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A tecla de Heisenberg


A sensibilidade, que tem tanto respeito pelas datas especiais, fica tão invisível no resto do tempo comum. Nem parece fazer parte da carne, traz um doer indiferente ao peito diante do mundo e sedimenta histórias para uma existência em camadas soterradas.
Muitos acham que é depressão, mas não é. A dor dessa tristeza é diferente. É como comparar uma pedra no rim com uma comichão. 
Cai a luz pesada da tarde sobre os móveis, vejo o espadanar dos primeiros pássaros, em amplexos pela sombra dos arcos e sinto que só vigio entradas. Ora de pé, ora sentado. em contra-luz, de frente para a vida dos outros. Pássaros, carros, pessoas, as árvores ao vento, todos me vão gesticulando com a cabeça e com os lábios sem som. Eu aceno em retorno, mas ninguém me vê. É um princípio de incerteza.
Sinto-me demasiado arrumado aqui, sempre a bater na mesma tecla e posto para trás. Queria sentir a emoção de um convite para escrever, em vez de escrever, para mim apenas.


Quase parece que me reformei há dias para saber dos progressos do Verão e almoçar chá verde e iogurtes de dieta. Várias vezes por semana caio, observando os outros, na praça, em suas constantes, sem possuir dois níveis de luz. Só tenho este, que é do contra.
Não mantenho conversas, assinei um jornal e habituei-me a molhar os dedos quando viro uma página. Entendo-me bem com as gaivotas que a nortada empurra aqui para a praça. Tenho dias de desprendimento, saio de casa e espraio as pernas ao tempo. Volto para casa, consulto o e-mail, o facebook, a caixa do correio, e a mesmíssima tecla insiste em tocar, dentro da minha cabeça. nenhum convite para escrever, só correio indesejado.
Pus-me a arrumar uns papeis de janelas abertas, está demasiado calor para introspecções. Há aqui combates de manutenção e engenho e talvez pudesse até ser boa companhia, se não mastigasse a paciência dos outros, enquanto falo, agoiro e suspiro. O melhor será calar-me e ir verificar a validade dos iogurtes.

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