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Um livro tão, mas tão pequenino, que nem peço que cresça, somente que nasça.


Excerto:

(...)
Encostava-se tanto e tanto e tanto que chegava a magoar-se nos ossos mais finos e a sentir-se desfalecida no baixio côncavo de carnes fúrias das ancas. Subiam-lhe náuseas pelo peito acima, saindo-lhe pela boca arcada num hálito azedo que formava palavras desconhecidas. Raiavam-se-lhe os olhos em capilares há muito adormecidos, empolando-os para fora como gordos berlindes apetecíveis. - Depois disto podemos comer um hamburguer com queijo e uma Coca-Cola? - Perguntou, apesar de cedo, mas com o Sol já forte. - Ainda me vais dizer que queres batatas-fritas também. Tamanho grande. - Eclodiu Mateus por baixo das mãos incautas. 
Não havia como que melhor a enganar: o instante mais carnívoro que carnal era uma realidade paralela a fingir que poderia ser uma realidade paralela deste lado do Universo, ligeiramente retorcida sim, mas perfeita imitação binária da vida real. Não queria tocar-lhes em mais lado nenhum que não fosse território exclusivo de Mateus, embora lhe apetecesse muito. - Que queres daqui? - Deves de estar a sonhar, algum pesadelo vá. – Agora, ele ali, e as vozes das crianças, lá em baixo na rua, alargando-se numa postura desordenada, cantando ladainhas monótonas tão familiares, levantando as mãos à altura da sua janela, e agitando os pequenos dedos infectados de lama, espetados na sua direcção. – A vida não me derrota, a vida não me derrota, nhé nhé nhé. – Cantavam. – Rais’ partam os putos! - Desviou os olhos e devolveu-lhe a atenção. Ainda agora mesmo lhe deveria ter dito assim: - Que queres? Deves de estar a sonhar, algum pesadelo vá. Entraste na casa errada sem dares fé. Eu não te sou nada, nunca fui. Sou-te um pesadelo, vá. – Mas não disse, não disse nada que se assemelhasse sequer. Lembrou-se dos olhos dele, os seus olhos de amora, que durante todos os momentos da carne com a carne se iluminavam de uma maneira peculiar, quase grata. Sentiu saudades dessa estranha luz. Procurou-a durante tanto tempo e em tantos lugares e homens diferentes, mas nunca a descobriu igual. Sentiu-lhes a respiração, a tesura das pernas, mas, nunca o olhar do Mateus. Ninguém nunca ficava de lado, assim, quase num perfil grego, a olhá-la com tanta dedicação, depois do sexo. Ninguém. 
Porém, lá no passado, cada vez mais inquietos, aqueles estranhos olhos, um dia deixariam de figurar no retrato a dois. E pronto, foi assim que tudo se acabou.
(...)

Miro Teixeira
2014

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