Avançar para o conteúdo principal

Memória Curta.


A memória é quase sempre o sangue a correr-nos em nome próprio. Se algum dia se escreverem biografias de nós todos, dir-nos-ão: "És aquilo que foste." - És memória portanto. - Daí que se escrevam tantos Romances de nós, escassas biografias.
O Romance escreve-se assim: "És tudo aquilo que queiras, desde que o imagines com ou sem memória." - Sem memória até sabe melhor. - Porém, dizem da memória que é guardiã ambivalente. Criatura bicéfala que vê o passado de um lado, o futuro, do outro.
São só esquemas dentro de engrenagens dentro de tramas dentro de nada. Escrever Romances faz doer tanto a memória, naquele ponto martirizante de se andar a assinalar etapas como se estas fossem parte de algum roteiro fascinante. E se a memória for um bairro-da-lata, povoada de cães famélicos, ruínas e pessoas de virtude duvidosa? - É natural que assim não se escrevam tantas biografias. Os leitores iriam encontrar páginas intermitentes, lacunas, onde a verdade mal poderia ser recordada, por ser tão infinitamente triste, um gorgolejo aqui, uma escarradela ali, e o resto só Sol e pôneis e cabanas brilhantes cheias de gente, a amar-se como chinchilas. Seria sangue nosso à mesma, mas quem quererá vê-lo a fluir entre os ramais de um esgoto? Tão longe da luz que lhes apetece recordar, só porque nem lhes pertence.
A memória é uma roubalheira, e nós, os ladrões.
Contra a tentação de recordar qualquer coisa particular aqui, só porque ainda não sou assim tão transparente e luminoso, acabo já, evitando dar o prémio à má-língua.
Imagino que assim parece melhor.



Mensagens populares deste blogue

Jorge Machado

Ninguém nunca sabe ao que vem, viver é um ensaio. Dão-nos o que fazer e coisas para que acreditemos e depois ficamos à solta. Dão-nos o nós e a vida de barro, mas há quem faça o que bem entende gostar de fazer. E até há quem o faça muito bem. Ninguém nos explica direito, em pequenos, que as coisas mudam e partem e ausentam-se, e que antes de aqui chegarmos, já o seríamos, mas que tudo se cria e que tudo se nos pode escapar. Carecemos de um olho arguto e atento para captar o que mais conta, até à eternidade. Eu, por boa sorte, tenho um amigo, que por sorte também é o meu melhor amigo, que entende muito bem que há tempos de equívocos, de medo e de combate. Que o mundo, de tão duro e belo até ao fim é mais colectivo se for partilhado em imagens, que nos deixem estarrecidos. O Jó sabe disso de querermos ser felizes, nisso somos mais que irmãos.  E desde catraios entendi nele, o seu lugar exacto. O seu carácter metódico, rigoroso é a pedra de toque da sua vida e da sua paixão, a fotografia. …

Cinco minutos

Assumi escrever isto em cinco minutos, sem tempo para hesitações. É só para esvaziar, para não me deixar soterrar pelas avalanchas da inadequação.  Os meus olhos saltam perdidos entre os grandiosos eventos estivais, apanham respingos das fontes iluminadas com os rostos eleitorais, entram pelas bibliotecas dentro, todas maiores que os meus medos. Param nos cafés lotados de soberba, cheios de viciados em exposição, a transbordarem pelas esplanadas, parecem todos mais cansados que eu com as suas roupinhas de férias.  Tanta feieza e formosura juntas que já não tenho certezas sobre como saber separa-las. Ou se devo. Ou se preciso fazê-lo. Ninguém me mandou andar por aqui, ao acaso, a procurar personagens absurdos. Aqui fora, todas as montras são íntimas, e ninguém mostra vergonha de nada comprar. Aqui fora vêem-se os rostos, olhos nos olhos, enquanto rejeitam de frente. Dói, mas é melhor assim. Durmo e tenho sonhos estranhíssimos em que ajudo pessoas que parecem nem precisar de mim. Afastam-s…

As Crónicas do Senhor Barbosa III

O Senhor Barbosa acredita que já nada o pode magoar. Nem o desprezo passado, presente ou futuro, nem o cão esgalgado da vizinha, de dentes longos, nem a hesitação insípida do amor mais ou menos alvoroçado, nem a morte, nem nada. Nada mais lhe poderá acontecer de tragédia inventada. Já outros a inventaram por si. Olha para os reflexos e sabe que isto é de uma tal arrogância que até lhe faz doer os dentes postiços. Ri-se e prossegue a acreditar na sua recém-criada fortaleza inexpugnável. Mas, o Senhor Barbosa não fecha os olhos debalde, e sabe que, em tempos difíceis, às vezes é preciso morder a laranja para a poder descascar. Nada significa o que quer que seja até ao dia seguinte, altura em que voltamos a fazer contas à vida. É quando o riso cessa. Sabe isto e mesmo assim ri. Porque não? Está tão bêbado que outra coisa não lhe ocorreria fazer. O que é difícil é ultrapassar a espera pelo dia seguinte. Ali estava outra vez o ruído. Aquele ruído frio, cortante, vertical, que tão bem conheci…