Avançar para o conteúdo principal

George A. Romero

"Night of the Living Dead" 1968

Os grandes são assim, eles morrem e a gente põe-se em bicos dos pés, a falar de nós a pretexto deles, tentando abocanhar a nossa pequena parte da história. A minha nasceu com este filme: "Night of the Living Dead" que vi na RTP 2 lá pelo estranho ano de oitenta três ou oitenta e quatro, em uma idade em que mal me cresciam os pelos em sítios sem luz solar. Podia jurar que estive muito valente lá sentado, às escondidas do sono leve dos meus pais, mas não seria verdade. Raio de coragem do homem, que se lembrou de reinventar um género inteiro de cinema, e de trazer por arrasto milhões de pessoas a desejarem se assustar.
Segui-lhe o palmarés com atenção redobrada este tempo todo e nunca muito me desapontou. Encontrei-lhe a veia criativa a vir de novo ao de cima no delicioso e mui inteligente: "Dawn of the Dead" 1978, que ainda hoje me empurra para longe dos centros-comerciais, menos inchada em "Day of the Dead" 1985, mas já lhe vi a genialidade tantas vezes homenageada, e o seu assomo de reinvenção tantas vezes copiado, que apesar da natureza abrupta do tema, seria impossível colocar este homem num panteão cinematográfico abaixo de muitos outros. Estes últimos dias tem sido de uma pequena sangria em nomes do cinema que me deixam saudades. O desaparecimento de certas pessoas matam-nos a todos um pouco. Passei mais um dia a rever cinematografias e depois, não me importo de me amaricar aqui um bocado, fui fungar qualquer coisa contra a tirania da morte.

George A. Romero (1940-2017)

Mensagens populares deste blogue

Jorge Machado

Ninguém nunca sabe ao que vem, viver é um ensaio. Dão-nos o que fazer e coisas para que acreditemos e depois ficamos à solta. Dão-nos o nós e a vida de barro, mas há quem faça o que bem entende gostar de fazer. E até há quem o faça muito bem. Ninguém nos explica direito, em pequenos, que as coisas mudam e partem e ausentam-se, e que antes de aqui chegarmos, já o seríamos, mas que tudo se cria e que tudo se nos pode escapar. Carecemos de um olho arguto e atento para captar o que mais conta, até à eternidade. Eu, por boa sorte, tenho um amigo, que por sorte também é o meu melhor amigo, que entende muito bem que há tempos de equívocos, de medo e de combate. Que o mundo, de tão duro e belo até ao fim é mais colectivo se for partilhado em imagens, que nos deixem estarrecidos. O Jó sabe disso de querermos ser felizes, nisso somos mais que irmãos.  E desde catraios entendi nele, o seu lugar exacto. O seu carácter metódico, rigoroso é a pedra de toque da sua vida e da sua paixão, a fotografia. …

Dia sim, dia não, uma beleza antiga.

Peido, logo existo!

Hoje, o Homem exalta-se a si mesmo constantemente.

Confesso que nunca me pensei como um moralista de bastidor, daqueles provedores de sofá que despejam dislates em frente ao televisor, e depois, insatisfeitos, rumam às redes sociais a mostrar ao mundo como a cabeça lhes chegou aos dedos. Ontem apercebi-me que sou. É uma idiossincrasia quetalvez me tenha chegado com a idade. Certas noções de certo e errado começam finalmente a assentar cá dentro.  Todos sabemos sobre o terrível incêndio, sobre as vítimas, a indefinição de culpabilidade, os deslizes da, por vezes, muito pobre comunicação social que os acompanhou. Todos já sabemos tudo sobre isto, demasiado quiçá. Por altura destes tempos imediatos, nem o mero escapar de um gás de algum mosquito se livra do escrutínio continuado e multi-interpretado. É assim que são as coisas agora. Muito úteis a espaços, em momentos e situações que de outro modo passariam despercebidas da maioria, como revoluções, catástrofes, violações dos direitos hu…