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Bocados de Gente



M.c. Escher - Perspective en combe et ogive


Acordei um destes dias, todo sobressaltado com a ideia do desapego. Aquilo provocou-me suores frios galopantes. Sim, é verdade. Sou menino para acordar de noite com estas "coisas", quase naturais da existência humana, provocam-me sinusites e falta-me o ar ao sono. O desapego preocupa-me. Pratica-lo tornou-se tão mundano, que passou a fazer parte das novas filosofias de vida, espalhadas como cancros pela nova sociedade virtual. É um embate constante.
E de que embate se trata? Desde logo, do embate entre a visão instrumental e manipuladora da razão que não é razão nenhuma. Só faclitismo bacoco. É mais fácil a distância, mais confortável o afastamento.  Situações muito pertinentes à praga da preguiça do milénio. Distantes, parecemos mais que só alguns reunidos à mesa do café. Não é nenhuma ideia peregrina, o facto de ter assentado tão bem é que desconcerta. Quanto mais longe nos pomos uns dos outros, ingénuos na realização de que assim seremos melhor aceites pelas grandes manadas, logo mais seguros, mais tristes e frustrados ficamos. Sobretudo porque, o longe, muitas vezes, é já aqui ao lado, e ninguém nos tapa os olhos. Pelo contrário, a abertura está exposta de tantos lados, e só não a vê quem não quer ou quem lá não está. Resultado: mais tristes e frustrados ficamos ainda. E o ciclo perpetua-se. Desapego intencional.
Grassa um desinteresse generalizado por todos os que não fascinam ao momento exacto da interacção. A bruta indiferença, chega por vezes, a ser constrangedora para quem, como eu, ainda se surpreende com a forma como o mundo emocional involuiu só nesta última década. 
Desligamo-nos tão facilmente das pessoas, de formas tão frias e concisas, finais, que acabamos desapegados à própria hermenêutica da palavra. 
O desapego sistemático é feio e cruel, e pior, é de auto-prejuízo.
Há muita gente gulosa por afectos, uma colecção bonita de figuras, todos intrigados com a ideia da amizade, companheirismo, entre-ajuda, idólatras quase, que se imaginam ainda capazes de gostar do outro, do trabalho do outro, das coisas do outro. Cheios de energia amistosa, vontade de exercitarem essa tremenda liberdade de se sentirem atraídos por alguém que não é ninguém em especial, só um "outro", como eles. Ainda existe esse frémito expressivo, eu sei que sim, no entanto, a situação forçada da actual ordem emocional empurra-os a todos para a desconfiança. Agarra-os imediatamente pelas orelhas do deslumbramento imediato aos totens eméritos e aos novos rostos da sensação. É inevitável. Estão por todo o lado, existe uma aceleração constante de emoções manipuladas, e esta massificação ganha muitos corações indecisos. - É pena. 

Na nossa cultura somos treinados para nos igualarmos a todos. Ser diferente é demasiado assustador e completamente anacrónico. Tentem explicar isto a uma menina de quinze anos e verão um ar relaxado de quem sabe que está no rumo certo, mesmo que o seu rumo seja igual ao de milhões. É preciso chamar os bois pelos nomes, sendo que os bois aqui são todos castrados, sem espírito combativo. Se olharmos para cada pessoa, a primeira reacção é inseri-la em um modelo; inteligente, estúpido, novo, velho, medíocre, bem-sucedido, feio, bonito, pobre, rico... fazemos constantemente estas distinções instintivas e inconscientes, pomo-nos uns aos outros em categorias, tratando de interagir em conformidade com as caixinhas onde nos pensamos mais acomodados. 
O afastamento é feito do mesmo modo também. Assim se originam as tribos modernas. O que para um grupo é o tecto, para outros não passa de uma parede. Alguns vêem portas, a maioria, só buracos no chão. Nem nos apercebemos que, ao fazê-lo, separámos o "outro" de nós, do modo claro como os catalogamos, colocando-nos por defeito, no canto mais distante possível desse. 
Chega a ser ridículo, na medida de que, começamos todos com a mesma fome de afectos, e a razão continua a não ser, quando nos jogamos em grupos onde só vemos espelhos. Não seria preferível a surpresa, a aprendizagem, a descoberta? Não seria melhor contrariarmos e gostarmos de fulano porque sim, em vez de sicrano, porque é de quem todos gostam? Seria pois.
Uma das características mais dramáticas desta acção inconsciente, é estar-se junto de alguém, e, de repente apercebermo-nos que, em certos aspectos, ele é exactamente igual a nós, nada diferente, igual. O mais importante seria a compreensão de que nem há nenhum "outro", somos todos um, caramba. 
Mas, até lá chegarmos será um longo e sinuoso caminho de desconstrução do desapego enraizado. Um retorno pacífico ao passado das conversas e dos amigos e das entregas. Tribos na mesma, é certo. O ser humano jamais se libertará deste espírito agregador comum. Mas uma "coisa" mais sadia, mais humana. Parecia que andávamos todos ao ar livre quando assim éramos. Agora fechamo-nos dentro da tecnologia social. Pelo menos, estávamos juntos no mesmo lugar, o eu e o "outro". E se lhe quiséssemos dar um abraço, dávamo-lo. Se me quisesse dar um soco, também, porque não? Não existia ruído perturbador pelo meio, só pessoas a serem pessoas. No fim poderia ser este todo o apego ou toda a ruptura que merecemos, nada desses labirintos confusos que nos metem a cabeça para o chão e o corpo desalinhado com a confiança.
Quiçá um dia venhamos a ser pessoas novamente, em vez de bocados de gente colados a outros bocados parecidos. Sonho com isso, e retomo o sono, um pouco mais descansado.

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