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Diário de um Pária filho-da-puta que deixou de fumar há dois dias e agora parece um camelo cheio de sede e a. (Isto é a sério meus amigos...)


Tenho saúde para dar e vender, (isto sem visitar algum médico há mais de três anos. Para quê? Esses tipos querem-nos doentes com alguma coisa, seja o que for. De outro modo não conseguem comprar vivendas ultra-estilizadas nas ilhas, quaisquer ilhas. E quem compra casa cheia de estilo numa ilha, sem o benefício de ser um ilhéu de nascença, ou algum saudosista inveterado, é filho-da-puta por definição, ou alguma espécie moderna de hipster então, o que acaba por ser quase a mesma coisa.) - Nenhum hipster de agora chegará aos pés da genialidade de um William S. Burroughs em Tanger, nos anos 50 d0 Século passado, uma ilha ocidental em meio de algum islamismo moderado.
Ah, esperem. Existem também aqueles que foram casar fora, às ilhas. Esses são inócuos ao meu ponto de vista. - É que tenho um amigo desses!
Menos de 40 anos, algum dinheiro no banco e Audi's topo de gama, que só eles e as forças de autoridade à paisana conseguem obter. São estas as pessoas que me incitam à consulta prévia) - Médicos? Não, obrigado! Falta-me é o guito para estes vícios legais. Gostava que ficasse isto muito, mas muito claro! - Sou egoísta por tudo e mais alguma coisa, e pouco me importam as questões de saúde. - Ao toque repenicado, dos primeiros 20, 30 minutos, de exclusão deliberada a tudo derivado e/ou consequente da querida nicotina, o corpo fugiu-me logo ao controlo, o cabrão! 
A pulsação e tensão arterial começaram a desabar a pique e pressenti um estranho formigueiro acalorado nos pés e nas mãos agitadas, que foram ficando mais e mais quentes, exponencialmente. Havia de andar sempre com um termómetro no bolso, para medir os níveis de ridículo que experimentei nesses primeiros minutos. A desculpa perfeita foram os dentes novos. A razão, toda ela tão imperfeita, os dentes novos também. E a noção meramente financeira, de que, os haveria de pagar durante os próximos quatro anos, invocando um corte na despesa do tabaco, por balanço.
Equilibro-me, logo, para quê destruí-los à partida, com os mesmos vícios nefastos de sempre? - Vou deixar tudo, fazendo-me de Hércules fingido! - Não tenho nenhum cigarro por perto. Quer dizer, tenho-os, mas insisto em não gastar metal com isto. É mais um princípio que uma determinação. Tenho alguns Euros e um Café abastado por perto. - Força de vontade? Não! Nenhuma. Só não quero ficar mal face ao princípio que auto-determinei. - Deixar de fumar pode bem ser uma birra!
Oito horas depois: Assaltava, sem expressão emocional qualquer, a caixa de alumínio encarnada, com relevos de Coca-Cola, onde o meu filho ocultava as suas beatas fumadas à socapa. O absurdo sobre o absurdo!  - Quase como se fosse eu próprio um absurdo dentro deste vício intrínseco. Os níveis de monóxido de carbono no meu sangue baixavam  à do oxigénio que aumentava sem pedido. Caminhava melhor e quase que respirava.

Amanhã conto-vos o resto...


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