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Mandato de despejo aos mandarins



Dias desabotoados como amarrotadas camisas,
marinheiras e feias.
Não faz mal nenhum ser feio até ao fundo.
O pior são as noites que terminam os dias já por si acabados,
ou as mornas madrugadas a forçarem só olhos tapados,
como nos imensos festivais.
Ou mesmo a inépcia lamacenta, onde me entrego e afundo.
O pior é ser sujo e desperdiçado por todo!
Algures, haverá um rio extenso a correr livre entre os sulcos mais perfurados,
nalgum campo disperso, encravado entre duas belas aldeias,
ou alguma praia desconhecida, só falada em sussurros pelas suas boas brisas.
Nunca as descobrirei aqui metido neste lodo.
Num mundo escasso de pessoas iguais,
os que tudo ignoram são e serão, sempre, os mais afortunados.
Adiante...
Noites suadas ao som inteligente de um David Bowie falecido.
É hora de pagar a luz antes que algum deus descubra a minha morte,
e me cobre os impostos atrasados da não-existência.
Nunca lhes quis fazer mal, mas fui fazendo-o, só por acaso,
pois o acaso é dos padrastos o menos compadecido.
Na verdade, a culpa foi do anel de noivado que nem sequer fingia ser diamante,
depois chegou a hora final, como que num vazamento,
deixei-me ir, e, sem alvoroço ou alarido,
acabei numa vida que começou definida com um prazo.
Não conheço ninguém que implorasse pela minha permanência,
agora, ou em nenhum outro momento.
Tomara que alguém me tivesse dado ordem de despejo,
entre o caudal dos anos e a filosofia real da vida.
Significaria menos cigarros fumados,
Menos copos bebidos,
Mais viagens e pessoas com as quais quase me comprazo.
Mas não, acabou tudo nesta ignóbil contagem decrescente
até à noite onde todos os dias começaram acabados.
Se tivesse sido mais homem,
em vez deste conjunto de actos indecididos,
quiçá estivesse ainda vivo e este poema não fosse assim, tão inclemente!





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