Avançar para o conteúdo principal

É tão correcto isto.


Esta coisa do "politicamente incorrecto" é uma chatice do caraças. Um estorvo tremendo.
Gostava de ter o direito de dizer: "não gosto" acerca de mais gente. De me poder chegar à frente e gritar: é estúpida esta pessoa, é ignorante, está doida esta pessoa. Pronto. Sentir-me capaz dos pés à cabeça em vez de uma amostra de cagufe, cheio de pruridos.
Fosse essa pessoa parte de que espécie de gente for, de que grupo ou de que tribo. Seja essa pessoa uma multidão ou uma minoria. Sejam estas pessoas médicos alarves, ciganos preguiçosos, venezuelanos prepotentes, gays, escritores de sucesso, políticos locais, pessoas que escondem mortos dos incêndios, amigos de chacha, optimistas ferrenhos ou mesmo pessoas que dormem amarradinhas aos seus cães. Gostava de dizer isto mais vezes e com toda a segurança. Apontar dedos e passar o ónus da vergonha para o outro lado.
Quer dizer, o direito tenho-o todo e o poder de o exercer voluntariamente sem receios também, a chatice concerne-se com essa coisa do "politicamente incorrecto". 
Se há expressão mais inquietante, e desconfortável perante os silêncios entre conversas, é essa. Traz um medo agarrada, e põe todos em biquinhos de pés. Quando se devia (e podia) pensar, construir, organizar e expressar livremente qualquer ideia e opinião que se deseje, entra-se em modo táctil,  armamo-nos em diplomatas espontâneos, ponderando os ângulos, a possibilidade de que aquilo que nos apetecerá dizer irá acabar por ofender um grupo inteiro de gente. Grande ou pequeno, não interessa. Há sempre algum de todos por todo o lado, mesmo naqueles mais improváveis. Não o fazemos, claro, porque somos todos tão sociais que nos acagufámos face à ofensa possível pelo medo da exclusão entre partes. Partes essas que, muitas vezes, nem conhecemos, não nos interessámos.
O passo seguinte, ao modo táctil, é o do desconchavo, num instante tornámo-nos bestas irracionais, e logo aí perdemos todo o direito ao correcto. É desse medo atónito que rói as pessoas, que nasce a minha pega com o "politicamente incorrecto".
Fazer parte de uma minoria não é nenhuma carta branca para falhas de carácter ou de personalidade. Todas as minorias contêm idiotas como no resto da humanidade, lá por se fazer parte de uma, não significa que se possua algum salvo conduto moral.
Como assim se determinou assim ficou. Lembra-me o Yul Brynner, dos "Dez Mandamentos", feito Ramsés a ditar desde as tábuas dos seus ancestrais as regras para o Egipto e para o resto do mundo: "So it is written so it shall be done." - Isto é a apologia perfeita ao "politicamente incorrecto". Tem de ser assim, e ai de quem diga o contrário.
Eu, por exemplo, sofro de preconceitos por ser branco, feio, média estatura, peso acima da média e sobretudo por ser ranhoso e escrever estas coisas. Mas, nem por isso faço algum cavalo de batalha desta posição minoritária, para conseguir avanços ou aproveitamentos.
Há muito gente chata, desonesta e incompetente dentro das minorias, claro que há, pois são pessoas também e entre todas as pessoas existe sempre quem sofra disso. Pessoalmente, dou-me ao direito de apontar o dedo a quem se quer resguardar debaixo desse escudo, sendo igual ou pior que aqueles que os criticam.
Como dizia Bukowski: "O Problema do mundo é que as pessoas inteligentes estão cheias de dúvidas, enquanto que, as estúpidas, estão cheias de confiança."
A haver verdadeira liberdade nem tampouco se consideraria comum a existência de minorias. Se existem, é porque, andamos tão cegos uns contra os outros, ou porque a verdadeira liberdade será uma utopia, ou porque simplesmente, ainda lá não chegamos, ao ponto da igualdade total.

Mensagens populares deste blogue

Jorge Machado

Ninguém nunca sabe ao que vem, viver é um ensaio. Dão-nos o que fazer e coisas para que acreditemos e depois ficamos à solta. Dão-nos o nós e a vida de barro, mas há quem faça o que bem entende gostar de fazer. E até há quem o faça muito bem. Ninguém nos explica direito, em pequenos, que as coisas mudam e partem e ausentam-se, e que antes de aqui chegarmos, já o seríamos, mas que tudo se cria e que tudo se nos pode escapar. Carecemos de um olho arguto e atento para captar o que mais conta, até à eternidade. Eu, por boa sorte, tenho um amigo, que por sorte também é o meu melhor amigo, que entende muito bem que há tempos de equívocos, de medo e de combate. Que o mundo, de tão duro e belo até ao fim é mais colectivo se for partilhado em imagens, que nos deixem estarrecidos. O Jó sabe disso de querermos ser felizes, nisso somos mais que irmãos.  E desde catraios entendi nele, o seu lugar exacto. O seu carácter metódico, rigoroso é a pedra de toque da sua vida e da sua paixão, a fotografia. …

Dia sim, dia não, uma beleza antiga.

Peido, logo existo!

Hoje, o Homem exalta-se a si mesmo constantemente.

Confesso que nunca me pensei como um moralista de bastidor, daqueles provedores de sofá que despejam dislates em frente ao televisor, e depois, insatisfeitos, rumam às redes sociais a mostrar ao mundo como a cabeça lhes chegou aos dedos. Ontem apercebi-me que sou. É uma idiossincrasia quetalvez me tenha chegado com a idade. Certas noções de certo e errado começam finalmente a assentar cá dentro.  Todos sabemos sobre o terrível incêndio, sobre as vítimas, a indefinição de culpabilidade, os deslizes da, por vezes, muito pobre comunicação social que os acompanhou. Todos já sabemos tudo sobre isto, demasiado quiçá. Por altura destes tempos imediatos, nem o mero escapar de um gás de algum mosquito se livra do escrutínio continuado e multi-interpretado. É assim que são as coisas agora. Muito úteis a espaços, em momentos e situações que de outro modo passariam despercebidas da maioria, como revoluções, catástrofes, violações dos direitos hu…