, outras vezes é para sempre. Ainda parei no canto brilhante onde nos encontramos para te aguardar a aparência. Veio um carro de vidro que passou com urgência, podias ser tu. Nem vi.
Até o tapume de protecção do prédio em construção tem um sorriso pintado, mas não é o teu. 
Podias ser tu sentada neste espaço aqui ao meu lado, a regressares baralhada, depois dos moinhos de vento de todas as palavras. Podias ser tu atordoada de imagens sob os candeeiros suspensos da minha rua, os que aliviam a minha paisagem sentimental. Havia ali uma nuvem vermelha que nos iluminou todo o ardor.
Podias ser tu sem persianas contra o calor. Corri aos campos arrumados em fotografias vivas, procurei por todas as fachadas decoradas com canteiros de surpresas. Tudo te mostrei ao retardador. Quilómetros e quilómetros de linhas escritas em ponto-flor e outros pormenores de natureza indefinida. Cada instante foi uma rendição à possibilidade infinita de cada dia. Não espreites o quartinho de casal onde guardo o amor da minha vida
Chorar que te perdi antes de te conhecer, seria tão claro neste caso que não o faço, só por rebeldia. Podias ser tu, se um lado partisse e o outro ficasse perdido sem saber pra onde correr. 
Mas, não, não é assim. Nem podia. Entre café e fraquezas fiquei a ver se me encontrarias.
E, entre os carros, pelo meio da rua, pulando um muro de noite, poderia ser um outro eu que tu descobririas. 

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